sexta-feira, 21 de setembro de 2007

Oficina de Introdução ao Cinema


Plagiando cadáver com batatas degustado ao molho inglês (1)



A Oficina de Introdução ao Cinema coordenada por André Setaro, ainda em seus encontros iniciais, anuncia um marco para descobertas na sétima arte. Uma caminhada pela filmografia dos clássicos, fundamentada pelos comentários de quem dedica- se a buscar os sentidos desta linguagem, indicando-nos que a chave está em desvendar os elos da sintaxe e os elos semânticos, ou seja, perceber que o cinema contém uma nobreza que está subsumida em sua estrutura audiovisual, em seus elos de linguagem.

Nesta direção, nada como seguir as pistas de um filme base para análise, em que os aprendizes possam educar seu olhar tão bombardeado pelo exagero das histórias_ a podridão em que estamos submersos_ para que possam perceber as sutilezas da nobreza estilística e similar ao arqueólogo na busca dos índices, possam descobrir as Fugas. Nada mal para começo de percurso, ou seja, sair dos limites dos cânones da fábula para adentrar-se no âmbito das narrativas, sem esquecer de que estão imbricadas e compõem-se por elos.

O ensaio que tenho a honra de plagiar o título modificando-o, nos apresenta o mago do suspense num dos seus melhores filmes da sua fase final, Alfred Hitchcock (1899-1980) e Frenesi (Frenzy, 1972). (2) Com as ferramentas da crítica literária e da literatura comparada, Davi Arrigucci Jr. nos apresenta uma das melhores análises fílmicas que já li recentemente e possibilidades de articular os elos de linguagem que André Setaro mencionava na abertura da Oficina.
Hitchcock, como nos foi apresentado, deve ser levado a sério e considerado sob a perspectiva da arte, ainda que os procedimentos e artimanhas eivadas de meios cômicos, tal como a ducha de água fria que desprende vapor quente, do assassinato a sangue frio, dentre outros, nos dão conta de um artista moderno de infalível ironia e espírito paródico, que tem por princípio técnico o desmanche de toda seriedade elevada. (3)

Seu cinema expressa a arte de saber construir a destruição_ a arte de destruir_, ou seja, a arte de contar bem uma história e construir um enredo convincente com elementos multifacetados, dispersos e heterogêneos, que dêem conta de possíveis elucidações de um crime, ou talvez, implicados na violência de um assassinato, por exemplo.

Frénésie, palavra francesa para designar um estado mental violento à beira do delírio ou loucura, o filme Frenesi apresenta uma narrativa que irá brincar o tempo todo com várias expressões francesas referentes à paixão amorosa e gastronômica, uma soupe de pouisson inventada pela mulher do detetive da Scotland Yard, um crime de passion atribuído ao ex-marido da proprietária de uma agência de matrimônios separados após dez anos de casamento, repugnantes caille aux raisins e pieds de porc à La mode de Caen servidos ao marido, misturados ao tema central do filme, a seguir, uma série de crimes cometidos por um estrangulador de mulheres, numa caçada que se efetiva pelo uso de uma gravata. O terror apavora Londres, em meio a hortaliças, flores, frutas, legumes, cereais e sobretudo batatas, do grande mercado de Covent Garden à tradicional e elegante praça da Royal Opera House e antigo jardim da Abadia de Westminster.

Passeando com desenvoltura pela biografia e obra de Hitch, Davi Arriguci Jr recorta algumas sequências emblemáticas do filme nos permitindo perceber o método de trabalho do autor e sua sabedoria destrutiva: o corpo estranho que surge às margens do Tâmisa com um nó de gravata literalmente em volta do pescoço acompanhado por um travelling de abertura majestoso, a câmera navega em sobrevôo ao longo do rio, sempre do alto, até que então começa a descer, enquadra e passa debaixo da ponte de Londres de alças erguidas, arrastando-nos com ela nessa visão de cima, por sobre as águas (...).

O nó da gravata que Richard Blaney rearruma em frente ao espelho preparando-se para o trabalho e o laço que o prenderá contra a sua vontade no emaranhado crime e que serve também de instrumento para os assassinatos, fazem parte da ironia dramática tecida por Hitchcock, que certamente não estava despercebido desta fonte, acrescida também da criação de atmosfera propiciada pela música, assinala Arriguci. O nó da gravata, assim concebido, representa um elemento decisivo de armarração interna do enredo enquanto forma artística.

Além do nó da gravata, mais significativo ainda, o alfinete preso à gravata, exerce a função de criar uma caracterização marcante do estrangulador, Bob Rusk, que usa um R com um duvidoso brilhante preso à gravata. Personagem benevolente e paternal mostra-se atento às solicitações e tem a pretensão de elegância e distinção escondendo a vulgaridade e grosseria que o demarca. Analisando os elementos da sintaxe do filme, como um arqueólogo em perseguição aos índices encontrados, Arriguci lembra que o detalhe do alfinete da gravata_magnetiza diversos campos semânticos contíguos_do modo de ser, do ambiente do mercado, dos produtos da alimentação e da comida, da sexualidade, do casamento, do crime, da violência_ articulando-os numa síntese única.

O suspense, o terror e o medo, ingredientes marcantes em Hitchcock, distintos nas diferentes cenas que evidenciarão o estupro e o assassinato de Brenda Blaney, é mais uma afronta à regra, pois anunciado e preparado em conta-gotas, vai-se apresentando aos poucos em gestos repetidos, à vista do espectador. O assassino anuncia seu desejo de condenação de morte à vítima: você é meu tipo de mulher. O violador repete a palavra lovely, diante de uma vítima que busca refúgio numa oração inútil. A ousadia transgressora dessas imagens, diz Arriguci, introduz na cena a difícil poesia do macabro e lembra Edgard A. Poe dos começos da aprendizagem de Hitchcock.

A fusão do macabro e cômico virá a seguir, a próxima vítima Barbara “Babs” Milligan, ao ser assassinada será oculta num saco de batatas. E a célebre frase repete-se: “Não sei se você sabe, Babs, mas você faz meu tipo de mulher.” As inúmeras interpretações das cenas seguintes não serão desenvolvidas neste espaço, mesmo porque repletas de decifrações e jogos de linguagem, um convite à leitura e diálogo para iniciantes na arte de analisar e perceber os elos da sintaxe e da semântica cinematográfica.


NOTAS:
(1) Estas breves notas foram formuladas a partir da Oficina de Introdução ao Cinema, após leitura do ensaio “Cadáver com batatas e molho inglês” de Davi Arriguci Jr. divulgado pelo coordenador da oficina.
(2) Alfred Hitchcock nasceu em Leytonstone, em Essex (atual Londres). Filho de Emma e William Hitchcock, seu pai vendia frutas e verduras, e ele tinha mais dois irmãos. Recebeu uma rígida educação católica na escola londrina St. Ignatius College, cujo ensino era baseado nos ensinamentos do jesuíta Inácio de Loyola. Cf. http://pt.wikipedia.org/wiki/Alfred_Hitchcock.
(3) Os extratos de trechos extraídos do ensaio e citado nestas breves notas estão destacados em itálico no corpo do texto.

Setembro de 2007. Stela Borges de Almeida.

8 comentários:

Anônimo disse...

Stela,
acabo de, ligeiramente (ainda estou enlatada na tese), ler sua análise do filme Frenesi, está muito boa, parabéns! Parabéns principalmente "prá nóis"que poderemos ter acesso a discussões livres e poéticas dos grandes do cinema.
Mande sempre que escrever e depois quero encontrá-la. um grande abraço e bom fim de semana para você também. Mcarmo.

Anônimo disse...

Cara Stela,

Soube você apreender a essência do excelente ensaio de Davi Arriguci Jr que, sobre ser uma das melhores análises fílmicas que já tive a oportunidade de ler, oferece a chave para a compreensão do universo hitchcockiano. Vale mais do que a pena que você coloque suas lúcidas e coerentes observações no blog. Hitchcock é visto, infelizmente, como o mestre do suspense, mas se trata de um autêntico e verdadeiro autor de filmes, "artista moderno de infalível ironia e espírito paródico, que tem por princípio técnico o desmanche de toda seriedade elevada", como foi tão bem observado.
E você soube apreciar o ensaio de Arriguci conforme revelam as notas, que, mais uma vez, repito, devem estar salvas no blog para que outros também possam ler e saber, como você.

Um abraço do
André Setaro

Anônimo disse...

OS SEIS MINUTOS MAIS BELOS DA HISTORIA DO CINEMA IN AGABEN, GIORGIO, 'PROFANACOES'


"Sancho Pancha entra num cinema de uma cidade do interior. Está procurando Dom Quixote e o encontra setnado isolado, fixando o telao. A sala está quase cheia: a galeria -uma especie de 'galinheiro'-está totalmente ocupada por crianças barulhentas. Apos algumas horas tentando chegar a Dom Quixote, Sancho senta-se de ma vontade na plateia ao lado de uma menina (Dulcineia?) que lhe oferece um lambe-lambe. A projeçao começou é um filme de epoca: sobre o telao correm cavaleiros armados e nun certo momento aparece uma mulher em perigo. De repente, Don Quixote se erque em pé, desembainha sua espada, se precipita contra o telao e os seus golpes começam a cortar o tecido. No teao aparecem ainda a mulher e os cavaleiros, mas o corte preto aberto pela espada de Dom Quixote se alarga cada vez mais, devorando implacavelmemente as imagens. No final quase nada sobra do telao, vendo-se apenas a estrutura de madeira que o sustentava. O publico indignado abandona a sala, mas no 'galinheiro' as crianças nao para de encorajar freneticamente Dom Quixote. Só a menina na plateia o fixa com reprovaçao.

O que devemos fazer com a nossa imaginaçao? Ama-las, acrfeditar nelas a ponto de as destruirmos, falsifidcar (ese é talvez o sentido do cinema de Orson Welles). Maa quando no final se revelam vazias, insatisfeistas quando mostram o nada de que sao feitas, só entao (importa) descontar o preço de sua verdade, compreeendendo que Dulcineia-que salvamos-nao pode nos amar." Stela, um presente para vc. Mary.

Jonga Olivieri disse...

Stela. Movido por uma curiosidade motivada pelos seus comentários no Setaro’s Blog, fui ao seu próprio blog, e posso lhe dizer que gostei muito.
Destaco, para além de seus comentários sobre a Oficina de Cinema e a abordagem detalhada da obra do mestre Hitchcock, suas postagens sobre o Cinema alemão contemporâneo e o Cinema Mudo. Dinamarca, 1927, e também, particularmente sobre o cinema africano, tão desconhecido para nós brasileiros, tão próximos de sua cultura, que faz parte da nossa.
Por isso mesmo estou acrescentando um link nos meus Pensatas e “Casos” da propaganda, porque acho que você merece ser mais conhecida pela meia dúzia de leitores dos meus...
Mais que isso, só meus votos de parabéns!

Stela Almeida disse...

Bem-vindo Jonga Olivieri.
Agradeçida e surpresa. Respondo tímida pelo link criado em PENSATAS. Temos um ponto de forte concordância, a admiração e reconhecimento do trabalho de André Setaro pelo cinema. Agradeço, mais uma vez, sua gentileza em criar um link em seu blog PENSATAS, confesso que a "miscelânia" que vc. trata com bastante ironia e bom-humor tem-me divertido. Mas, muito mais, seus comentários de quem mostra ser um apaixonado pelo cinema. Enviarei seu blog aos meus amigos também. Um grande abraço. Stela.

Jonga Olivieri disse...

Obrigado pelos seus elogios ao "Pensatas".
Fico feliz de que goste dele, pois é um blog que me agrada muito estar realizando.

JÔ disse...

Querida Stela, Vc sempre nos brinda com algo muito especial. Passei o seu blog para um aluno apaixonado por cinema, qq dia ele te escreve tb. Bei-JO's

guru disse...

Stela,

Tenho acompanhado o desenvolvimento do seu blog e ele tem sido sempre crescente!
parbéns e continue assim, pisando firme nas linhas que estão nas palmas de sua mão. Luis