terça-feira, 6 de outubro de 2009

Fragmentos de Godard
























Continuando as Conversas de Cinema iniciadas neste espaço, quero hoje dedicar um tempo ao diálogo com Adolfo Gomes (1). A conversa será intermediada pela leitura do livro Godard, Jean Luc (2) e ampliada pela inquietante, original e particularíssima filmografia composta de mais de cinqüenta filmes de longa-metragem, uma dezena de curtas e mais de vinte filmes realizados em co-direção com companheiros de caminhada do cineasta, uma coleção admirável que ganhei de presente (3).

Como recurso metodológico, extrairemos fragmentos da leitura e simularemos um encontro com Jean-Luc-Godard. Inalando suas inspiradas fumaças por trás de montanhas de filmes e livros, com seu jeito de quem sabe trabalhar arduamente em seus projetos, ainda que sem muito dinheiro, ainda que enfrentando adversidades, ainda que pouco compreendido e sempre disposto a exercer a crítica, ainda que já envelhecendo e mais próximo à morte, encontramos um autor disposto a conversar. A seguir, fragmentos do nosso diálogo:

Blog: Em 2009 o Seminário Internacional de Cinema realizado em Salvador, trouxe, entre as várias modalidades de atividades, uma Retrospectiva Godard composta de quinze filmes produzidos em diferentes épocas. Nesta Retrospectiva percebemos uma predominância de filmes centrados nos anos sessenta onde a palavra tinha uma força incomensurável e a perspectiva masculina ainda se fazia com mais intensidade que o discurso feminino, cenário este que se reproduziu também, nestas filmagens, com algumas particularidades. Pensamos e caracterizamos a mostra como o predomínio do olhar masculino.
Godard: Sim, também penso assim. A França é um país de palavras e de linguagem, um país masculino, enquanto há países muito mais espertos como a Itália, que é um país feminino e que diz: “Invadiram-me, eu me viro, não é grave”. É o lado masculino francês: “Ser mais forte que o outro na palavra”.

Blog: Nesta retrospectiva mencionada havia, também, a expressão da trilogia marcada por filmes assistidos nos anos oitenta, entre eles, Passion, 1982; Prénom Carmen, 1983; Je vous salue Marie, 1985. Nestes, a câmera propõe um novo olhar, uma nova narrativa. Quais as inspirações que prevaleceram nestes filmes?
Godard: Mãe de Deus. O Dogma do Concílio de Éfaso, que suscitou terríveis discussões sobre a questão, para cada uma das palavras há uma biblioteca... Entramos em abismos (...) O que você observa é que “Je vous salue Marie” é primeiramente o seu filme, isso implica que quem diz a oração está na posição do Anjo: “ Ave Maria, cheia de graça, o Senhor é convosco”...É a Anunciação, é o Anjo que fala...Enquanto que na segunda parte da oração, é o homem comum, há troca de posição. (...) É o dia da Apresentação de Maria no Templo, e é uma festa solene que deu lugar a vários quadros, um grande quadro do Ticiano... Ticiano é o grande especialista de Maria em todos os seus estudos. “O fruto do vosso ventre”, depois a morte... Evidentemente, tem-se de imediato a conjunção entre o acontecimento que uma palavra vai produzir um corpo e o fato que se segue para todos que estão na paralela, ali, pensando nisso...O que é mito bem dito no Credo e nas missas que musicalmente tentam passar isso...Por exemplo em Je vous salue Marie, a aparição do bebê no automóvel, com um fundo de missas(...) quase tudo é Bach.

Blog: Há uma influência da sua formação religiosa nestes filmes? Que sentido tem a música e a religião para você?
Godard: Quando eu era criança adorava rezar a missa para toda a família reunida. Eles ficavam de joelhos. Isso lhe ensinava música. Na minha família paterna, meu avô, que era amigo de Paul Valéry, lia em voz alta... Ele começava e as crianças continuavam... Disso, tenho saudades...E por exemplo, com os atores, que são supostos...Não consigo que façam...Tentei mais abandonei...Fazer leitura a voz alta, simplesmente, mas eles só querem ler o roteiro, que não é para ler em voz alta...Ler um outro livro sobre o qual ficássemos de acordo, seria também um bom dia de trabalho...Mas você sente que é impossível...

Blog: Voltemos à trilogia, Prenón Carmem é um filme sobre a amizade entre os gêneros, isto é possível?
Godard: Na verdade, Prénom Carmen, se prende à originalidade do trabalho, ao argumento e adaptação de Anne-Marie Miéville. A história de Carmen é conhecida de todos. (...) O que nos interessava era mostrar que o homem e a mulher se tinham dito sob a influência desta imagem do amor que pesa entre eles. Que se chame isto amor ou sua aventura: destino, amor ou maldição. Se aconteceu que muitos diretores fizeram filmes que se chamam Carmem, talvez seja porque Carmen é um grande mito feminino, um grande mito feminino que não existia senão na música. E que, se a época quis que os meios de comunicação e o audiovisual se apoderassem deste mito_ e assim, tanto um pequeno produtor independente como eu, como uma grande firma comercial como Graumont se interessam por este personagem feminino_é talvez porque a coisa está no ar... mas talvez também seja a última luta das mulheres contra os homens, talvez a primeira....

Blog: O espaço deste blog requer que esta conversa seja realizada por partes, de modo que faremos uma última pergunta. Antes porém, para esta introdução, digamos assim, modesta e primeira, queremos encerrar perguntando se é verdade que as histórias de amor são ultrapassadas e se o cinema já morreu para você?
Godard: Acho que, no cinema, não pode haver senão histórias de amor. Nos filmes de guerra, trata-se do amor dos homens pelas armas; os filmes de bandidos tratam o amor dos homens pelo roubo... Em minha opinião, isto é cinema. E é o que a Nouvelle Vague trouxe de novo: Truffaut, Rivette, eu e dois ou três outros trouxemos algo que não existia mais, talvez, ou que jamais existiria na história do cinema; amamos o cinema antes de amar as mulheres, antes de amar o dinheiro, antes de amar a guerra. Antes de amarmos o que quer que seja, amamos o cinema. No que me concerne, disse muitas vezes que foi o cinema que me fez descobrir a vida. (...) Sem amor não há filmes. (...) Não há filmes sem amor, qualquer que seja. Insisto. Não existe. (...) Você me pergunta se o cinema já morreu... já assistiu meus filmes destas últimas décadas? Éloge de l’amour, 2001; Dez Minutos de Amor, 2002; Notre Music, 2004; e History of Cinema, 1988-1998? O cinema e a câmera para mim não passam de um fuzil, é algo que não se rejeita. Acredito que a comunicação é a única coisa que existe no mundo(4).


Notas:

(1) Adolfo Gomes é Cineclubista e Curador de Mostras Nacionais e Internacionais da Sala Walter da Silveira, DIMAS/Fundação Cultural do Estado da Bahia. Detém um conhecimento especial da sétima arte uma vez que trabalha na organização, divulgação e intercâmbios entre cinematecas e instituições ligadas a cinema, além de ser uma pessoa generosa no trato e amável na comunicação, qualidades hoje raras em tempos de individualização crescente.

(2) Godard, Jean Luc. Editora Livraria Taurus, Rio de Janeiro, 1985-1986. Organização e Introdução de Luiz Rosemberg Filho.

(3) Os levantamentos que realizamos em consulta à Biblioteca Central da Universidade Federal da Bahia e sites específicos de cinema revelam pistas ainda a serem exploradas, quer em relação a cine-biografia do autor quer quanto à sua filmografia, dita conhecida, porém pouco analisada e devidamente sistematizada e estudada. Entre outros, filmes como The old place, 1998 co-dirigido com Anne-Marie Miéville, For ever Mozart, 1996 e History of the Cinema, 1988-1998 e o recentíssimo Dez Minutos de Vida, 2002 merecem análises e apreciações mais detalhadas e cuidadosas.

(4) A título de provocação inserimos a seguir pequena e incompleta listagem apenas dos filmes de longa metragem dirigidos por Jean Luc Godard. Não foi uma nem duas pessoas que encontrei na Retrospectiva Godard que afirmaram conhecer toda esta filmografia, assim afirmando: “Ah, Godard, eu já assisti tudo”. Um comentário que dá lugar a se pensar.

1959. À Bout de souffle; 1960. Le Petit Soldat; 1961. Une femme est une femme; 1962.Vivre as vie; 1963. Les Carabiniers; 1963. Le Mépris; 1964. Bande à part; 1964. Une femme mariée; 1965. Alphaville; 1965. Pierrot le fou; 1966. Masculin féminin; 1966. Made in Usa; 1966. Deux out trois choses que je sais d’elle; 1967. La Chinese; 1967. Week-End; 1968. Le Gau Savoir; 1968. Um Film comme les autres; 1968. One Plus One; 1969. Pravda; 1969. Le vet d’est; 1969. Luttes em Italie; 1970. Jusqu’á la victoire; 1971. Vladimir et Rose; 1975. Numero deux; 1982. Changer d’image; 1982. Passion; 1982. Scénario Du film Passion; 1983. Prénom Carmen; 1985. Je vous salue Marie; 1985. Détective; 1986. Soft and Hard Conversation Between two friends on a hard subject; 1987. King Lear; 1987. Soign ta droite; 1988. Segment from Les Freançais vus par; 1988-1998. History of the cinema; 1990. Nouvelle Vague; 1991. Allemagne anée 90 neuf zero; 1993. Les enfants jouent á la russie; 1994. JLG/JLG: Autoportrait de décember; 1995. 2x50 Ans Du cinema français; 1996. For ever Mozart; 2004. Notre Music.

5 comentários:

André Setaro disse...

Uma conversa interessante e esclarecedora que revela particularidades do pensamento godardiano sobre algumas facetas de seu trabalho. Os filmes de Godard sempre estão a se renovar e, se poderia dizer, que é um realizador, ainda que os longos anos de atividade, 'in progress'.

Para ver a filmografia completa do autor de "Acossado", veja este link:

http://www.imdb.com/name/nm0000419/

Stela B. de Almeida disse...

Realmente um grande cineasta, ainda teremos chance de discutir um dos seus filmes no Curso de Cinema que você coordenará Setaro. Sei que você considera Acossado a ruptura e por isso, talvez, um dos melhores. Tenho buscado conhecer a etapa mais recente, a da maturidade, difícil fazer comparações e estabelecer graus de qualidade. Em cada filme, vários achados. Obrigada pelo link, gosto muito do sense também e lembro que você indicou-me.

Jonga Olivieri disse...

Godard, o maldito, Godard o polêmico, Godard o "falem mal, mas falem de mim". Godard o maior dos “Godards” do cinema. Godard de "Acossado" e "Alphaville", Godard de "A Chinesa".
Poucos, talvez Buñuel, tenham conseguido gerar tantas discussões e interpretações quanto o nosso Jean-Luc... Antes de cineasta um homem de seu tempo. Mas que tempo? Que espaço? O tempo que se move no espaço da cultura, pois Godard pode até ter se confundido em algum momento, mas nunca no tempo/espaço da trajetória da humanidade.
Ao se fazer uma análise de sua trajetória, ou de suas próprias contradições, vamos encontrar ali a linha do trem da história emparelhada à sua ação como realizador/autor/pioneiro de caminhos da arte neste meio século em que tão brilhantemente atuou. E digo isto porque, se fui contra Godard alguma vez não posso encontrar defeitos nele, sim algumas incongruências no seu pensamento, o que o isenta como artista e profissional da cinematografia.

Stela B. de Almeida disse...

Alain Bergala, um dos mais ligados ao cineasta, colaborador, membro do comitê de redação, redator chefe, editor na revista Cahiers du Cinéma, numa entrevista concedida a Mario Alves Coutinho diz o seguinte: "Quando Godard faz filmes, de uma maneira geral, ele gostaria que seus filmes fossem tão bons quanto a música ou a escrita. Quer dizer, ele tem uma outra idéia da escrita. Ele tem uma idéia muito alta, muito cultivada. Mas, com tudo isso, ele não é fetichista..." Como podemos perceber Jonga, há várias dimensões do Godard, a que nos trouxe a recente retrospectiva nos faz redescobrir "uma espécie de pesacador de pérolas".

Stela B. de Almeida disse...

errata: ler pescador