segunda-feira, 8 de junho de 2009

Mostra Marguerite Dura: Impressões























Em período de festas juninas regionais a Sala Walter da Silveira ousa apresentar a Mostra Marguerite Duras e a Mostra Hans-Jürgen Syberberg, entre outros destaques, a merecer atenção dos amantes da sétima arte (1).

Assistindo O homem atlântico (L’ homme atlantique, Fra, 1981) e As crianças (Les enfants, Fra, 1984) quando da presença do estudioso da filmografia de Marguerite Duras, Professor Maurício Ayer, várias perguntas vão tecendo e provocando conhecimento e interesse pela obra escrita e pelas inéditas películas daquela que escreveu as imagens de dezenove filmes, nove dos quais incluídos na mostra. A programação completa da mostra encontra-se, também, no Setaro’s Blog. Inexplicavelmente, não encontramos na imprensa local a devida cobertura merecida. Enigmas baianos?

Neófita nesta filmografia, porém, atenta a sua itinerância na terra, considero pertinente ater-me ao filme que será exibido hoje:
India Song (Fra, 1974, 120 min). Eis a sinopse pela própria autora.

As pessoas às vezes dizem que minha obra é feita como a música é feita. Se eu posso ter uma opinião, eu acho que é verdade. Pelo menos para India Song é verdade. Marguerite Duras.

É a história de um amor, vivido nas Índias, nos anos 30, numa cidade superpopulosa às margens do Ganges. Dois dias dessa história de amor são evocados. A estação é a da monção de verão. Quatro Vozes – sem rosto – falam dessa história.
As Vozes não se dirigem ao espectador ou ao leitor. Elas são de uma total autonomia, falam entre si. Não sabem que são ouvidas. As Vozes conheceram, leram, a história desse amor há muito tempo. Algumas se lembram melhor que outras. Mas nenhuma se lembra completamente, e, tampouco, nenhuma a esqueceu por completo. Não se sabe em nenhum momento quem são as Vozes. No entanto, pela maneira que cada uma tem de se esquecer ou de se lembrar, elas se fazem conhecer mais do que por sua identidade.
O enredo é uma história de amor imobilizada na culminância da paixão. Emtorno dela, uma outra história, a do horror – fome e lepra mescladas na umidade pestilenta da monção – imobilizada também num paroxismo cotidiano.
A mulher, Anne-Marie Stretter, esposa de um embaixador da França nas Índias, agora morta – seu túmulo está no cemitério inglês de Calcutá –, como que nasceu desse horror. Ela fica em meio a isso com uma graça onde tudo se abisma, num inesgotável silêncio. Uma graça que as Vozes precisamente tentam rever, porosa, perigosa, e perigosa também para algumas das Vozes.
Ao lado dessa mulher, na mesma cidade, um homem, o Vice-cônsul da França em Lahore, em desgraça em Calcutá. No seu caso, é por sua cólera e pelo assassinato que ele se une ao horror indiano. Uma recepção na Embaixada da França terá lugar – durante a qual o Vice-cônsul maldito gritará seu amor por Anne-Marie Stretter. Isto, diante dos olhos da Índia branca. Depois da recepção, ela irá às ilhas da foz do Ganges pelas estradas do Delta.

Notas: (1). A programação completa encontra-se em www.dimas.ba.gov.br e a curadoria da mostra em Salvador-Bahia está sob a responsabilidade de Adolfo Gomes, estudioso cineclubista, dedicado e conhecedor do ofício.

(2) Maurício Ayer. Filmografia Comentada de Marguerite Duras. In: Marguerite Duras Escrever Imagens, Rio de janeiro, 2009. A foto que ilustra o post encontra-se no catálogo da mostra.

12 comentários:

Anônimo disse...

Stela,

Tenho acompanhado as mostras que vem acontecendo na Biblioteca Publica. Infelizmente, tenho sido um expectador solitario e temido. Solitário pois no maximo mais tres pessoas estão na sala e temido pois os funcionários ficam torcendo para que não apareça ninguem assim eles podem encerrar mais cedo e ir para casa ( ou bares)..... Ai aumentam o ar no máximo para congelar nosso pensamento, com a desculpa de que é "automatico" ( o ar tem vontade propria e não pode ser contrariado) ou desligam o equipamento....Infelizmente ainda temos a cultura de que filmes de arte "não prestam" e um grupo de profissionais que só tem compromisso com o salario no fim do mês, mesmo que sem trabalhar.

Coisas da terra do dendê.

Beijos,

Antonio

Stela B. de Almeida disse...

Há excelentes análises sobre a frequência das salas de cinema em Salvador, podemos encontrá-las no Blog do André Seataro.

Minha experiência em frequentar a Sala Walter da Silveira é um pouco diferente. Do guardador de carro, do moço que comercializa o cafezinho, da moça que sempre me diz a hora que a sessão vai começar, êles não tem a menor responsabilidade sobre o controle dos equipamentos. São questões de administração interna e cabe a de quem é de direito observar os escapamentos.

Gostaria de chamar atenção para a qualidade da programação e a mostra que está em cartaz é exemplar. Sobre a cultura baiana de acesso e freqüencia aos chamados meios de entretenimento considero necessário pesquisas mais elaboradas que o simples achismo.

Antonio, você achou o que mesmo da mostra? Assistiu ontem o India Song?

Depois de ter assistido a denuncia ao colonialismo francês na Índia com a singularidade da filmagem MDuras que mais uma vez mostra a fôrça da palavra, pouco liguei ao ar condicionado. Leva seu casaco de frio, ou não?

Anônimo disse...

Sai do filme India Song ontem comentando com Stela que no filme se refletia o suave charme do colonialismo frances na Asia, em sua decadencia, pois estava em marcha a revoluçao na China, o fim de Indochina e o inicio do Vietnan. Mas nao me alinho a sua leitura de que o filme é uma 'denuncia do colonialismo frances'. Nenhum trabalho de Duras, conheço mais seus romances, autorizam sua codificaçao como militante, nem precisa. Seu filme India Song, como ela bem observa, é musica, e acrescentaria, pintura falada. No filme a nao imagem da colera, da miseria da India se associa de forma sutial com a imagem de dramas existenciais, do tedio existencial dos sem lugar, os colonizadores. So tem voz no filme alem dos contadores de historia, a mendiga louca, a que traz a India, e o apaixonado, que traz a voz do desespero do absurdo da paixao, dois loucos que gritam em uma sinfonia de placidez e quadros imagens que se sucedem. A narracao é em lingua que ja se autoriza ao lirismo da distancia, do impossivel, um frances modulado, cantado. Deixa a angustia da incomunicaçao de linguagens, a palavra e a imagem que nao se reduzem uma a outra, sao dois filmes, ou pinturas cantadas em palavras melodiosas. Isso é mais que denuncia de colonialismo e sim do absurdo da vida, dos afetos, o tedio e a desistencia, vai-se a mulher no Ganges, quando as civilizaçoes do existencial e o historico se encontram em uma correnteza do sagrado profanado. Mary Garcia Castro

Stela B. de Almeida disse...

Colonialismo para mim não tem suave charm, tem lepra no coração.

Mas há outras falas sobre o filme, o Maurício Ayer, diz: "A proposta é que sejamos loucos e amorosos para com este cinema que tem tanto a nos provocar, questionar e comover_e que por isso mesmo é urgente conhecer. Pois, diz Duras, o cinema se faz no lugar do espectador: é êle quem lê, recria, traduz, descobre e inventa sentidos. Em uma palavra, é ele quem escreve imagens" Catálogo da Mostra, 2009.

Mary, obrigada pela provocação que me leva a reler a escrita das imagens e mais ainda,a Marguerite Duras.

Adolfo disse...

Prezada Stela,

Tem uma frase do Renoir que gosto muito: "o terrível neste mundo é que todos têm suas razões". Acompanhando os comentários, achei pertinente lembrá-la. Agradeço seu apoio e interesse. Também lamento a solidão do Antonio. A maior parte do tempo me sinto muito só, como ele...Infelizmente, menos temido do que eu gostaria, sobretudo, pelos funionários da Sala Walter.

Jonga Olivieri disse...

Já até havia comentado no Setaro's Blog sobre a importância da obra de Duras, não somente quanto ao cinema, como o de escritora. Ou, no caso, ambas as coisas.
Referi-me na ocasião a um romance de sua autoria (1958) que Peter Brook (diretor inglês) dirigiu na França intitulado "Moderato Cantabile" e que considero uma preciosidade.
Escrito em 1958, junto com "L'Amant" (1955) pode ser considerada uma de suas obras literarias mais importantes.
O filme tinha em seu elenco Jeanne Moreau e Jean-Paul Belmondo. Mas o clima é impressionante. A névoa, os aconteciemtnos que desencandeiam toda uma série de vivências. Fantastic!

Stela B. de Almeida disse...

Como está frio realmente hoje, chouveu bastante, vou levar meu casaquinho debaixo do braço, hoje é a última chance de assistir Agatha ou as Leituras Ilimitadas. Se encontrar Antonio darei um forte-saudoso abraço e falarei do seu comentário, Prezado Adolfo.

Jonga, seus comentários são sempre Fantastic! Passei ontem no Nova Pensatas e gostei daquele manifesto. Assino embaixo.

Stela B. de Almeida disse...

Continuando a Mostra e a busca de entender mais a filmografia de Marguerite Duras, transcrevo abaixo o e-mail enviado pelo Professor Maurício Ayer.


Virge, Stela, que pergunta difícil, rs.
É que eu dediquei alguns anos de minha vida a estudar India Song – o livro, principalmente, mas também o filme. Então para mim é difícil falar de uma maneira mais genérica dessa obra.

Mas para ser bem sintético, eu diria que India Song é uma tragédia moderna, elaborada com vários elementos da tragédia clássica: a falha trágica (o amor do Vice-cônsul por Anne-Marie Stretter); o coro, enquanto representante da “polis” no palco (as vozes dos convidados do baile); a melopeia (as vozes faladas trabalhadas musicalmente); uma estruturação a partir da música (como quer Nietzsche, a tragédia "nasce" do "espírito da música").
E essa tragédia é construída como música: uma minuciosa e complexa orquestração, só que não apenas de sons como também de luzes, gestos, movimentos de câmera, intensidades etc. etc.

Esse é o resumo do resumo. Se você quiser, eu te mando a minha tese, que contém toda a elaboração que eu fiz dessas ideias.

Um beijo, Maurício

Anônimo disse...

Comparto com você Mary, mas o espaço do blog também aproxima, critica, informa. Neste momento há apenas um convite para conhecer a filmografia/obra de uma autora provocadora. ( transcrevo seu e-mail por considerar e respeitar suas idéias e argumentos).


Se colonialismo fosse lepra , exploraçao objetiva e miseria, so, seria mais facil combate-lo, assim como o capitalismo. A complexidade é que enreda vitima e algozes (a reflexao sobre o amo e o escravo de Hegel) e todos como bem dizia Sartre somos cumplices, ate quando ficamos de expectadores, enredamo-nos no consumo de ideias e bens que produzem. Foulcault rebatendo uma leitura simplista do marxismo disse que o pior do capitalismo e do cololianismo é que nao consomem somente força de trabalho mas ideias e sonhos, e a seduçao é arma de dominaçao. Ha que mergulhar mais fundo nas analises.

Comparto com o Antonio sua angustia da solidao no consumo de arte, a tristeza das salas como a Walter da Silveira, vazias, mas enquanto criticos, intelectuais e artistas circularem entre si, ou entre pares, circunscritos a blogs (outra provocaçao) sem chegar o debate a muitos, tal guetizaçao se reproduz. As criticas de cinema, de arte nos jornais dea Provincia doem de tao primarias. Beijos, Mary

André Setaro disse...

O nome de Marguerite Duras faz com que me venha logo à lembrança "Hiroshima, mon amour" (1959), de Alain Resnais, cujo roteiro foi totalmente escrito por ela. Filme evocativo e recitativo, sobre a memória e sua urgência, é uma obra-prima do cinema e, na época, muitos críticos ficaram intrigados com a simbiose autoral entre um escrito literário e um "texto" fílmico extraordinariamente cinematográfico.

As "vozes" de "India song", citadas nesta bela descrição, associam-se à voz da mulher em "Hiroshima, mon amour" que evoca, ao lado de seu amante, a amargura de um passado trágico.

E a descoberta do cinema por Marguerite Duras se deve a seu histórico encontro com Resnais. Desde o momento em que viu "Hiroshima, mon amour", sentiu a tentação de se aventurar, sozinha, na expressão cinematográfica.

Seus filmes são monocórdicos, estáticos, difíceis e comercialmente inéditos no Brasil. Daí a importância da mostra conseguida por Adolfo Gomes para a Sala Walter da Silveira. Mas possuem, segundo a crítica internacional, uma grande força interior. Alguns de seus livros tiveram adaptações para o cinema, a exemplo de "O marinheiro de Gilbatrar", de Tony Richardson, "Moderato Cantabile", de Peter Brooks), que Jonga já referiu, "Barrage contre le Pacifique", de René Clement e, mais recentemente, "A amante".

Você, Stela, está a realizar, aqui, no seu blog, uma espécie assim de iluminação sobre os filmes "difíceis" de Marguerite Duras.

Jonga Olivieri disse...

Claro que obviamente é falta absoluta de tempo, mas, sinto falta de suas postagens.
Elas me enriquecem Stela!

Stela B. de Almeida disse...

Oi Jonga querido, você tem razão. Meus planos de fazedora de blog não estão acelerados, não quero repetir os textos e as demandas familiares-pessoais tiveram prioridade e exigiram presença ultra-online estes últimos meses. Tenho alguns projetos esperando, os estudos da filmografia de Almodóvar iniciado com a Kika esperando a banda passar, os apontamentos das aulas do Professor Setaro guardados para um dedicado diálogo com outras feras que respeito como o G.Sadul e mais recentemente a tese que foi-me enviada online da filmografia de Marguerite Duras. São tantas provocações e os filmes/eventos acontecendo, vontade de estar em todos não falta. Mas vou tentar, o rítimo de um post mensal não abrirei mão. E ainda não passei no Novas Pensatas, nem sei da pensatas de domingo, julho chegando, a FLIP começando. Irei. Irei acelerar. Um grande abraço.