segunda-feira, 4 de maio de 2009

Mostra Claude Santos













Claude Santos, fazedor de imagens(1)

As várias dimensões do artista, fotógrafo, ensaísta, diretor de fotografia, estudioso e pesquisador da iconografia histórica, espelham-se no conjunto de trabalhos que encontramos com certa dificuldade de garimpagem. Claude ainda não se submeteu aos padrões consumistas da sociedade do espetáculo, encontrar seus trabalhos reunidos para perceber trajetórias e a amplidão do seu universo requer convívio e observação do seu ofício, cercado de mistérios e vivências originais e reservadas. Portanto, trata-se, de apenas e somente apenas, buscar comentar uma destas dimensões, a que se expõe na Mostra Audiovisual Claude Santos, uma das faces do seu produtivo trabalho de excelência (2).

Nos seus ensaios, ainda a serem devidamente divulgados, percebemos a influência de Alfredo Vila-Flor, seu pai. Aos dez anos de idade, em companhia do pai, visita pela primeira vez Canudos participando do início do mapeamento e registros das imagens que constituirão base de muitos projetos audiovisuais que fundamentam suas investigações e estudos sobre a Guerra de Canudos. Em 1991, participa do Guia visual do cenário da Guerra de Canudos (1986/1997). Em 1993, percorre o interior cearense, colhendo dados sobre a vida de Antonio Vicente Maciel, o Conselheiro. Desta iniciativa resulta o ensaio As andanças de Antonio, divulgado em circuitos restritos e distantes da parafernália midiática (3).


Recentemente, em janeiro de 2009, a Sala Walter da Silveira, divulga a Mostra Audiovisual Claude Santos. Nesta Mostra, para quem teve a sorte de assistir, percebeu-se uma filmografia densa que inclui realizações nas áreas da cultura, arte, literatura e história. Com um trabalho marcado pela observação da condição humana e valorização da memória, a Mostra ofereceu um rico painel do ponto de vista da perspectiva histórica de áreas expressivas da vida da cidade e de incursões sobre a solidão humana e a arte poética (4). Vinte poemas audiovisuais, se é que podemos denominar a trilha que percorre o artista, compuseram a mostra.

Difícil escolher os mais importantes. Todos os audiovisuais são marcados por um caminho de singeleza, síntese e leveza que dão conta de temas exigentes e que requer uma construção poética que denuncia a participação do autor no seu fazer. De Visões (1982), uma mostra da solidão humana no antigo Hospital Psiquiátrico Juliano Moreira, ao mais recente, A Gravura na Bahia (2008) um histórico editado em parceria com o artista Juarez Paraíso, os audiovisuais vão tecendo um conjunto de informações sobre as várias faces dos seres humanos, em seus mundos possíveis.

Em fins de oitenta, apresenta uma incursão sobre a epopéia sertaneja, Canudos(1986) um tema permanente e recorrente na sua trajetória, eivado de laços com os fragmentos da religiosidade sertaneja, expressos no audiovisual sobre a (1999). A documentação histórica se mostra, com mais intensidade, na investigação do processo de colonização do Recôncavo, explorando as ruínas da região, em Testemunhas Silenciosas, Ruínas do Recôncavo (1999), que se expande em seguida, em Ventos (2000) abrangendo a Baía de Todos os Santos através dos relatos de viajantes, no século XVI ao XIX. Percebe-se o itinerário de construção pela consulta sistemática a arquivos e documentos iconográficos, ferramentas básicas do ofício historiografico. A paixão de Leonídia Fraga pelo Poeta Castro Alves, também, não foi esquecida. Em A Noiva (2001), Claude nos traz sua imaginação afetiva deste encontro, no tempo. Em 2003, o documentário sobre o Teatro na Bahia, apresenta depoimentos de estudiosos e protagonistas que participaram da vida cultural e das artes nesta cidade.

A abordagem da vida de Nossa Senhora (2005) através das pinturas da Catedral Basílica de Salvador revela perspectivas histórico-religiosas que acompanha seus trabalhos, marcados pela consulta aos arquivos e fontes iconográficas. Mas, é em Cinco Retratos Esquecidos (2005), retratos sobre a solidão, que a temática da condição humana ganha figurações poéticas extremas.

A vida de personagens na ambiência histórica, literária e cultural em Salvador, será trazida, freqüentemente, para seus poemas audiovisuais. Carybé (2006) em sua obra de pintor; Calasans Neto, o Príncipe de Itapuã (2006) mostrando a Bahia na sua obra de pintor e gravador; O sertão de José Calasans (2006) uma homenagem ao grande estudioso da Guerra de Canudos, são poemas que Claude Santos oferece dos seus retratados. Nesta linha, podemos incluir Moinhos de Vento (2006) um audiovisual sobre a construção poética de Mário Quintana.

Mais recentemente, Diário de um bêbado (2007) traz uma noite no bar Colon. Mais conhecido, porém, e exibido em salas alternativas do circuito de arte, Agnaldo Siri, Fazedor de Cinema (2007) representa uma síntese audiovisual da obra do documentarista. Este documentário foi exibido em outros circuitos e eventos relacionados à jornada de cinema, em Salvador.

Em 2008, os audiovisuais produzidos colocam temáticas distintas a partir de uma perspectiva histórica, expressando cada vez mais o domínio da linguagem poética na construção de diferentes realidades. Encontra-se nesta linha, Lençóis (2008) um breve histórico sobre a saga do diamante na Chapada Diamantina; Mosteiro de São Bento (2008) Introdução histórica à Ordem Beneditina na Bahia e a Gravura na Bahia (2008) histórico editado em parceria com o artista Juarez Paraíso.

Finalizo essas breves linhas sobre um intenso trabalho em construção. Cada vez que encontro Claude me surpreendo com a sua disposição em falar-me do Curso de Fotografia que realiza semestralmente em seu estúdio, das imagens que produz nas suas inúmeras viagens, dos seus inúmeros projetos de audiovisuais. Nestas imagens, a peculiaridade de um pião que se movimenta num eixo infinito (5).


Notas:
(1)A imagem e o texto ao lado que ilustra este post encontra-se no audiovisual O Sertão de José Calasans(2006) de Claude Santos. Em nota de roda pé, trecho da palestra de José Calasans durante o recebimento do Título de Cidadão da Cidade de Euclides da Cunha, em 12 de junho de 1998.
Não sei se as pessoas refletem bem sobre o primeiro contacto com certas palavras. Ainda menino, na minha Cidade de Aracajú, ouvi de uma senhora de Itabaiana, versos de Tobias Barreto. Eram estes:
Não sabes como são tristes
Os olhos de quem não chora
E como teu rosto descora
Ao calor deste sertão.
Foi, sem dúvida alguma, a primeira vez que ouvi a palavra Sertão
.

(2) Em primeiro levantamento inicial e provisório, elencamos os seguintes audiovisuais, a serem complementados, posteriormente: Visões (BRA, 1982); Canudos (BRA, 1987); Luzes, (BRA, 1990); Quintanares (BRA, 1993); Testemunhas Silenciosas, Ruínas do Recôncavo (BRA, 1999); (Bra, 1999); Ventos, a Bahia dos Viajantes (BRA, 2000); A noiva, 2001; Teatro na Bahia (BRA, 2003); Cinco Retratos Esquecidos (BRA, 2005); Nossa Senhora (BRA, 2005); O Sertão de José Calasans (BRA, 2006); Calasans Neto, Príncipe de Itapuã (BRA, 2006); Carybé (BRA, 2006); Moinhos de vento, 2006; Diário de um bêbado (BRA, 2007); Agnaldo Siri, Fazedor de Cinema, 2007; Lençóis (BRA, 2008); Mosteiro de São Bento (BRA, 2008); Desaparecidos (BRA, 2008); A Gravura na Bahia (BRA, 2008); Rascunhos de Joanna Imaginária, s/d.

(3) Para maiores informações, acessar http://editora.globo.com/epoca/edic/237/ContatoClaudeSantos.pdf

(4) A Mostra Audiovisual Claude Santos realizou-se no período de 9 a 16 de janeiro de 2009. O folder do evento, distribuído quando da sua realização, traz uma síntese de cada audiovisual e imagem da obra.

(5) Sobre o Curso de Fotografia e Linguagem Audiovisual, conferir claudesantos@hotmail.com

8 comentários:

Stela B. de Almeida disse...

Caro André Setaro
Lí todos seus posts e colunas durante o período que estive ausente, por motivos justificados.

Espero que vc. aprecie as breves notas que postei hoje sobre a valiosa Mostra Claude Santos.

Tentei lhe imitar, mas vc. tem mais fôlego, que o diga as partes um,dois e tres da sua coluna no Terra Magazine!

Um abraço,
Stela

André Setaro disse...

Está excelente esta 'panorâmica' sobre a mostra de Claude Santos. Infelizmente a perdi, mas lendo seu texto fiquei curioso para ver os seus trabalhos audiovisuais, principalmente sobre o bar Colon, um dos últimos redutos da boemia baiana, e o de Agnaldo (Siri) Azevedo, que conheci muito quando ainda estava neste mundo. Siri, ainda que um documentarista artesanal, sem muito poder expressivo do ponto de vista cinematográfico, registrou em seus filmes vários aspectos da cultura baiana. Seus documentários têm grande importância do ponto de vista sociológico ou antropológico.

Stela B. de Almeida disse...

Uma amiga que leu o texto e não viu a mostra, achou que piorizei demais os elogios. Pode até ser, prefiro sempre carregar nas tintas vibrantes, mas que o conjunto do trabalho tem mais pontos positivos, isso tem. Os pecados ficarão para o próximo panorama.

Jonga Olivieri disse...

Pena que não conheça o trabalho de Claude. Mas sua postagem esclareceu bastante...

Stela B. de Almeida disse...

Jonga, sabemos do complicado "transfer" dos signos gráficos e dos signos icônicos. Portanto, no próximo post incluirei imagens da mostra, no momento não dispunha, por isso o texto não diz, nem esclarece, mas provoca o interesse em conhecer o trabalho. Ou não?
Passei ontem no Novas Pensatas, gostei.

Jonga Olivieri disse...

Sem dúvida seria bom ter as imagens, mas de qualquer maneira a postagem esclarece muito sobre o trabalho de Claude Santos.

Carcará do Sertão disse...

Stela
Gosto muito do seu blog, pena não ter tempo para me dedicar a uma leitura minuciosa. Sempre que posso visito , espero que voc~e continue escrevendo e nos dando prazser em boa cultura.
Gostaria também que pudessemos ouvir, literalmente, suas critigas e opiniões. Poderiamos nos mobilizar para encontros culturais discurssivos, como numa especie de café, chá, sucos.....
Reuniriamos os inetectuias de diversas áreas para trocar experiencias, motivações, criticas ou simplismente se ver.

Beijos saudosos

Antonio

Anônimo disse...

Lembro de Claude com carinho.
Não pude ir lá na época.
Fico sabendo por seus comentários.
Flavia