sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

Atividades Gerais do FSM Temático- Bahia

Para mais informações, consultar:

http://www.fsmbahia.com.br/

O Comitê Organizador Baiano do Fórum Social Mundial Temático – Bahia com base nas propostas recebidas indicou quais serão as atividades gerais do evento e a lista de convidados que deseja que se façam presentes em Salvador entre os dias 29,30 e 31 de janeiro de 2010.
Foram definidas 12 mesas e diversos eventos especiais referenciadas nos cinco eixos temáticos aprovados.

Veja a distribuição das mesas:

-Testemunhos da luta indígena;
- Desaparecidos políticos;
- A esquerda hoje e a contribuição dos pensadores da América Latina e África;
- Racismo e institucionalidade;
- Etnocentrismo e eurocentrismo;
- Militarização das periferias urbanas e ameaça à democracia;
- Educação e desenvolvimento;
- Mulher, crise econômica e emancipação;
- Fobias, intolerâncias e lógica igualitária;
- Descolonização do pensamento na América Latina e África;
- Reforma agrária, agricultura familiar e soberania alimentar;
- Governança, paz mundial e solidariedade internacional.

Os eventos especiais escolhidos foram Diálogo e controvérsias entre governantes e movimentos sociais; ato em homenagem aos 50 anos da Revolução Cubana; conferências e seminários com grandes nomes nacionais e internacionais; debate-show Ofício de Viver Samba, reunindo sambistas cariocas e baianos; Encontro Cine Social Mundial; duas cimeiras internacionais (sobre trânsito e vida e sobre a pessoa idosa) e, finalizando, o Simpósio Internacional das Religiões de Matriz Africana.
Entre os convidados indicados estão os filósofos István Mészáros da Hungria e David Harvey dos EUA, os economistas Samir Amin do Egito e Immanuel Wallerstein dos EUA, a especialista alimentar Susan George dos EUA, o educador Moacir Gadotti, os sociólogos Bernard Toro da Colômbia e Jorge Bernstein da Argentina, a francesa Danielle Miterrand, o português Boaventura Santos, os teóricos da comunicação franceses Bernard Cassen e Inácio Ramonet, além dos ministros Tarso Genro, Carlos Minc e Franklin Martins.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Os primeiros Fóruns Sociais de 2010

Kpomassé, Madri, Praga, Salvador e Porto Alegre estão entre as cidades que darão início às celebrações dos 10 anos do processo do Fórum Social Mundial em 2010. O calendário de eventos começará na Grande Porto Alegre, com o I Fórum Social e a I Feira Mundial de Economia Solidária, de 22 a 24 de janeiro, em Santa Maria. Logo depois, no dia 25, terá início o Fórum Social 10 anos Grande Porto Alegre. Na mesma região acontecerá também, de 26 a 28 de janeiro, o Fórum Mundial de Teologia e Libertação em São Leopoldo. Ainda no Brasil, Salvador receberá de 29 a 31 o Fórum Social Temático da Bahia.

Na cidade de Kpomassé, no Benin (África), acontecerá, de 28 a 31 de janeiro, o II Fórum Social Local do Atlântico, cujo tema será “os impactos das crises financeira e alimentar mundiais na agricultura africana: respostas e alternativas cidadãs”. Cerca de 1500 participantes são esperados. A primeira edição do evento reuniu 1200 pessoas, em 2008, na cidade de Allada. Dentre os objetivos principais do FSLA está “a defesa das posições e estratégias das diferentes organizações sociais para lutar contra os efeitos das políticas econômicas neoliberais, e a consolidação da articulação entre os movimentos sociais locais e o Fórum Social Africano para responder às expectativas do FSM 2011 em Dacar”.

No continente europeu, dois eventos irão acontecer em janeiro: de 28 a 31 será realizado o Fórum Social Mundial Madri 2010, no E.P.A. Patio Maravillas. Essa será a terceira edição do evento na capital espanhola. Entre os temas que serão discutidos estarão: crise e alternativas globais; meio-ambiente; energia e clima; Europa; América Latina; Ásia e África; economia social e comércio justo; educação; saúde; movimentos sociais; feminismo; migrações; lutas sindicais; Estado e lutas políticas; e memória histórica. Já na República Tcheca, três cidades irão receber o Fórum Social Tcheco, nos dias 29 e 30 de janeiro: Praga, Brno, e Usti nad Labem. A programação do evento inclui seminários, workshops, manifestações e eventos culturais durante a noite.

Ao longo de 2010, o processo do Fórum Social Mundial será realizado de maneira descentralizada com eventos e atividades ao redor do mundo. O objetivo principal dos eventos será acumular, a partir das análises e experiências das organizações e movimentos sociais da sociedade civil planetária, propostas para enfrentar a crise global em todas as suas dimensões – econômica, ambiental, política, alimentar, energética, cultural, etc. A convergência de todo esse processo irá acontecer em Dakar, no Senegal, durante o Fórum Social Mundial de 2011.

Serviço:

I Fórum Social de Economia Solidária e I Feira Mundial de Economia Solidária
Onde: Santa Maria e Canoas (Grande Porto Alegre) - RS - Brasil
Quando: 22 a 24 de janeiro (Santa Maria) e 25 a 29 (Canoas)
Contato: ecosol@fsmecosol.org.br
Site: http://www.fsmecosol.org.br

Fórum Social 10 Anos Grande Porto Alegre
Onde: Grande Porto Alegre - RS - Brasil
Quando: 25 a 29 de janeiro
Contato: fsm2010@yahoo.com.br
Site: http://www.fsm10.org

Fórum Mundial de Teologia e Libertação
Onde: São Leopoldo (Grande Porto Alegre) - RS - Brasil
Quando: 26 a 28 de janeiro
Contato: Secretaria Permanente do FMTL - permanentsecretariat@wftl.org

II Fórum Social Local do Atlântico
Onde: Kpomassé, Benin
Quando: 28 a 31 de janeiro
Contato: Yoro Bi Ta Raymond: forumsocialbenin@yahoo.fr / fosoloa@yahoo.fr
Site: http://fsla.outrenet.com/

Fórum Social Mundial Madri 2010
Onde: Madri, Espanha
Quando: 28 a 31 de janeiro
Contato: comunicacion@fsmmadrid.org
Site: http://www.fsmmadrid.org

Fórum Social Tcheco
Onde: Prague, Brno, Usti nad Labem - República Tcheca
Quando: 29 e 30 de janeiro
Contato: Marek Hrubec - marek.hrubec@gmail.com

Fórum Social Temático da Bahia
Onde: Salvador, Brasil
Quando: 29 a 31 de janeiro
Contato: grupofsmbahia@yahoo.com.br

Informações divulgadas sobre o Forum Social Mundial na internet.

sábado, 19 de dezembro de 2009

Projeto Cinema de Artista_MAM



















Paulo Lins, em romance de estréia, faz um painel das transformações sociais pelas quais passou o conjunto habitacional Cidade de Deus: da pequena criminalidade dos anos 60 à situação de violência generalizada e de domínio do tráfico de drogas dos anos 90. Para redefinir a situação do lugar onde cresceu, Lins usa o termo "neofavela", em oposição à favela antiga, aquela das rodas de samba e da malandragem romântica. O livro se baseia em fatos reais. Grande parte do material utilizado para escrevê-lo foi coletado durante os oito anos (entre 1986 e 1993) em que o autor trabalhou como assessor de pesquisas antropológicas sobre a criminalidade e as classes populares do Rio de Janeiro. Cidade de Deus foi saudado como uma das maiores obras da literatura brasileira contemporânea. Um dos principais críticos do país, Roberto Schwarz observou a capacidade do autor de transpor para a literatura uma situação social deteriorada, aliando em sua narrativa a agilidade da ação cinematográfica e o lirismo da poesia. Segundo Schwarz, "o interesse explosivo do assunto, o tamanho da empresa, a sua dificuldade, o ponto de vista interno e diferente, tudo contribuiu para a aventura artística fora do comum"
Release do livro editado pela Companhia das Letras em 2002.

Hoje no MAM, dentre as inúmeras perguntas realizadas por uma platéia de mais de cento e cinquenta atentos admiradores, Fernando Meirelles afirmou num tom sempre humorado e aparentemente simples, que o roteirista ao entregar sua obra para o realizador não tem mais qualquer controle sobre sua criação. Esta será encaminhada para a lata do lixo. Lamenta este fato, mas diz que é assim que acontece. Acrescenta que Cidade de Deus não trabalhou com os personagens criados por Paulo Lins, quase quatrocentos personagens que nasciam, viviam e morriam em cada capítulo. O filme, diz ele, centra em três deles: Buscapé, Zé Pequeno e Dadinho. Uma idéia provocadora, dentre muitas outras apresentadas.

Projeto Cinema do Artista. Abertura na Sala de Arte Cinema do MAM, 19 de dezembro de 2009.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Lançamento de Livro


























JORGE AMADO NO ELEVADOR E OUTROS CONTOS DA BAHIA

de Carlos Pronzato

No dia 14 de dezembro, segunda feira, às 18 horas, acontece na Fundação Casa de Jorge Amado, no Largo do Pelourinho, Centro Histórico de Salvador, o lançamento do livro Jorge Amado no elevador e outros contos da Bahia (84 páginas, Editora A, Rio de Janeiro) do escritor, diretor teatral e cineasta Carlos Pronzato, argentino radicado na Bahia há exatos 20 anos. A entrada é livre.
O livro é composto de onze contos que transitam no universo mágico da Bahia, perfazendo um itinerário literário que pretende também ser uma homenagem a um dos maiores escritores do Brasil, Jorge Amado, quem empresta o seu nome ao conto que dá titulo ao livro.
Carlos Pronzato completa vinte anos de “baiano” e para comemorar reuniu estes contos, a maior parte publicados no A Tarde cultural e na Revista do Gabinete Português de Leitura. Diretor Teatral, poeta e cineasta/documentarista, Carlos Pronzato tem se dedicado a retratar nos seus mais recentes filmes os atuais conflitos sócio-políticos latino-americanos, além de se debruçar sobre aspectos históricos fundamentais do continente (“Carabina M2, uma arma americana, Che na Bolívia”; “Buscando a Salvador Allende”; “Madres de Plaza de Mayo, memória, verdade, justiça”, etc). Também publicou, entre outros, “Canudos não se rendeu”, “Poesias contra o Império”, “Che, um poema guerrilheiro” e o mais recente, lançado em janeiro deste ano no Fórum Social Mundial em Belém, “Poemas sem Terra”.

Lançamento: Jorge Amado no elevador e outros contos da Bahia.
Data:14 de dezembro (segunda feira)
Horário: 18 horas.
Local: Fundação Casa de Jorge Amado (Pelourinho)
Entrada franca

Contatos: Carlos Pronzato/ 71 9214-4402/ cpronza8@yahoo.com.br

www.lamestizaaudiovisual.blogspot.com

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Fórum Social Mundial Temático-Bahia

Tempo de Curso de Cinema, em realização, com películas selecionadíssimas e chance de conversar com o crítico de cinema, André Setaro, que merece o título do ofício pois além de conhecer o métier é um apreciador original da sétima arte. Como não consegui ainda assistir todo o material selecionado deixarei para postar sobre o assunto mais adiante. Por hora, transcrevo a matéria de ontem da secção de tendências e debate da FSP. E aqui registro, também, minha perplexidade: nenhuma palavra e sobre a construção do Fórum Social Mundial Temático-Bahia, a ser realizado em 29,30 e 31 de janeiro de 2010.


TENDÊNCIAS/DEBATES

Fórum Social Mundial, 10 anos
ODED GRAJEW


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Ante as graves ameaças do nosso modelo de produção e consumo, "um outro mundo possível" é cada vez mais "necessário e urgente"
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NO ANO 2000, o neoliberalismo estava no seu auge. Dizia-se até que havíamos chegado ao fim da história. Teríamos encontrado o modelo ideal de sociedade, em que as forças do mercado, liberadas de qualquer controle governamental ou social, levariam o mundo à prosperidade, ao bem-estar e à paz.
O Fórum Econômico Mundial, o grande propulsor dessa ideologia, acolhia o ex-presidente argentino Carlos Menem com todas as honras e elegia suas políticas como exemplares a serem seguidas por todos os países em desenvolvimento. Os críticos do modelo eram tratados como retrógrados que só sabem criticar, sem apresentar propostas alternativas.
Foi nesse ambiente que tive a ideia de criar o Fórum Social Mundial (FSM) para, em contrapartida ao Fórum Econômico Mundial, denunciar os enormes riscos que o neoliberalismo representava para a humanidade, dar visibilidade a propostas alternativas e criar um espaço auto-organizado em que a sociedade civil, em nível local e global, pudesse se encontrar, promover atividades e se articular, ganhando força política e social para empreender suas ações.
Graças ao empenho de um grupo de militantes e organizações brasileiras e internacionais e com o apoio dos governos de Porto Alegre e do Rio Grande do Sul, viabilizou-se na capital gaúcha, em janeiro de 2001, o primeiro encontro mundial.
De lá para cá, muita coisa aconteceu. As sucessivas crises econômicas, a proliferação de guerras e conflitos, o aumento da concentração de renda e da desigualdade social e a degradação ambiental fizeram ruir a crença na ideologia neoliberal.
O lema adotado no FSM, "um outro mundo é possível", encheu de esperança milhões de pessoas que, movidas pelo desejo de mudança, conseguiram alterar o quadro político de muitos países, a começar pela América Latina e, recentemente, nos EUA.
A metodologia adotada no FSM propiciou a todas as organizações e pessoas que comungam com a carta de princípios a oportunidade de organizar livremente suas atividades e poder se juntar aos que se dispõem a declarações e ações conjuntas.
A promoção da diversidade, um dos pilares da carta de princípios, fez cada organização e cada cidadão se sentir valorizado. Ninguém é mais importante que o outro, nenhum tema tem a precedência. O "outro mundo possível", onde a solidariedade e a cooperação superam a competição e o conflito, foi aplicado na nossa metodologia.
Foi assim que o FSM ganhou o mundo. Fóruns globais e inúmeros fóruns locais, nacionais, continentais e temáticos se espalharam em todos os continentes.
Organizações sociais aproveitaram o espaço aberto e a metodologia para formar parcerias e criar redes, o que viabilizou inúmeras iniciativas políticas, sociais e ambientais. Os encontros, os fóruns, se tornaram momentos dentro de um amplo processo, o processo FSM, que se desdobra ao longo dos dias anteriores e posteriores aos eventos.
Para celebrar os dez anos do FSM, um grupo de organizações que participaram desde o início teve a ideia de realizar, em janeiro de 2010, um grande encontro para uma reflexão sobre essa última década, mas, principalmente, para elaborar propostas para o futuro do processo. Nada seria mais simbólico do que voltar ao berço do primeiro fórum: Porto Alegre.
Das conversas com as organizações sociais locais, que foram fundamentais na realização dos primeiros fóruns, nasceu a ideia de envolver as cidades da Grande Porto Alegre na realização do evento.
Foi assim que nasceu o Fórum Social 10 Anos, a ser realizado de 25 a 29 de janeiro de 2010 nas cidades de Porto Alegre, Canoas, Campo Bom, Novo Hamburgo, São Leopoldo, Sapiranga e Sapucaia do Sul. Além das atividades auto-organizadas que serão realizadas nessas cidades, haverá um grande seminário internacional que juntará lideranças sociais e políticas numa reflexão sobre o processo FSM.
Em 2000, o nosso desafio era desmistificar e denunciar o modelo neoliberal, mostrando que "um outro mundo é possível". Em 2010, diante das reais e graves ameaças representadas pelo nosso modelo de produção e consumo, pela imperiosa necessidade de implementarmos um desenvolvimento justo e sustentável, "um outro mundo possível" se torna cada vez mais "necessário e urgente". Esse é o desafio que está sendo colocado para nós e para todos os que estarão na Grande Porto Alegre durante o Fórum Social 10 Anos.

ODED GRAJEW, 65, empresário, é um dos integrantes do Movimento Nossa São Paulo. É também membro do Conselho Deliberativo e presidente emérito do Instituto Ethos de Empresas e Responsabilidade Social. É idealizador do Fórum Social Mundial e idealizador e ex-presidente da Fundação Abrinq. Foi assessor especial do presidente da República (2003).

domingo, 8 de novembro de 2009

ZORBA, O GREGO

Reproduzo, a seguir, o texto de Contardo Calligari publicado na Folha de São Paulo, 05 de novembro de 2009. A sugestão inspirada do Calligari para as furiosas turbas merece ser escutada por todas as instituições, especialmente as educativas. Uma sessão de Zorba_ o grego ( filme dirigido por Michael Cacoyannis que tem Antonhy Quinn como personagem central) com sua visão humanista, de respeito às diferenças, em direção à vida. Rever Zorba e não esquecer de contemplar a poética de uma narrativa que se mantém viva e atual.

A turba da Uniban

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As turbas têm um ponto em comum: detestam a ideia de que a mulher tenha desejo próprio
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NA SEMANA passada, em São Bernardo, uma estudante de primeiro ano do curso noturno de turismo da Uniban (Universidade Bandeirante de São Paulo) foi para a faculdade pronta para encontrar seu namorado depois das aulas: estava de minivestido rosa, saltos altos, maquiagem -uniforme de balada.
O resultado foi que 700 alunos da Uniban saíram das salas de aula e se aglomeraram numa turba: xingaram, tocaram, fotografaram e filmaram a moça. Com seus celulares ligados na mão, como tochas levantadas, eles pareciam uma ralé do século 16 querendo tocar fogo numa perigosa bruxa.
A história acabou com a jovem estudante trancada na sala de sua turma, com a multidão pressionando, por porta e janelas, pedindo explicitamente que ela fosse entregue para ser estuprada. Alguns colegas, funcionários e professores conseguiram proteger a moça até a chegada da PM, que a tirou da escola sob escolta, mas não pôde evitar que sua saída fosse acompanhada pelo coro dos boçais escandindo: "Pu-ta, pu-ta, pu-ta".
Entre esses boçais, houve aqueles que explicaram o acontecido como um "justo" protesto contra a "inadequação" da roupa da colega. Difícil levá-los a sério, visto que uma boa metade deles saiu das salas de aula com seu chapéu cravado na cabeça.
Então, o que aconteceu? Para responder, demos uma volta pelos estádios de futebol ou pelas salas de estar das famílias na hora da transmissão de um jogo. Pois bem, nos estádios ou nas salas, todos (maiores ou menores) vocalizam sua opinião dos jogadores e da torcida do time adversário (assim como do árbitro, claro, sempre "vendido") de duas maneiras fundamentais: "veados" e "filhos da puta".
Esses insultos são invariavelmente escolhidos por serem, na opinião de ambas as torcidas, os que mais podem ferir os adversários. E o método da escolha é simples: a gente sempre acha que o pior insulto é o que mais nos ofenderia. Ou seja, "veados" e "filhos da puta" são os insultos que todos lançam porque são os que ninguém quer ouvir.
Cuidado: "veado", nesse caso, não significa genericamente homossexual. Tanto assim que os ditos "veados", por exemplo, são encorajados vivamente a pegar no sexo de quem os insulta ou a ficar de quatro para que possam ser "usados" por seus ofensores. "Veado", nesse insulto, está mais para "bichinha", "mulherzinha" ou, simplesmente, "mulher".
Quanto a "filho da puta", é óbvio que ninguém acredita que todas as mães da torcida adversa sejam profissionais do sexo. "Puta", nesse caso (assim como no coro da Uniban), significa mulher licenciosa, mulher que poderia (pasme!) gostar de sexo.
Os membros das torcidas e os 700 da Uniban descobrem assim um terreno comum: é o ódio do feminino -não das mulheres como gênero, mas do feminino, ou seja, da ideia de que as mulheres tenham ou possam ter um desejo próprio.
O estupro é, para essas turbas, o grande remédio: punitivo e corretivo. Como assim? Simples: uma mulher se aventura a desejar? Ela tem a impudência de "querer"? Pois vamos lhe lembrar que sexo, para ela, deve permanecer um sofrimento imposto, uma violência sofrida -nunca uma iniciativa ou um prazer.
A violência e o desprezo aplicados coletivamente pelo grupo só servem para esconder a insuficiência de cada um, se ele tivesse que responder ao desejo e às expectativas de uma parceira, em vez de lhe impor uma transa forçada.
Espero que o Ministério Público persiga os membros da turba da Uniban que incitaram ao estupro. Espero que a jovem estudante encontre um advogado que a ajude a exigir da própria Uniban (incapaz de garantir a segurança de seus alunos) todos os danos morais aos quais ela tem direito. E espero que, com isso, a Uniban se interrogue com urgência sobre como agir contra a ignorância e a vulnerabilidade aos piores efeitos grupais de 700 de seus estudantes. Uma sugestão, só para começar: que tal uma sessão de "Zorba, o Grego", com redação obrigatória no fim?
Agora, devo umas desculpas a todas as mulheres que militam ou militaram no feminismo. Ainda recentemente, pensei (e disse, numa entrevista) que, ao meu ver, o feminismo tinha chegado ao fim de sua tarefa histórica. Em particular, eu acreditava que, depois de 40 anos de luta feminista, ao menos um objetivo tivesse sido atingido: o reconhecimento pelos homens de que as mulheres (também) desejam. Pois é, os fatos provam que eu estava errado.

ccalligari@uol.com.br

sábado, 31 de outubro de 2009

Bresson e Kierkegaard

No momento, sem condição de manter o rítmo de trabalho exigido pelo blog, mas segura de que este espaço precisa manter o diálogo com os(as) amantes de cinema, encontei uma postagem antiga do Adolfo Gomes, editada no Blog Bressonianas. Para falar a verdade, não conheço nem Bresson, sequer Kierkegaard, mas gosto muito do que tenho conversado com Adolfo sobre cinema.


23/06/2006
Bresson tem olhos para o impossível
Por Adolfo Gomes
(cineadolfogomes@yahoo.com.br)

Diante da obra de Robert Bresson a história do cinema assume a perspectiva do Abraão de Kierkegaard que, aos 130 anos, não tinha ido mais distante que a fé*. Pois da fé, como do amor, só ficam as evidências, que são seus filmes, tão marcantes quanto exemplo de Isaac, filho de Abraão, oferecido em sacrifício.
Não à toa, Jean-Luc Godard sentenciou: “Depois de Bresson, é preciso começar do zero”. Por que se antes de Abraão não conhecíamos a fé, sem Bresson nos faltaria uma escrita para o cinematógrafo. Então, temos essas imagens e sons a dar forma a uma ontologia de seres e coisas que não admite efeito ou psicologia.
Bresson filma homens e objetos como iguais, pois opera em uma arte de exteriores. O milagre de seu método está em atravessar essa superfície cujo sentido é o da banalidade. Sua câmera propõe uma comunhão de outra ordem: com o invisível.
É um percurso estranho, porque o invisível para nós é o indício de Deus, ou antes, a Sua ausência. E há, no universo de Bresson, esse olhar ausente, que amplifica nossa tragédia.
Uma possível síntese da escrita bressoniana está na imagem da cédula falsa em “O Dinheiro”, seu último filme. Contra a luz, a nota ilegal revela sua marca d’água, reforçando que as coisas, como os homens, não têm valor em si. Esse valor advém do gesto, nosso para com os objetos, e de Deus para com a humanidade.
No entanto, a linguagem de Deus é o silêncio. Assim nos debatemos como os pássaros ao final de “O Processo de Jeanne D’Arc”. E se nos resta alguma esperança, e ela também está em seus filmes, é porque Bresson tem olhos para o impossível.
Isolamento – De outra parte, Bresson só não conseguiu superar as limitações impostas pela indústria dos filmes, as restrições dos produtores, o que, em última análise, acabou por interromper sua carreira. À medida que avançava em sua poética, menores eram as suas chances de obter financiamento. Após anos de tentativas frustradas de levar às telas um novo projeto, recolheu-se...Conforme escreveu o norte-americano Paul Schrader: “colocou-se além de qualquer comunicação, como Deus”. Retomou a pintura, segundo relato dos mais próximos. Mas não há vestígios dessas obras, talvez definitivamente encerradas na mitologia pessoal de um artista para qual “o outro” era o caminho para revelar a si mesmo.

Nota
*Não são raras as associações entre a obra de Robert Bresson e o pensamento do dinamarquês Soren Kierkegaard. Se Bresson se referia ao cinematógrafo para marcar a diferença entre seus filmes e o cinema convencional, Kierkegaard, por sua vez, jamais pretendeu ser filósofo, embora seus escritos acabassem por criar as raízes de uma nova corrente filosófica – o existencialismo. Bresson e Kierkegaard também compartilhavam a mesma convicção religiosa radical e, até determinado ponto da filmografia bressoniana, comungavam da mesma preocupação em investigar as relações da existência com a divindade. Para Kierkgaard, o estágio religioso era o último e mais importante salto que o indivíduo deveria empreender para interpretar-se e encontrar um sentido para sua existência.
Neste aspecto, parece apropriado resgatar o exemplo de Abraão, tal como evocado por Kierkegaard em um dos seus principais livros “Temor e Tremor”. Dessa obra, convém assinalar ainda o trecho seguinte: “Abraão, pai venerável! Milhares de anos se passaram desde esses dias sombrios, porém não é preciso um tardio admirador para tirar, pelo amor, a tua memória às potências do olvido, pois todas as línguas te lembram. E, entretanto, dás a recompensa a quem te ama por uma forma mais generosa de que ninguém; lá ensejas fazê-lo bem aventurado em teu seio e, aqui embaixo prendes o olhar e o coração com o maravilhoso de tua ação. Abraão, pai venerável! Segundo pai do gênero humano! Tu que por primeiro sentiste e manifestaste essa grandiosa paixão que despreza a luta terrível contra a preciosa ação dos elementos e das forças da criação para lutar contra Deus, tu que foste o primeiro a sentir esta paixão sublime, expressão sacra, humilde e pura, do divino frenesi, tu que adquiriste a justa admiração dos pagãos, perdoa a quem tentou cantar em teu louvor, se bem não soube desincumbir-se de sua tarefa. Falou de maneira humilde, conforme o secreto desejo de seu coração; falou de maneira breve, como era conveniente; porém jamais olvidará que te foram necessários cem anos para receber, contra toda a esperança, o filho da tua velhice e que foste obrigado a sacar a tua faca para matar Isaac – também não esquecerá que aos cento e trinta anos, não tinhas ido mais distante do que a fé”.

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Carta-Convite do Comitê Baiano FSM

Divulgo para os(as) amigos(as) deste blog que queiram participar do evento reproduzindo, a seguir, carta-convite recebida do COMITÊ BAIANO DO FORUM SOCIAL MUNDIAL.




Caros amigos e amigas,
Através deste viemos convidá-los para participar das reuniões de preparação na Bahia de um evento inédito:
O Fórum Social Mundial Temático,
que sob o tema
DIÁLOGO, DIVERSIDADE CULTURAL e CRISE CIVILIZATÓRIA,
se realizará em Salvador nos dias 29, 30 e 31 de janeiro de 2010.
Na próxima semana serão realizados dois eventos a saber:

14/10 (quarta-feira)
serão realizadas as reuniões dos GTs de: cultura, finanças, aglutinação e mobilização/comunicação. Seguidas de uma atividade didática sobre os espaços temáticos.
LOCAL: COLÉGIO CENTRAL DA BAHIA

17/10 (sábado)
das 9h às 12h - reuniões da juventude, mulheres, religião de matriz africana, povos originários, entre outras que organizarão os acampamentos do fórum.

das 14h às 17h - plenária geral para aprovar as resoluções da manhã e decidirmos sobre os espaços temáticos constantes do FSMT.

LOCAL: SINDICATO DOS BANCÁRIOS, Av. Sete 1001 (Mercês)

Contamos com a sua presença.
A Coordenação de Facilitação do Fórum Social Mundial Temático - Bahia

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Contatos
Suseth Luz - susethluz@hotmail.com
Susete - 71-9998-8058 / 71-8783-0022
Franklin – 71-9946-2868
Auresi – 71-8887-7639
Bandeira – 71-9968-9475


Esse Informativo de Memória Lélia Gonzalez é enviado a assinantes e à comunidade que luta contra toda forma de racismo e xenofobia.

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Fragmentos de Godard
























Continuando as Conversas de Cinema iniciadas neste espaço, quero hoje dedicar um tempo ao diálogo com Adolfo Gomes (1). A conversa será intermediada pela leitura do livro Godard, Jean Luc (2) e ampliada pela inquietante, original e particularíssima filmografia composta de mais de cinqüenta filmes de longa-metragem, uma dezena de curtas e mais de vinte filmes realizados em co-direção com companheiros de caminhada do cineasta, uma coleção admirável que ganhei de presente (3).

Como recurso metodológico, extrairemos fragmentos da leitura e simularemos um encontro com Jean-Luc-Godard. Inalando suas inspiradas fumaças por trás de montanhas de filmes e livros, com seu jeito de quem sabe trabalhar arduamente em seus projetos, ainda que sem muito dinheiro, ainda que enfrentando adversidades, ainda que pouco compreendido e sempre disposto a exercer a crítica, ainda que já envelhecendo e mais próximo à morte, encontramos um autor disposto a conversar. A seguir, fragmentos do nosso diálogo:

Blog: Em 2009 o Seminário Internacional de Cinema realizado em Salvador, trouxe, entre as várias modalidades de atividades, uma Retrospectiva Godard composta de quinze filmes produzidos em diferentes épocas. Nesta Retrospectiva percebemos uma predominância de filmes centrados nos anos sessenta onde a palavra tinha uma força incomensurável e a perspectiva masculina ainda se fazia com mais intensidade que o discurso feminino, cenário este que se reproduziu também, nestas filmagens, com algumas particularidades. Pensamos e caracterizamos a mostra como o predomínio do olhar masculino.
Godard: Sim, também penso assim. A França é um país de palavras e de linguagem, um país masculino, enquanto há países muito mais espertos como a Itália, que é um país feminino e que diz: “Invadiram-me, eu me viro, não é grave”. É o lado masculino francês: “Ser mais forte que o outro na palavra”.

Blog: Nesta retrospectiva mencionada havia, também, a expressão da trilogia marcada por filmes assistidos nos anos oitenta, entre eles, Passion, 1982; Prénom Carmen, 1983; Je vous salue Marie, 1985. Nestes, a câmera propõe um novo olhar, uma nova narrativa. Quais as inspirações que prevaleceram nestes filmes?
Godard: Mãe de Deus. O Dogma do Concílio de Éfaso, que suscitou terríveis discussões sobre a questão, para cada uma das palavras há uma biblioteca... Entramos em abismos (...) O que você observa é que “Je vous salue Marie” é primeiramente o seu filme, isso implica que quem diz a oração está na posição do Anjo: “ Ave Maria, cheia de graça, o Senhor é convosco”...É a Anunciação, é o Anjo que fala...Enquanto que na segunda parte da oração, é o homem comum, há troca de posição. (...) É o dia da Apresentação de Maria no Templo, e é uma festa solene que deu lugar a vários quadros, um grande quadro do Ticiano... Ticiano é o grande especialista de Maria em todos os seus estudos. “O fruto do vosso ventre”, depois a morte... Evidentemente, tem-se de imediato a conjunção entre o acontecimento que uma palavra vai produzir um corpo e o fato que se segue para todos que estão na paralela, ali, pensando nisso...O que é mito bem dito no Credo e nas missas que musicalmente tentam passar isso...Por exemplo em Je vous salue Marie, a aparição do bebê no automóvel, com um fundo de missas(...) quase tudo é Bach.

Blog: Há uma influência da sua formação religiosa nestes filmes? Que sentido tem a música e a religião para você?
Godard: Quando eu era criança adorava rezar a missa para toda a família reunida. Eles ficavam de joelhos. Isso lhe ensinava música. Na minha família paterna, meu avô, que era amigo de Paul Valéry, lia em voz alta... Ele começava e as crianças continuavam... Disso, tenho saudades...E por exemplo, com os atores, que são supostos...Não consigo que façam...Tentei mais abandonei...Fazer leitura a voz alta, simplesmente, mas eles só querem ler o roteiro, que não é para ler em voz alta...Ler um outro livro sobre o qual ficássemos de acordo, seria também um bom dia de trabalho...Mas você sente que é impossível...

Blog: Voltemos à trilogia, Prenón Carmem é um filme sobre a amizade entre os gêneros, isto é possível?
Godard: Na verdade, Prénom Carmen, se prende à originalidade do trabalho, ao argumento e adaptação de Anne-Marie Miéville. A história de Carmen é conhecida de todos. (...) O que nos interessava era mostrar que o homem e a mulher se tinham dito sob a influência desta imagem do amor que pesa entre eles. Que se chame isto amor ou sua aventura: destino, amor ou maldição. Se aconteceu que muitos diretores fizeram filmes que se chamam Carmem, talvez seja porque Carmen é um grande mito feminino, um grande mito feminino que não existia senão na música. E que, se a época quis que os meios de comunicação e o audiovisual se apoderassem deste mito_ e assim, tanto um pequeno produtor independente como eu, como uma grande firma comercial como Graumont se interessam por este personagem feminino_é talvez porque a coisa está no ar... mas talvez também seja a última luta das mulheres contra os homens, talvez a primeira....

Blog: O espaço deste blog requer que esta conversa seja realizada por partes, de modo que faremos uma última pergunta. Antes porém, para esta introdução, digamos assim, modesta e primeira, queremos encerrar perguntando se é verdade que as histórias de amor são ultrapassadas e se o cinema já morreu para você?
Godard: Acho que, no cinema, não pode haver senão histórias de amor. Nos filmes de guerra, trata-se do amor dos homens pelas armas; os filmes de bandidos tratam o amor dos homens pelo roubo... Em minha opinião, isto é cinema. E é o que a Nouvelle Vague trouxe de novo: Truffaut, Rivette, eu e dois ou três outros trouxemos algo que não existia mais, talvez, ou que jamais existiria na história do cinema; amamos o cinema antes de amar as mulheres, antes de amar o dinheiro, antes de amar a guerra. Antes de amarmos o que quer que seja, amamos o cinema. No que me concerne, disse muitas vezes que foi o cinema que me fez descobrir a vida. (...) Sem amor não há filmes. (...) Não há filmes sem amor, qualquer que seja. Insisto. Não existe. (...) Você me pergunta se o cinema já morreu... já assistiu meus filmes destas últimas décadas? Éloge de l’amour, 2001; Dez Minutos de Amor, 2002; Notre Music, 2004; e History of Cinema, 1988-1998? O cinema e a câmera para mim não passam de um fuzil, é algo que não se rejeita. Acredito que a comunicação é a única coisa que existe no mundo(4).


Notas:

(1) Adolfo Gomes é Cineclubista e Curador de Mostras Nacionais e Internacionais da Sala Walter da Silveira, DIMAS/Fundação Cultural do Estado da Bahia. Detém um conhecimento especial da sétima arte uma vez que trabalha na organização, divulgação e intercâmbios entre cinematecas e instituições ligadas a cinema, além de ser uma pessoa generosa no trato e amável na comunicação, qualidades hoje raras em tempos de individualização crescente.

(2) Godard, Jean Luc. Editora Livraria Taurus, Rio de Janeiro, 1985-1986. Organização e Introdução de Luiz Rosemberg Filho.

(3) Os levantamentos que realizamos em consulta à Biblioteca Central da Universidade Federal da Bahia e sites específicos de cinema revelam pistas ainda a serem exploradas, quer em relação a cine-biografia do autor quer quanto à sua filmografia, dita conhecida, porém pouco analisada e devidamente sistematizada e estudada. Entre outros, filmes como The old place, 1998 co-dirigido com Anne-Marie Miéville, For ever Mozart, 1996 e History of the Cinema, 1988-1998 e o recentíssimo Dez Minutos de Vida, 2002 merecem análises e apreciações mais detalhadas e cuidadosas.

(4) A título de provocação inserimos a seguir pequena e incompleta listagem apenas dos filmes de longa metragem dirigidos por Jean Luc Godard. Não foi uma nem duas pessoas que encontrei na Retrospectiva Godard que afirmaram conhecer toda esta filmografia, assim afirmando: “Ah, Godard, eu já assisti tudo”. Um comentário que dá lugar a se pensar.

1959. À Bout de souffle; 1960. Le Petit Soldat; 1961. Une femme est une femme; 1962.Vivre as vie; 1963. Les Carabiniers; 1963. Le Mépris; 1964. Bande à part; 1964. Une femme mariée; 1965. Alphaville; 1965. Pierrot le fou; 1966. Masculin féminin; 1966. Made in Usa; 1966. Deux out trois choses que je sais d’elle; 1967. La Chinese; 1967. Week-End; 1968. Le Gau Savoir; 1968. Um Film comme les autres; 1968. One Plus One; 1969. Pravda; 1969. Le vet d’est; 1969. Luttes em Italie; 1970. Jusqu’á la victoire; 1971. Vladimir et Rose; 1975. Numero deux; 1982. Changer d’image; 1982. Passion; 1982. Scénario Du film Passion; 1983. Prénom Carmen; 1985. Je vous salue Marie; 1985. Détective; 1986. Soft and Hard Conversation Between two friends on a hard subject; 1987. King Lear; 1987. Soign ta droite; 1988. Segment from Les Freançais vus par; 1988-1998. History of the cinema; 1990. Nouvelle Vague; 1991. Allemagne anée 90 neuf zero; 1993. Les enfants jouent á la russie; 1994. JLG/JLG: Autoportrait de décember; 1995. 2x50 Ans Du cinema français; 1996. For ever Mozart; 2004. Notre Music.

domingo, 13 de setembro de 2009

Flores de Ruanda


http://www.floresderuanda.com/ruanda/rwanda-genocide-film

Um dos momentos significativos, entre muitos, da XXXVI Jornada Internacional de Cinema da Bahia. Por um mundo mais humano. De 10 a 17 de setembro de 2009. Evento em realização em quatro pontos de exibição: Espaço Glauber Rocha, Sala Walter da Silveira, ICBA e Hotel Victoria Marina. Inquietante, provocador. Este ano traz como temática Euclides da Cunha e sua obra "Os Sertões".

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

2002_2009: memória

















Em agosto de 2002, fez exatamente sete anos, tivemos a honra de publicar o livro Negativos em Vidro, resultante de nossa Tese de Doutorado em Ciência da Educação(Ufba,2000). Após trinta anos de dedicação exclusiva à Universidade Pública, nossa aposentadoria fêz-se necessária uma vez que novos projetos e o grande contigente de jovens batalhando por um lugar de trabalho indicaram e nos impuseram criar outros espaços e deixar que os novos surgissem. Reconhecemos, porém, que a defesa da Universidade Pública vem perdendo a chance de se instalar como nos tempos que participamos e acreditamos num projeto utópico e democrático de sociedade e de ensino. Sinais de que o mercado tem leis selvagens que estão a atropelar e massacrar, sem retorno, esmagando o que Gramsci chamava de sociedade civil e sociedade política, de prevalência das utopias.
A seguir, um release do livro publicado pela Edufba.

Olhar e analisar imagens enquanto produção e representação de estruturas de autoridade constitui uma linha de pesquisa a ser desenvolvida na historiografia e, particularmente, na historiografia educacional. A presente investigação circunscreve-se neste âmbito. A autora, por história de vida e de ofício, analisa uma coleção de imagens fotográficas produzidas no início do século, representações significativas de um projeto pedagógico jesuítico que se instalara em Salvador e que se tornara responsável pela formação intelectual, acadêmica e religiosa de uma elite dirigente com larga tradição na vida da cidade. Desvendar os sentidos da produção destas imagens e compreender por que a cultura imagética impregnou todo o projeto pedagógico que se mantém em curso na contemporaneidade foram os principais propósitos da pesquisa.
Por que este projeto pedagógico utilizou recorrentemente as imagens, especialmente as fotográficas, para o registro da sua história institucional e cotidiana? Em que medida estas imagens impulsionaram ou impediram a difusão do ideário religioso e pedagógico esboçado nos anos 20 e 30, período em que foram produzidas? Qual a incidência com que estas imagens aparecem no itinerário das ações desenvolvidas neste projeto pedagógico? Por que determinados personagens são destacados e freqüentemente participantes dos cenários produzidos nos quadros imagéticos? Quais os eventos e atividades que se tornaram motivos freqüentes de enquadramento e fixação de posturas e estilos da época? Por que determinados rituais são excluídos do cenário imagético e outros repetidos e reproduzidos sistematicamente? Estes e outros questionamentos foram se definindo e se ampliando durante a descoberta e tratamento sistemático da coleção de imagens selecionadas para esta pesquisa, em que a relação entre a produção destas imagens e os processos que se desenvolviam na vida escolar e da cidade foram se revelando com maior propriedade e definição.

________________________________________
Sobre a autora
Stela Borges de Almeida (stelaborges@uol.com.br) é baiana, doutora em Educação pela Universidade Federal da Bahia ( 2000). Foi Professora Adjunta no Departamento de Educação da Universidade Federal da Bahia ( 1977-1999). Organizou o livro Chaves para ler Anísio Teixeira ( 1990, UFBa-EGBa-OEA) e publicou diversos artigos em revistas sobre o estudo dos intelectuais, das instituições educacionais e da memória da educação brasileira.

Lançamento de Livro
A Editora da Universidade Federal da Bahia e o Colégio Antônio Vieira convidam para o lançamento do livro Negativos em Vidro: Coleção de Imagens do Colégio Antônio Vieira, 1920-1930, de Stela Borges de Almeida.
Data: 30 de agosto de 2002, às 19 horas.
Local: Colégio Antônio Vieira
Av. Leovigildo Filgueiras, 683
Garcia - Salvador-BA
Tel: (71) 328-9500

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Jacques Tati
























É com prazer que reproduzo a seguir a programação que a Sala Walter da Silveira coloca em cartaz esta semana. Após ter assistido em sessão inominável no multiplex do Shopping Iguatemi o "ofensivo e ultrajante" Brüno, personagem equivocado do Sacha Baron Cohen, cuja história traz um humor grosseiro que so se salva pela divertida cena final contra os preconceitos homofóbicos, é salutar apreciar o estilo divertido, poético e ingênuo do Jacques Tati. Bem-vindo.

Nota: Antes de mais nada é recomendável ler o Setaro's Blog para se ter uma idéia precisa do significado de uma sessão naquelas salas. Indescritível o absurdo nonsense rasteiro. Sem elitismo mas tudo indica que faltam princípios de base que fundamentem melhor aquela multidão de desafetos.


Programação
Dias 21 e 23 de agosto
17h30 e 20h (Não haverá sessão das 20h, no dia 21/08)
As Férias do Sr. Hulot (Les Vacances de M. Hulot, França, 1953)
Direção: Jacques Tati
Duração: 74 min.
Censura Livre
Sinopse- O desastrado Sr. Hulot sai de férias para um hotel de praia, trazendo muita confusão para o descanso dos veranistas. Mesmo assim, consegue despertar simpatia, admiração e amizade.

Dia 22 de agosto
17h30 e 20h
Meu Tio (Mon Oncle, França, 1958)
Direção: Jacques Tati
Duração: 116 min.
Censura Livre
Sinopse - Sátira do cineasta à modernidade já vigente na Paris dos anos 50, procurando mostrar a felicidade das pessoas mais simples que moram nos bairros pobres da periferia, ao contrário da pressa e do vazio daquelas mais abastadas que vivem num mundo automatizado. Monsieur Hulot, solteirão e desempregado, passa a ser admirado por seu sobrinho Gérard, justamente por estar fora dos padrões impostos pela sociedade e, em particular, pela mentalidade vigente na família do garoto.

Dia 24 de agosto
17h30 e 20h
Playtime (França, 1967)
Direção: Jacques Tati
Duração: 120 min.
Censura Livre
Sinopse - Um grupo de turistas norte-americanas chega a Paris, nos anos 60. Ali está também o hilário Mr. Hulot. Seu jeito inocente de observar as coisas acaba criando deliciosas confusões com as turistas que visitam a capital francesa. A mais cara produção de Jacques Tati. Nela, o diretor praticamente construiu uma cidade, com restaurantes, farmácia, prédios comerciais e até aeroporto.

Dia 25 de agosto
17h30 e 20h
Trafic (França, 1971)
Direção: Jacques Tati
Duração: 97 min.
Censura Livre
Sinopse - O Sr. Hulot, desenhista de um modesto fabricante de veículos, desenha um caminhão com várias inovações e decide levá-lo à Exposição Internacional do Automóvel de Amsterdã. Para isso, sobe à direção do veículo, seguido por Maria, a jovem norte-americana responsável pelas relações públicas da fábrica, num carrinho esportivo. A viagem é constantemente interrompida por um problema de gasolina, uma cadeia que arrebenta, problemas na fronteira. São tantas as confusões que o carro chega tarde demais à exposição.

Dia 26 de agosto
17h30
Carrossel da Esperança (Jour de fête, França, 1949)
Direção: Jacques Tati
Duração: 79 min.
Censura Livre
Sinopse - Uma vez por ano, uma feira traz, para o pequeno vilarejo de Sainte-Sévère, no interior da França, atrações como um cinema ambulante. Numa das sessões, François, o carteiro do local, assiste à projeção de um documentário sobre o serviço postal norte-americano e decide colocar o método em prática para fazer o correio chegar mais rápido.. Montado em sua bicicleta, se lança pelo campo com vigor.

Dia 27 de agosto
17h30
Parade (França, 1974)
Direção: Jacques Tati
Duração: 85 min.
Censura Livre
Sinopse - Já pressentindo o avanço da tecnologia digital, Tati filmou Parade quase todo em vídeo. O filme foi financiado pela televisão sueca e filmado dentro de um circo. Este, que viria a ser o último filme de Jacques Tati, mostra o protagonista na pele do Sr. Loyal, um mestre de cerimônias circense. Nele, Tati volta a dar vida aos números mímicos que ele praticava quando atuava no music-hall.

20h
Programa de curtas Jacques Tati (Entrada franca)
Soigne Ton Gauche (França, 1936)
Direção: René Clément
Duração: 12 min.
Censura Livre
Sinopse - Roger, um agricultor, sonha em ser lutador de boxe. No pátio da granja onde trabalha, ele treina exaustivamente. Mas os combates acabam por falta de adversários. Surpreendido um dia durante o transe ao simular uma vitória, é descoberto e levado ao ringue. Mas existe um problema: ele nunca lutou de verdade e ignora tudo sobre esta arte.

Escola de Carteiros (L´école des facteurs, França, 1947)
Direção: Jacques Tati
Duração: 15 min.
Censura Livre
Sinopse - Rapidez e eficiência: essa é a informação que todo carteiro recebe. A missão é simples: reduzir a duração de uma ronda para chegar a tempo ao serviço postal. Numa pequena oficina de correios de um povoado, três carteiros, entre eles François, atolados pelas ordens nasais de seu superior, fazem a divisão das cartas.

Curso Noturno (Cours du Soir, França, 1967)
Direção: Nicolas Ribowski
Duração: 30 min.
Censura Livre
Sinopse - O filme apresenta vários números clássicos de Jacques Tati. Nele, o diretor ministra curso para executivos de uma grande empresa e demonstra estar aplicando seu arguto sentido de observação também com relação a si mesmo.

domingo, 2 de agosto de 2009

Retrospectiva Godard

Para respirar depois de cada sessão dos quinze filmes programados para a Retrospectiva Godard, densos e repletos de sensibilidade, imaginação, poesia e inteligência, nada como olhar o Teatro Martim Gonçalves. As fotos ( sem chance nenhuma de competir com os fotógrafos) são fotos de fotos. Um gesto para a memória afetiva.




sexta-feira, 31 de julho de 2009

Jean-Luc Godard


















Difícil e temerário postar sobre o V Seminario Internacional de Cinema e Audiovisual, uma vez que ainda em realização. Posso afirmar, entretanto, do que ouvi, ví e rememorei do cinema de Godard, este evento merece um destaque bastante especial pela qualidade da organização, do conteúdo das mesas redondas e da Retrospectiva Godard, dentre as inúmeras outras atividades paralelas que estão acontecendo no Foyer do Teatro Castro Alves e Teatro Martim Gonçalves. Há uma infinidade de contribuições, possibilidades e perspectivas de perceber o cinema, a arte e o belo. Todas essas contribuições requerem um pertencimento que define nossos juízos de gosto, sem dúvida, antes de tecer apreciações apressadas posso afirmar, o SEMCINE está sendo um espaço marcante para pensar a sétima arte hoje.

sábado, 25 de julho de 2009

Flipinha_2009

Para Flávia e Ana Beatriz.

Trem de ferro

Café com pão
Café com pão
Café com pão

Virge Maria que foi isso maquinista?

Agora sim
Café com pão
Agora sim
Voa, fumaça
Corre, cerca
Ai seu foguista
Bota fogo
Na fornalha
Que eu preciso
Muita força
Muita força
Muita força
(trem de ferro, trem de ferro)

Oô...
Foge, bicho
Foge, povo
Passa ponte
Passa poste
Passa pasto
Passa boi
Passa boiada
Passa galho
Da ingazeira
Debruçada
No riacho
Que vontade
De cantar!
Oô...
(café com pão é muito bom)

Quando me prendero
No canaviá
Cada pé de cana
Era um oficiá
Oô...
Menina bonita
Do vestido verde
Me dá tua boca
Pra matar minha sede
Oô...
Vou mimbora vou mimbora
Não gosto daqui
Nasci no sertão
Sou de Ouricuri
Oô...


Vou depressa
Vou correndo
Vou na toda
Que só levo
Pouca gente
Pouca gente
Pouca gente...
(trem de ferro, trem de ferro)

Manuel Bandeira in "Estrela da Manhã", 1936.
































Nota: Praça da Matriz em Paraty-RJ, Tenda da Flipinha.

sexta-feira, 17 de julho de 2009

Flashbacks da FLIP 2009 (2)

















































A 7ª Festa Literária Internacional de Paraty terminou, todos sabem.
Mesmo assim, os resultados da apresentação de tantos trabalhos, publicações, intercâmbios e contactos perdurarão por mais tempo. Quero hoje comentar a concorrida mesa que participaram Mario Bellatin e Cristovão Tezza. Estes premiados autores tendo como mote principal o papel da experiência pessoal na literatura, com posições divergentes e inquietadoras, permitiram aos presentes fomentar polêmicas e conhecer mais das suas idéias e escritos. Ficarão de fora destes comentários dezoito mesas de trabalho, com nomes expressivos e de alta relevância, entre elas, a esperada mesa dez intitulada Seqüências Brasileiras, com a presença de Chico Buarque de Holanda. Enfim, a escolha recai pelo que o debate instiga a pensar sobre o tema proposto: O eu profundo e os outros eus.
Mario Bellatin por si constitui um personagem de impacto. Considerado em fóruns literários um romancista de prosa contundente e seca, chega às livrarias brasileiras com o livro Flores, publicado originalmente em 2001. Este trabalho recebeu o prêmio Xavier Villaurrutia e sua publicação recente pela Cosac Naify. O universo bellatino versa sobre personagens ambíguos que se adentra por desconcertantes histórias, entre elas, a do cientista que descobre um fármaco que causa deformações físicas, a história do escritor e das suas pesquisas sobre sexualidade, a história do nome das flores, histórias cujos personagens provocam e desafiam o leitor. O universo lúdico entre realidade e ficção parece ser o desafio do escritor que defende o poder da obra dispensar os portos de segurança comumente sustentáveis nas referências bibliográficas (1). Questionado sobre a Escola Dinâmica de Escritores, Bellatin afirma que seguem produzindo, escrevendo para criar. Irreverente nas diferentes formas de criação, Mario Ballatin, parece querer também provocar quando posa na sessão de autógrafos deixando-se mirar aos flipianos em sua prótese fálica(2)
Cristovão Tezza e seus premiados livros vêm ocupando um lugar de prestígio na literatura brasileira como costuma propagar a imprensa midiática (3). Em 2007, a consagração com a publicação de O filho eterno, romance que aborda com originalidade o tema do nascimento de um filho com síndrome de Down, é merecedor de vários prêmios, entre eles, o Prêmio Portugal Telecom, Prêmio São Paulo de Literatura de Melhor Livro do Ano, Prêmio Jabuti de Melhor Romance de 2008, Prêmio Bravo de 2008 e Prêmio APPCA, 2007. Embora se defina como um professor tardio, a prosa de Cristovão Tezza expõe com estilo emocional e tocante de um tema vivo e real das dificuldades inúmeras e das pequenas vitórias de conviver com uma criança que o ocupará pelo resto da sua vida, uma criança desejada, mas diferente. Como expositor, o escritor demonstra que o real e a ficção reordenam sua própria vida, o eu profundo e os outros eus mesclam-se com precisão literária encadeando idéias e experiências de vida que vão conferir a expressão que ouvi muitas vezes ao longo do evento: “É um livraço”! Quanto ao escritor, um professor que não exita em falar de suas experiências, das suas descobertas e se tornar personagem de sua própria obra. Falando sobre seu livro quando da época de lançamento, ele comenta que sente o livro forte e que escrever é uma atividade sem volta.

Os eus tão presentes parecem configurar uma era do esmaecimento da fôrça dos processos coletivos, em que as subjetividades parecem querer expressar outras formas de construção das identidades ( idéia a ser melhor desenvolvida mais adiante).

Notas: (1) Como avisei aos navegantes, conheci o Mario Bellatin recentemente. Antes, porém, tive o cuidado de, pelo menos, interessar-me em ler sua biografia, uma vez que o livro adquirido ainda não saiu do lugar que encontrou na fila da estante.

(2) Hijo de padres peruanos, Bellatin vivió en Perú, donde estudió Teología durante dos años en el seminario Santo Toribio de Mogrovejo y, después, Ciencias de la Comunicación en la Universidad de Lima. En 1987 viajó a Cuba becado para estudiar guión cinematográfico en la Escuela Internacional de Cine Latinoamericano de San Antonio de los Baños. Sus primeras novelas las publicó en Perú.A su regreso a México fue director del Área de Literatura y Humanidades de la Universidad del Claustro de Sor Juana y miembro del Sistema Nacional de Creadores de México de 1999 a 2005.Actualmente es director de la Escuela Dinámica de Escritores en la Ciudad de México. La escuela propone un metódo de preparación literaria alternativo a los espacios académicos y a los talleres literarios tradicionales. La primera regla de la Escuela Dinámica de Escritores es no escribir para la escuela, sino escribir para crear. Los métodos aplicados por Bellatin enfatizan la relación que guardan entre sí las distintas formas de arte, señalando el origen común de todas ellas. Para Bellatin toda obra de arte debe poseer una retórica propia que permita alejarla de su autor con facilidad.Su preparación académica fue una influencia decisiva para el desarrollo de su escritura. Su experiencia cinematográfica le llevó a concluir que la realidad puede estar encapsulada en un fragmento de tiempo pequeño y sin embargo ser capaz provocar sensaciones importantes en el espectador. De ahí se desprende el caracter fragmentario de su escritura, que sólo ofrece los datos precisos de la realidad que compone en sus novelas.Su obra, de gran difusión, ha sido traducida al inglés, alemán y francés. Mario Bellatin es considerado uno de los escritores contemporáneos latinoamericanos experimentales, en cuyas novelas se plantea un juego lúdico entre realidad y ficción, matizado con protocolos apócrifos, crónicas, biografías o documentos científicos, provocando así situaciones inverosímiles e incluso graciosas. Su obra no contiene referencias biográficas, pues el autor cree que el texto debe sostenerse por sí mismo y que la literatura se desarrolla de mejor manera con la menor intervención posible de parte del autor. http://es.wikipedia.org/wiki/Mario_Bellatin
(3) Cristovão Tezza (Lages, Santa Catarina, 1952) é um romancista brasileiro. Nasceu em Lages mas mudou-se para Curitiba (Paraná) com dez anos. Esta última cidade é cenário de boa parte de sua literatura, pela qual seus personagens visitam ruas e pontos turísticos.Quando mais jovem fez teatro, foi da marinha mercante, trabalhador ilegal na Europa e ainda relojoeiro. Tinha enorme paixão pela profissão, mas percebeu que os consertos de relógio não sustentariam suas ambições literárias. Já era escritor bem jovem, e aos 13 anos fez seu primeiro livro, designado por ele mesmo “muito ruim”. Já publicou dez romances. Uma das marcas de seu texto é a presença de mais de um narrador: em Trapo, vemos a história do ponto de vista do professor Manoel, que estuda o poeta Trapo, e paralelamente do ponto de vista do poeta, através de seus poemas. Em 2003, publicou um ensaio sobre Mikhail Bakhtin, que era, na verdade, sua tese de doutorado. É doutor em Literatura Brasileira e professor de Lingüística na Universidade Federal do Paraná. Em algumas declarações afirma que “só uns quatro ou cinco escritores brasileiros poderiam viver só dos livros”, e por esse motivo é professor. Ganhou o prêmio da Academia Brasileira de Letras de melhor romance brasileiro de 2004, pelo seu livro “O fotógrafo”. http://pt.wikipedia.org/wiki/Cristóvão_Tezza
(4) As fotos tiradas na Tenda dos Autógrafos não revela, mas havia um caracol de curiosos, tímidos, exibidos, excêntricos e espantosos escritores e leitores, todos amantes dos livros. Na primeira vê-se Cristovão Tezza, na segunda e terceira Mario Bellatin.

sábado, 11 de julho de 2009

Flashbacks da FLIP 2009(1)


































O evento do início do mês de julho levou a Paraty-RJ 35.200 pessoas que, segundo dados dos jornais que circularam e foram distribuídos durante a grande festa, compõe-se de 34 autores convidados, dos quais 15 estrangeiros procedentes de 09 países, mediadores para as 19 mesas organizadas em ampla diversidade temática, participação de oito editoras, além da ocorrência de eventos paralelos na Casa da Cultura e na Casa Azul, da FLIPINHA e da FLIP ZONA. Para esta mega-estrutura Paraty prepara-se numa mega-montagem de Tenda de Autores, Tenda do Telão, Tenda de Autógrafos, Tendas da Flipinha, Tendas da FlipZona, serviços de atendimento aos participantes, sugestão de hospedagens e outros serviços. Diz-se que há um retorno de cinco milhões para a economia da região.

Os ingressos para a Tenda dos Autores esgotam-se antes mesmo que o evento se inicie, criando-se a chance de se dirigir à Tenda do Telão ou, caso não se consiga, sentar-se às margens dos telões, nas suas beiradas, desta vez sob céu aberto com direito a chuva fina ou mesmo a intensa neblina durante quase duas horas que perduram as apresentações das mesas. Ainda tem-se a chance de desistências e venda de ingressos de última hora. Poucas, mas acontece. Tudo por amor às letras e à arte.

O homenageado desta vez é o grande poeta Manoel Bandeira. E para abrir a conferência, Davi Arriguci Jr, crítico literário e professor aposentado de Teoria Literária e Literatura Comparada da USP, com várias obras publicadas, entre elas, às dedicadas ao poeta, Humildade, Paixão e Morte (1990) e O cacto e as ruínas (1997). Há uma tradição de ler nos primeiros momentos da fala trechos ou pontos de destaque do texto que versará o teor da conversa, animada pela fácil comunicação que o convidado rapidamente desenvolve com sua atenta e silenciosa platéia.
Se queres sentir a felicidade de amar, esquece a tua alma.
A alma é que estraga o amor.
Só em Deus ela pode encontrar satisfação.
Não noutra alma.
Só em Deus — ou fora do mundo.
As almas são incomunicáveis.
Deixa o teu corpo entender-se com outro corpo.
Porque os corpos se entendem, mas as almas não. Os versos de Manoel Bandeira ecoam e reverberam na animada prosa do conferencista que mais houvesse tempo, além das duas horas que lhe são facultadas, permaneceria entusiasmado a falar da simplicidade e leveza do poeta. Manoel Bandeira estava atento ao povo, sua poesia fala do chão, dos que estavam nas margens (2).

Notas:
1.Para atender a Mary e a Jonga que dizem sempre que preciso postar com mais freqüência, estou iniciando um relato meio apressado, sem muito criproco. Logo mais, passo a passo, recomeço a contar a lenda, no próximo post.
2.Duas fotos, a tenda do autor e a tenda do telão, numa delas vê-se a projeção da conferência do Davi Arriguci Jr. Vale a pena re-ouvir a exposição.

sábado, 27 de junho de 2009

















O visual é essencialmente pornográfico, isto é, sua finalidade é a fascinação irracional, o arrebatamento; nessa ótica, pensar seus atributos transforma-se em algo complementar se não houver disposição de trair o objeto; os filmes mais austeros, por sua vez, extraem por força sua energia da tentativa de reprimir os próprios excessos (em vez de tirá-la do esforço mais ingrato de disciplinar o espectador). Assim, filmes pornográficos são apenas a potencialização de uma característica comum a todos os filmes, que nos convidam a contemplar o mundo como se fosse um corpo nu.

Certamente sabemos disso com maior clareza hoje, porque nossa sociedade começou a nos apresentar o mundo-agora, em grande parte, um conjunto de produtos de nossa própria criação- exatamente como um corpo, que se pode possuir com os olhos e de que se podem colecionar as imagens. Se ainda fosse possível uma ontologia desse universo do visual, do ser como algo acima de tudo visível, com os outros sentidos derivando dele; todas as lutas de poder e de desejo têm de acontecer aqui, entre o domínio do olhar e a riqueza ilimitada do objeto visual; é irônico que o estágio mais elevado da civilização (até agora) tenha transformado a natureza humana nesse único sentido multiforme, o qual, com toda certeza, nem mesmo o moralismo pode ainda querer restringir. Este livro defenderá a idéia de que a única maneira de pensar o visual, de inteirar-se de uma situação em que a visualidade é uma tendência cada vez mais abrangente, generalizada e difundida é compreender sua emergência histórica. Outros tipos de pensamento precisam substituir o ato de ver por outra coisa; apenas a história, entretanto, pode imitar o aprofundamento ou a dissolução do olhar ( 1).

Tudo isso para dizer que filmes são uma experiência física e como tal são lembrados, armazenados em sinapses corpóreas que escapam a mente racional. Baudelaire e Proust mostraram-nos como as memórias são na verdade parte do corpo, mais próximas do odor ou do paladar que da combinação das categorias de Kant; ou talvez fosse melhor dizer que memórias são, acima de tudo, recordações dos sentidos, pois são os sentidos que lembram, e não a “pessoa” ou a identidade pessoal. Isso pode acontecer com livros, se as palavras forem suficientemente sensórias; mas sempre se dá com filmes, quando já vimos muitos e, inesperadamente, revemos um. A única coisa que consigo me lembrar sobre uma ida ao Exeter Theater em Boston, há mais de vinte anos, para assistir a um filme soviético, é de um desapontamento consciente; quando o vi novamente na semana passada, afloraram gestos nítidos, que me haviam acompanhado todo esse tempo sem que eu soubesse; meu primeiro pensamento-como pude esquecê-los?-é seguido pela conclusão proustiniana de que eles tiveram de ficar ignorados ou esquecidos para que assim pudessem ser lembrados.

Mas a mesma coisa se dá com o tempo real, na passagem de um dia para outro; as imagens do filme da noite anterior marcam a manhã, impregnando-a de lembranças semiconscientes, de modo a despertar um alarme moralizador; como o visual de que é parte, mas também essência e concentração, um emblema e todo um programa, o cinema é um vício que deixa suas marcas no próprio corpo. Assim, é inconcebível que uma atividade que ocupa uma parte tão grande em nossas vidas se restrinja a uma disciplina especializada, bem como que se pretenda alguma vez escrever sobre ela sem uma grande dose de auto-indulgência.

Texto de Fredric Jameson. Introdução in Marcas do Visível. Rio de Janeiro: Graal, 1995.

Notas:
(1)O arrebatamento, a fascinação, a contemplação, o possuir com os olhos, eis algumas das ações que Fredric Jameson assinala na introdução deste livro que trata do universo visual, centrando na idéia de que para pensar sobre a visualidade hoje como tendência abrangente na sociedade contemporânea, requer percebê-la na sua emergência histórica. Neste sentido, a memória dos filmes que assistimos durante toda a nossa vida é um legado que trazemos, por vezes até ocultos, mas que florescem ocasionalmente acompanhando-nos semiesqueçidos, pois diz êle, o cinema é um vício que deixa suas marcas no próprio corpo.

(2)A foto do post foi-me enviada por um amigo que passeando a trabalho pelo continente europeu e sabendo do meu interesse pela filmografia de Pedro Almodóvar, quis me dizer o quanto seus filmes são assistidos e admirados. Neste cinema observa-se o cartaz do filme Volver.

segunda-feira, 8 de junho de 2009

Mostra Marguerite Dura: Impressões























Em período de festas juninas regionais a Sala Walter da Silveira ousa apresentar a Mostra Marguerite Duras e a Mostra Hans-Jürgen Syberberg, entre outros destaques, a merecer atenção dos amantes da sétima arte (1).

Assistindo O homem atlântico (L’ homme atlantique, Fra, 1981) e As crianças (Les enfants, Fra, 1984) quando da presença do estudioso da filmografia de Marguerite Duras, Professor Maurício Ayer, várias perguntas vão tecendo e provocando conhecimento e interesse pela obra escrita e pelas inéditas películas daquela que escreveu as imagens de dezenove filmes, nove dos quais incluídos na mostra. A programação completa da mostra encontra-se, também, no Setaro’s Blog. Inexplicavelmente, não encontramos na imprensa local a devida cobertura merecida. Enigmas baianos?

Neófita nesta filmografia, porém, atenta a sua itinerância na terra, considero pertinente ater-me ao filme que será exibido hoje:
India Song (Fra, 1974, 120 min). Eis a sinopse pela própria autora.

As pessoas às vezes dizem que minha obra é feita como a música é feita. Se eu posso ter uma opinião, eu acho que é verdade. Pelo menos para India Song é verdade. Marguerite Duras.

É a história de um amor, vivido nas Índias, nos anos 30, numa cidade superpopulosa às margens do Ganges. Dois dias dessa história de amor são evocados. A estação é a da monção de verão. Quatro Vozes – sem rosto – falam dessa história.
As Vozes não se dirigem ao espectador ou ao leitor. Elas são de uma total autonomia, falam entre si. Não sabem que são ouvidas. As Vozes conheceram, leram, a história desse amor há muito tempo. Algumas se lembram melhor que outras. Mas nenhuma se lembra completamente, e, tampouco, nenhuma a esqueceu por completo. Não se sabe em nenhum momento quem são as Vozes. No entanto, pela maneira que cada uma tem de se esquecer ou de se lembrar, elas se fazem conhecer mais do que por sua identidade.
O enredo é uma história de amor imobilizada na culminância da paixão. Emtorno dela, uma outra história, a do horror – fome e lepra mescladas na umidade pestilenta da monção – imobilizada também num paroxismo cotidiano.
A mulher, Anne-Marie Stretter, esposa de um embaixador da França nas Índias, agora morta – seu túmulo está no cemitério inglês de Calcutá –, como que nasceu desse horror. Ela fica em meio a isso com uma graça onde tudo se abisma, num inesgotável silêncio. Uma graça que as Vozes precisamente tentam rever, porosa, perigosa, e perigosa também para algumas das Vozes.
Ao lado dessa mulher, na mesma cidade, um homem, o Vice-cônsul da França em Lahore, em desgraça em Calcutá. No seu caso, é por sua cólera e pelo assassinato que ele se une ao horror indiano. Uma recepção na Embaixada da França terá lugar – durante a qual o Vice-cônsul maldito gritará seu amor por Anne-Marie Stretter. Isto, diante dos olhos da Índia branca. Depois da recepção, ela irá às ilhas da foz do Ganges pelas estradas do Delta.

Notas: (1). A programação completa encontra-se em www.dimas.ba.gov.br e a curadoria da mostra em Salvador-Bahia está sob a responsabilidade de Adolfo Gomes, estudioso cineclubista, dedicado e conhecedor do ofício.

(2) Maurício Ayer. Filmografia Comentada de Marguerite Duras. In: Marguerite Duras Escrever Imagens, Rio de janeiro, 2009. A foto que ilustra o post encontra-se no catálogo da mostra.

quinta-feira, 21 de maio de 2009

Mostra Claude Santos (2)

Como uma imagem pode dar idéias? Steinberg as dá. Ou melhor, coisa mais valiosa, dá vontade de idéias. Esta frase de Roland Barthes, compilada em seus inéditos publicados recentemente, é atual e decifradora. A seguir quatro imagens de Claude Santos. Na sequência imagens dos audiovisuais comentados nos textos anteriores: Um bêbado no Bar Colon, Calasans Neto, Carybé e Agnaldo Siri.





domingo, 17 de maio de 2009

Mostra Claude Santos (1)

Folheando os títulos da Coleção de Inéditos de Roland Barthes encontramos várias comunicações, notas, resenhas e inquietações deste que foi, além de um especialista da linguagem, um interessado e curioso pela linguagem visual. A certa altura dos seus ensaios, especificamente numa conferência internacional sobre a informação visual, em meados dos anos sessenta, Barthes afirma que apesar de vivermos cercados e impregnados de imagens quase nada sabemos delas.

O que é, o que significa, como age, como comunica, quais os seus efeitos prováveis e imagináveis, quase nada sabemos, diz êle. De sessenta pra cá, produziu-se muito neste âmbito. Permanece, porém, a descoberta de que, no dizer de Barthes, tanto a imagem como a palavra, são formas de dizer de imediato alguma coisa. Nada posso fazer, sou obrigada a ir ao sentido, pelo menos a um sentido que se impõe diante de dada realidade.

As fotografias de Claude Santos falam. Dizem da condição humana,
da solidão, da leveza, da beleza, da poesia e de tantas outras dimensões humanas. Como beleza se mostra, não se diz, adverte-nos Barthes, Claude nos apresenta a seguir, imagens dos audiovisuais comentados no texto anterior.
Nesta sequência, uma das imagens encontradas em Luzes, Cinco Retratos Esquecidos, Canudos e Noiva. Assim contemplando, respiramos melhor, bebemos o que Baudelaire chamava de ambrosia vegetal ( Cf. Roland Barthes, 1977).








segunda-feira, 4 de maio de 2009

Mostra Claude Santos













Claude Santos, fazedor de imagens(1)

As várias dimensões do artista, fotógrafo, ensaísta, diretor de fotografia, estudioso e pesquisador da iconografia histórica, espelham-se no conjunto de trabalhos que encontramos com certa dificuldade de garimpagem. Claude ainda não se submeteu aos padrões consumistas da sociedade do espetáculo, encontrar seus trabalhos reunidos para perceber trajetórias e a amplidão do seu universo requer convívio e observação do seu ofício, cercado de mistérios e vivências originais e reservadas. Portanto, trata-se, de apenas e somente apenas, buscar comentar uma destas dimensões, a que se expõe na Mostra Audiovisual Claude Santos, uma das faces do seu produtivo trabalho de excelência (2).

Nos seus ensaios, ainda a serem devidamente divulgados, percebemos a influência de Alfredo Vila-Flor, seu pai. Aos dez anos de idade, em companhia do pai, visita pela primeira vez Canudos participando do início do mapeamento e registros das imagens que constituirão base de muitos projetos audiovisuais que fundamentam suas investigações e estudos sobre a Guerra de Canudos. Em 1991, participa do Guia visual do cenário da Guerra de Canudos (1986/1997). Em 1993, percorre o interior cearense, colhendo dados sobre a vida de Antonio Vicente Maciel, o Conselheiro. Desta iniciativa resulta o ensaio As andanças de Antonio, divulgado em circuitos restritos e distantes da parafernália midiática (3).


Recentemente, em janeiro de 2009, a Sala Walter da Silveira, divulga a Mostra Audiovisual Claude Santos. Nesta Mostra, para quem teve a sorte de assistir, percebeu-se uma filmografia densa que inclui realizações nas áreas da cultura, arte, literatura e história. Com um trabalho marcado pela observação da condição humana e valorização da memória, a Mostra ofereceu um rico painel do ponto de vista da perspectiva histórica de áreas expressivas da vida da cidade e de incursões sobre a solidão humana e a arte poética (4). Vinte poemas audiovisuais, se é que podemos denominar a trilha que percorre o artista, compuseram a mostra.

Difícil escolher os mais importantes. Todos os audiovisuais são marcados por um caminho de singeleza, síntese e leveza que dão conta de temas exigentes e que requer uma construção poética que denuncia a participação do autor no seu fazer. De Visões (1982), uma mostra da solidão humana no antigo Hospital Psiquiátrico Juliano Moreira, ao mais recente, A Gravura na Bahia (2008) um histórico editado em parceria com o artista Juarez Paraíso, os audiovisuais vão tecendo um conjunto de informações sobre as várias faces dos seres humanos, em seus mundos possíveis.

Em fins de oitenta, apresenta uma incursão sobre a epopéia sertaneja, Canudos(1986) um tema permanente e recorrente na sua trajetória, eivado de laços com os fragmentos da religiosidade sertaneja, expressos no audiovisual sobre a (1999). A documentação histórica se mostra, com mais intensidade, na investigação do processo de colonização do Recôncavo, explorando as ruínas da região, em Testemunhas Silenciosas, Ruínas do Recôncavo (1999), que se expande em seguida, em Ventos (2000) abrangendo a Baía de Todos os Santos através dos relatos de viajantes, no século XVI ao XIX. Percebe-se o itinerário de construção pela consulta sistemática a arquivos e documentos iconográficos, ferramentas básicas do ofício historiografico. A paixão de Leonídia Fraga pelo Poeta Castro Alves, também, não foi esquecida. Em A Noiva (2001), Claude nos traz sua imaginação afetiva deste encontro, no tempo. Em 2003, o documentário sobre o Teatro na Bahia, apresenta depoimentos de estudiosos e protagonistas que participaram da vida cultural e das artes nesta cidade.

A abordagem da vida de Nossa Senhora (2005) através das pinturas da Catedral Basílica de Salvador revela perspectivas histórico-religiosas que acompanha seus trabalhos, marcados pela consulta aos arquivos e fontes iconográficas. Mas, é em Cinco Retratos Esquecidos (2005), retratos sobre a solidão, que a temática da condição humana ganha figurações poéticas extremas.

A vida de personagens na ambiência histórica, literária e cultural em Salvador, será trazida, freqüentemente, para seus poemas audiovisuais. Carybé (2006) em sua obra de pintor; Calasans Neto, o Príncipe de Itapuã (2006) mostrando a Bahia na sua obra de pintor e gravador; O sertão de José Calasans (2006) uma homenagem ao grande estudioso da Guerra de Canudos, são poemas que Claude Santos oferece dos seus retratados. Nesta linha, podemos incluir Moinhos de Vento (2006) um audiovisual sobre a construção poética de Mário Quintana.

Mais recentemente, Diário de um bêbado (2007) traz uma noite no bar Colon. Mais conhecido, porém, e exibido em salas alternativas do circuito de arte, Agnaldo Siri, Fazedor de Cinema (2007) representa uma síntese audiovisual da obra do documentarista. Este documentário foi exibido em outros circuitos e eventos relacionados à jornada de cinema, em Salvador.

Em 2008, os audiovisuais produzidos colocam temáticas distintas a partir de uma perspectiva histórica, expressando cada vez mais o domínio da linguagem poética na construção de diferentes realidades. Encontra-se nesta linha, Lençóis (2008) um breve histórico sobre a saga do diamante na Chapada Diamantina; Mosteiro de São Bento (2008) Introdução histórica à Ordem Beneditina na Bahia e a Gravura na Bahia (2008) histórico editado em parceria com o artista Juarez Paraíso.

Finalizo essas breves linhas sobre um intenso trabalho em construção. Cada vez que encontro Claude me surpreendo com a sua disposição em falar-me do Curso de Fotografia que realiza semestralmente em seu estúdio, das imagens que produz nas suas inúmeras viagens, dos seus inúmeros projetos de audiovisuais. Nestas imagens, a peculiaridade de um pião que se movimenta num eixo infinito (5).


Notas:
(1)A imagem e o texto ao lado que ilustra este post encontra-se no audiovisual O Sertão de José Calasans(2006) de Claude Santos. Em nota de roda pé, trecho da palestra de José Calasans durante o recebimento do Título de Cidadão da Cidade de Euclides da Cunha, em 12 de junho de 1998.
Não sei se as pessoas refletem bem sobre o primeiro contacto com certas palavras. Ainda menino, na minha Cidade de Aracajú, ouvi de uma senhora de Itabaiana, versos de Tobias Barreto. Eram estes:
Não sabes como são tristes
Os olhos de quem não chora
E como teu rosto descora
Ao calor deste sertão.
Foi, sem dúvida alguma, a primeira vez que ouvi a palavra Sertão
.

(2) Em primeiro levantamento inicial e provisório, elencamos os seguintes audiovisuais, a serem complementados, posteriormente: Visões (BRA, 1982); Canudos (BRA, 1987); Luzes, (BRA, 1990); Quintanares (BRA, 1993); Testemunhas Silenciosas, Ruínas do Recôncavo (BRA, 1999); (Bra, 1999); Ventos, a Bahia dos Viajantes (BRA, 2000); A noiva, 2001; Teatro na Bahia (BRA, 2003); Cinco Retratos Esquecidos (BRA, 2005); Nossa Senhora (BRA, 2005); O Sertão de José Calasans (BRA, 2006); Calasans Neto, Príncipe de Itapuã (BRA, 2006); Carybé (BRA, 2006); Moinhos de vento, 2006; Diário de um bêbado (BRA, 2007); Agnaldo Siri, Fazedor de Cinema, 2007; Lençóis (BRA, 2008); Mosteiro de São Bento (BRA, 2008); Desaparecidos (BRA, 2008); A Gravura na Bahia (BRA, 2008); Rascunhos de Joanna Imaginária, s/d.

(3) Para maiores informações, acessar http://editora.globo.com/epoca/edic/237/ContatoClaudeSantos.pdf

(4) A Mostra Audiovisual Claude Santos realizou-se no período de 9 a 16 de janeiro de 2009. O folder do evento, distribuído quando da sua realização, traz uma síntese de cada audiovisual e imagem da obra.

(5) Sobre o Curso de Fotografia e Linguagem Audiovisual, conferir claudesantos@hotmail.com

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

Kara Kitap

















Em tempos abarrotados de comentaristas, entendidos, visonários, portadores da última palavra etc. etc. que pululam por este mundo à fora, sobram as raras e concisas análises escolhidas e encontradas sobre os filmes e temáticas que gostaria de contemplar numa agenda de trabalho, em construção. Resta-me fazer um pouco de silêncio. Ouvir e prescrutar. Logo que possa volto. Antes porém, deixo uma imagem sem legenda e sem crédito da atriz preferida do bruxo Orhan Pamuk. E um clichê , uma imagem vale mais do que mil palavras.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009






AFOXÉ FILHOS DE GANDHY
( 1949- )
Sessenta anos de História do Carnaval. Salvador-Bahia.

domingo, 22 de fevereiro de 2009

Ponto de Fuga : uma leitura inteligente






















De tudo que lí até agora publicado sobre os filmes da temporada e em cartaz, garanto que não foi pouco, me agrada as antenadas observações e análises do colunista da Folha de São Paulo, Jorge Coli.
O filme Dúvida ainda não chegou no circuito da Província da Bahia, porém apresenta um forte motivo para pensar nas tremendas frases que estamos a ouvir em tempo de carnaval e oscar, ditas por personagens (nem) sempre tão comprometidas como os agentes da fé, sempre defensores das certezas. Continuo na mesma pista, ou seja, trascrever do MAIS, pelo menos por enquanto. A seguir, o texto.

A educação dos preconceitos

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O filme "Dúvida" baseia-se na incerteza de saber se houve uma relação física entre um padre e um aluno; frase tremenda da madre superiora, vivida por Meryl Streep: "Ele é o que eu penso que ele é"
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JORGE COLI
COLUNISTA DA FOLHA

Muitos críticos desdenharam "Dúvida" porque seria "teatro filmado" e não verdadeiro cinema. John Patrick Shanley, o diretor do filme, fez carreira como roteirista e como autor de peças teatrais, o que reforçaria a condenação.
Antes disso, dirigiu apenas um longa-metragem, comédia fantástica, conto filosófico discreto: "Joe Contra o Vulcão". A acusação, porém, é preconceituosa. Parte de definições sumárias, sem se dar conta de que, se funciona na tela, não é teatro.
Shanley tomou o partido de uma narração fluente. Nada de experimental ou de estranho. Como se dirigisse "Os Sinos de Santa Maria", no caso de alguém se lembrar desse delicioso filme de Leo McCarey, estreado em 1945.
Nele, a freira Ingrid Bergman se opunha a Bing Crosby, padre de um colégio religioso.
"Dúvida" quer contar uma história sem complicações, para exaltar as qualidades dos atores. Do jeito que se fazia em outros tempos.
Está nos antípodas de um Almodóvar, que criou, com suas costumeiras surpresas bizarras, "Má Educação" (2004). O núcleo dos dois filmes é o mesmo: laços de atração tecidos entre o padre de um colégio e um aluno.
Apesar de seu espírito transgressor, sua cinematografia extravagante, Almodóvar limitou-se a uma fábula moralista e conservadora. Não insinua nenhuma interrogação. Condena, apenas. Seu padre é culpado e abjeto.
Ao contrário, "Dúvida" denuncia o totalitarismo das certezas. Aponta para a única arma contra as tiranias, os fundamentalismos, os preconceitos os mais arraigados e seguros de si, que necessitam forjar tantos acusados para reafirmarem suas próprias verdades. Essa arma vem desde o início exposta no título.

Catecismo
"Dúvida" baseia-se na incerteza de saber se houve uma relação física entre o padre e o aluno. O filme, porém, logo ultrapassa a discussão sobre a culpabilidade objetiva, que é superficial e jurídica. Interroga, de maneira complexa e fina, além dos fatos, a natureza dessa relação execrada. A questão é sua possibilidade de não ser encarada como, forçosamente, um mal.
O diálogo entre a superiora e a mãe, carregado de intensidade intrincada, é espantoso em tempos maniqueístas como os que atravessamos.

Bruxa
Frase tremenda da madre superiora, vivida por Meryl Streep: "Ele é o que eu penso que ele é".

Pasárgada
História amarga, antiyuppie. O termo é, aqui, anacrônico, já que "Foi Apenas um Sonho" se passa nos anos 1950, mas os yuppies existiram antes de serem nomeados. O filme é de Sam Mendes.
Tem algo em comum com o estilo de "Dúvida": a vontade de, justamente, evitar qualquer estilo e fazer com que os atores, soberbos, sobressaiam.
Pelo tema, faz pensar em "Meu Tio da América", de Alain Resnais (1980). O tio de Resnais é o parente distante e abstrato que permite dizer: quando não aguentar mais, vou lá com ele, recomeçar tudo. Ilusões que ajudam a viver.
Quando desmoronam, a tragédia espreita. Leonardo DiCaprio e Kate Winslet encarnam uma crise interior que denuncia o ideal norte-americano de vida. Põem o paraíso em Paris, uma Paris que poderia libertá-los da mediocridade.
No entanto ela é inalcançável, porque o casal não consegue se desatolar do subúrbio.
Talvez "Foi Apenas um Sonho" traga, junto com "Dúvida", um microscópico vírus indicando nova era e renovação dos tristes valores que imperam neste início de século. Ou talvez tenham apenas levado a uma alucinação otimista.



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jorgecoli@uol.com.br