sábado, 31 de outubro de 2009

Bresson e Kierkegaard

No momento, sem condição de manter o rítmo de trabalho exigido pelo blog, mas segura de que este espaço precisa manter o diálogo com os(as) amantes de cinema, encontei uma postagem antiga do Adolfo Gomes, editada no Blog Bressonianas. Para falar a verdade, não conheço nem Bresson, sequer Kierkegaard, mas gosto muito do que tenho conversado com Adolfo sobre cinema.


23/06/2006
Bresson tem olhos para o impossível
Por Adolfo Gomes
(cineadolfogomes@yahoo.com.br)

Diante da obra de Robert Bresson a história do cinema assume a perspectiva do Abraão de Kierkegaard que, aos 130 anos, não tinha ido mais distante que a fé*. Pois da fé, como do amor, só ficam as evidências, que são seus filmes, tão marcantes quanto exemplo de Isaac, filho de Abraão, oferecido em sacrifício.
Não à toa, Jean-Luc Godard sentenciou: “Depois de Bresson, é preciso começar do zero”. Por que se antes de Abraão não conhecíamos a fé, sem Bresson nos faltaria uma escrita para o cinematógrafo. Então, temos essas imagens e sons a dar forma a uma ontologia de seres e coisas que não admite efeito ou psicologia.
Bresson filma homens e objetos como iguais, pois opera em uma arte de exteriores. O milagre de seu método está em atravessar essa superfície cujo sentido é o da banalidade. Sua câmera propõe uma comunhão de outra ordem: com o invisível.
É um percurso estranho, porque o invisível para nós é o indício de Deus, ou antes, a Sua ausência. E há, no universo de Bresson, esse olhar ausente, que amplifica nossa tragédia.
Uma possível síntese da escrita bressoniana está na imagem da cédula falsa em “O Dinheiro”, seu último filme. Contra a luz, a nota ilegal revela sua marca d’água, reforçando que as coisas, como os homens, não têm valor em si. Esse valor advém do gesto, nosso para com os objetos, e de Deus para com a humanidade.
No entanto, a linguagem de Deus é o silêncio. Assim nos debatemos como os pássaros ao final de “O Processo de Jeanne D’Arc”. E se nos resta alguma esperança, e ela também está em seus filmes, é porque Bresson tem olhos para o impossível.
Isolamento – De outra parte, Bresson só não conseguiu superar as limitações impostas pela indústria dos filmes, as restrições dos produtores, o que, em última análise, acabou por interromper sua carreira. À medida que avançava em sua poética, menores eram as suas chances de obter financiamento. Após anos de tentativas frustradas de levar às telas um novo projeto, recolheu-se...Conforme escreveu o norte-americano Paul Schrader: “colocou-se além de qualquer comunicação, como Deus”. Retomou a pintura, segundo relato dos mais próximos. Mas não há vestígios dessas obras, talvez definitivamente encerradas na mitologia pessoal de um artista para qual “o outro” era o caminho para revelar a si mesmo.

Nota
*Não são raras as associações entre a obra de Robert Bresson e o pensamento do dinamarquês Soren Kierkegaard. Se Bresson se referia ao cinematógrafo para marcar a diferença entre seus filmes e o cinema convencional, Kierkegaard, por sua vez, jamais pretendeu ser filósofo, embora seus escritos acabassem por criar as raízes de uma nova corrente filosófica – o existencialismo. Bresson e Kierkegaard também compartilhavam a mesma convicção religiosa radical e, até determinado ponto da filmografia bressoniana, comungavam da mesma preocupação em investigar as relações da existência com a divindade. Para Kierkgaard, o estágio religioso era o último e mais importante salto que o indivíduo deveria empreender para interpretar-se e encontrar um sentido para sua existência.
Neste aspecto, parece apropriado resgatar o exemplo de Abraão, tal como evocado por Kierkegaard em um dos seus principais livros “Temor e Tremor”. Dessa obra, convém assinalar ainda o trecho seguinte: “Abraão, pai venerável! Milhares de anos se passaram desde esses dias sombrios, porém não é preciso um tardio admirador para tirar, pelo amor, a tua memória às potências do olvido, pois todas as línguas te lembram. E, entretanto, dás a recompensa a quem te ama por uma forma mais generosa de que ninguém; lá ensejas fazê-lo bem aventurado em teu seio e, aqui embaixo prendes o olhar e o coração com o maravilhoso de tua ação. Abraão, pai venerável! Segundo pai do gênero humano! Tu que por primeiro sentiste e manifestaste essa grandiosa paixão que despreza a luta terrível contra a preciosa ação dos elementos e das forças da criação para lutar contra Deus, tu que foste o primeiro a sentir esta paixão sublime, expressão sacra, humilde e pura, do divino frenesi, tu que adquiriste a justa admiração dos pagãos, perdoa a quem tentou cantar em teu louvor, se bem não soube desincumbir-se de sua tarefa. Falou de maneira humilde, conforme o secreto desejo de seu coração; falou de maneira breve, como era conveniente; porém jamais olvidará que te foram necessários cem anos para receber, contra toda a esperança, o filho da tua velhice e que foste obrigado a sacar a tua faca para matar Isaac – também não esquecerá que aos cento e trinta anos, não tinhas ido mais distante do que a fé”.

4 comentários:

Jonga Olivieri disse...

De Bresson conheço alguma coisa, mas de Kiekegaard não sabia nada.
Bom, pelo menos passei a conhecer uma síntese de seu pensamento...
Prometo que vou pesquisar.

Stela B. de Almeida disse...

Duvido que os simpatizantes do pensamento marxista tenham tempo para Kierkegaard.

Para Wittegeenstein Kierkgaard é de longe o mais profundo pensador do século XIX, e mais, a tese de Adorno, A Construção do Estético, bebe nesta fonte. Além disso, diz-se, sua obra dialoga com o existencialismo cristão, Sartre e Nietzsche. Bem, um caminho e tanto no qual não sou sequer iniciada e nem pretendo trilhar. Por enquanto fico com a síntese do Adolfo, que sequer percebeu que copiei as bressonianas.

Jonga, noticia importante, o curso de cinema começou. Tentarei postar algo sobre o assunto. A proposta é desafiadora. Estou atentando desvendar Rosselline ( Roma, Cidade Aberta). Atual, polêmico, um verdadeiro trabalho de pesquisa.

Jonga Olivieri disse...

É, estivve a pesquisar sobre Kierkengaard e ele é um dos maiores pensadores do existencialismo.
Porém seu existencialismo é diametralmente oposoto ao de Sartre, pelo forte pensamento luterano de seus principios.
Sartre partiu de uma premissa materialista e humanista.
Mas é matéria para muio estudo...

Stela B. de Almeida disse...

Há uma distinção entre navegar na internet, consultar o wikpédia, a enciclopédia livre e realizar pesquisas nos cânones dos conselhos cinetíficos de pesquisa. Sabemos. Em verdade, no mundo ciber, há mais consulta e exploração que pesquisa no sentido canônico. E como ninguém é de ferro, entendo que a itinerância pela navegação de superfície, também tem seu mérito, num mundo tão (in)culto. Portanto, Jonga, estamos sem culpa de não nos debruçarmos, no momento, pelas teses existencialistas sequer as materialistas, aliás, o espaço aqui parece que foi feito mais para exploração, sequer tem gabinetes burocráticos...