sábado, 6 de outubro de 2007

Clássicos do Cinema


A obra de Carl Theodor Dreyer: breves anotações.

Sem dúvida, a oportunidade de conhecer os filmes do diretor de cinema dinamarquês Carl Theodor Dreyer associado aos comentários críticos do André Setaro, permitem uma investigação mais aguçada e instigante sobre este diretor e sua obra cinematográfica. Com as chaves destas indicações, consultamos os dados disponíveis no curto tempo que dispomos na Oficina de Introdução ao Cinema. O que segue são breves notas desta caminhada ainda em construção (1).

Carl Theodor Dreyer (1889-1968) tem sido apresentado nos textos consultados, como um diretor voltado para a temática da religiosidade, da espiritualidade e da redenção. A densidade de sua obra localiza-se, principalmente, nos anos 20, embora exista certa continuidade na sua produção que se finda em 1964, com a realização de Gertrud. Os dados disponíveis da sua biografia assinalam seu processo de adoção por uma família dinamarquesa luterana, tendo recebido o nome do seu pai adotivo e sido fortemente marcado pelas heranças familiares. Ocupou funções em antigos e importantes jornais da Dinamarca (Berlingske Tindende e Politiken) realizando seu primeiro filme aos vinte e nove anos (The president, 1919).

Tomemos o filme A paixão de Joana D’Arc (La Passion de Jeanne D’Arc, 1928) nas palavras do seu próprio autor. Seu interesse pelo tema da virgem de Orleans relacionava-se ao processo de canonização de Joana D’Arc, em 1920, na França, e a possibilidade de acesso ao material histórico, embora, diz ele, Anatole France e Bernard Shaw tiveram também o mesmo interesse pela virgem. Sabia da demanda que comportava um projeto desta natureza, das incursões que teria que realizar para mover-se pelo período renascentista. Foi preciso reconstruir processos, estudar os documentos, mas pareceu-lhe que a dimensão temporal não era o grande dificultador. Diz ele: Eu quis interpretar o sagrado para o triunfo da alma sobre a vida (2).

Com este propósito, a escolha da técnica em close-ups pareceu-lhe o caminho mais fértil. O close-up como instrumento para facultar ao espectador adentrar-se nas expressões reveladoras dos personagens e, assim, poder captar seus espíritos. Alcançar a verdade a ser dita, ou seja, evidenciar o processo de beatificação. A técnica dispensava as maquiagens habituais e glamorizações. My actors were not allowed to touch makeup and power puffs (3).

Renée Marie Falconetti (1892-1946) foi a escolhida para o papel de Joana D’Arc. Há que se reconstruir ainda a biografia desta artista. Sabe-se que trabalhou como comediante em palcos de teatro antes de ter sido convidada para o que viria a ser seu único filme. Encontra-se disponível em DVD, em locadora na cidade, entrevista sobre passagens de sua trajetória em que menciona a radicalidade do método de obter tamanha expressividade. Para Dreyer, porém, Falconetti com a sua corajosa Joana D’Arc, conseguiu exprimir o que chamou de “the martyr’s reincarnation”.

A obra de Dreyer merece ser mais investigada. Para André Setaro sua temática centrada no ser humano, observa valores voltados para a tolerância, a bondade, o sofrimento, o amor e a pureza espiritual, enfatizando os aspectos da fé e da relação do homem com Deus. Sua técnica narrativa construída pela herança do expressionismo alemão e principais criadores do cinema soviético, traz uma marca própria e inigualável evidenciada, principalmente, após o filme A paixão de Joana D’Arc.

Finalizando, devo dizer que já escrevi neste blog brevíssimo texto sobre o impacto do filme quando da sua primeira exibição nesta tela do meu computador. Como bem próprio de iniciantes querendo expressar seus comentários sobre o observado, somente agora pude perceber o quanto me escapou da técnica narrativa, observação que se constrói a medida do paciente e cuidadoso envolvimento com a linguagem cinematográfica.


Notas:
(1) Dor e Beleza em Carl Theodor Dreyer por André Setaro. Texto divulgado na Oficina de Introdução ao Cinema. Outubro de 2007.
(2) The passion of Joan of Arc. Essay by Carl Theodor Dreyer. Reprinted by permission of the Danish Film Institute, Copenhagen, Denmark, 2000.
(3) Idem.
Acima, cena de La passion de Jeanne D'Arc, 1928.

4 comentários:

Jonga Olivieri disse...

Este filme é de uma importância colossal para se compreender o cinema como expressão da dramaticidade.
E, quando uso a expressão "colossal", é porque ela pode ajudar a refletir um pouco da grandiosidade do significado deste filme.
Setaro deve ter falado, talvez, de um detalhe que é de uma revelação surpreendente (e, para mim, até às vezes inexplicável), que é a da 'tortura real de Falchonetti' com o objetivo de se alcançar mais realismo.
Uma visão "stalislvisquiana" radicalizada da interpretação.
Algo que eu não consigo compreender, embora até entenda.
O fato é que, com ou sem tortura, as cenas dramáticas de closes e expressões são das obras-primas da cinematografia através dos tempos.
Hoje, passados 80 anos em que a tecnologia evoluiu à cibernética, uma idéia simples em preto e branco, está ali ainda expressiva e vigorosa.
Simplesmente porque toda grande idéia é simples.

Anônimo disse...

Stela,

Como de hábito, excelente o seu texto, as suas observações sempre lúcidas e coerentes. O básico em 'La passion de Jeanne D'Arc', filme realizado no ocaso da estética do cinema mudo, mas expressão perfeita desta, ainda que 'peça' a palavra, está na utilização do 'close up' como elemento principal e mola propulsora da dinâmica rítmica da estrutura narrativa da obra.

O 'close up' possui uma dimensão espacial que o isola do tempo e dos demais planos da obra fílmica, segundo observações do teórico húngaro Bela Balazs. Se você reparar bem, a disposição dos objetos no espaço dramático de 'La passion de Jeanne D'Arc', excetuando-se, claro, os 'close ups' não apenas os de Falconetti mas os de seus algozes, esta disposição não permite uma identificação precisa e a angulação que se estabelece é sempre no sentido de 'deslocamento' e não de 'esclarecer a geografia da ação', por assim dizer. O 'close up', ainda segundo Balazs, é uma radiografia da alma, permite que o realizador cinematográfico faça nela um mergulho. Permite, como em nenhuma outra arte, 'a auscultação da alma' (sic).

Apesar de tudo, Jeanne D'Arc é sobretudo um ser. Filme de grande impacto e que é exemplar como o cinema, embora sem o som, já tinha se cristalizado como linguagem e expressão.

Um abraço do

André Setaro

Stela Almeida disse...

Acima, dois comentários sobre a obra de Carl Dreyer de especial valor. Jonga Olivieri foi-me apresentado através de Andre Setaro. Para quem quer aprender sobre cinema, vale muito aproximar-se dos dois e ouvir o que tem a dizer sobre o assunto.

Anônimo disse...

Mamis
Continuo lendo seu blog entendendo que vc.é a pessoa mais séria do mundo;-) quer fazer um circuito pela história da arte desde os expressionistas alemãs até a cinematografia hollywoodiana...espero que inclua The house of flying daggers e The whale rider...para que eu possa comentar;-) Flavia