sábado, 20 de outubro de 2007

Cinema Clássico II


Que Viva México de Sergei Eisenstein!

Nos anos 80 e 90 o cinema revolucionário soviético visitou algumas salas de aula da academia universitária. De uma delas falo com mais intimidade, uma vez que por longo tempo acompanhei como docente os Cursos de Graduação na Área das Ciências Humanas. Nestas salas de aulas aprendemos a valorizar e entender que a linguagem cinematográfica oferecia um suporte importante para fundamentar a teoria sociológica, de melhor operar a complexidade de seus conceitos e abordagens aplicados às diferentes formações sociais.


Sergei Eisenstein (1898-1948) e sua obra nos brindaram com algumas sessões, provavelmente nem tão bem traduzidas e contextualizadas, porém com imagens tão verdadeiras e poéticas que valeria trazer mais uma vez, menos como saudosismo de um tempo perdido, mais como base para somar-se a um conhecimento atual e moderno do cinema contemporâneo.


Um apaixonado pelo cinema, assim ele se apresenta em Anotaciones de um Director de Cine. Porém, ligado à visão de cinema combativo, testemunho de compromissos com uma ordem social, guiado pelo princípio da utilidade revolucionária da arte.


La Idea de La paz general no pode ser sufocada por La egolatria y El egoísmo de certos países y Estados que se hallan dispuestos a pisotear el bienestar general em aras de la própria avidez. El cine­­­_la más avanzada de las artes­­­_deberá ser también el más avanzado em esa lucha. Que muestre pues a los pueblos la via de la solidariedade y la unanimidad por la que hay que moverse y marchar( 1).


Não esqueçamos que Eisenstein pertenceu a uma geração de artistas que recebeu influências das vanguardas européias do início do século e participou do desabrochar de um movimento cinematográfico inovador que contribuiu para revolucionar as técnicas de cinema da União Soviética e do mundo, aperfeiçoando e desenvolvendo a técnica da montagem.


La hermosa palabra “montaje” significa la acción de armar algo. La palabra, si bien todavia, no se puso de moda, tiena todas las condiciones em potencia para transformar-se em corriente( ...) Así aparece el término “montaje de atracciones”( 2).


Seu cinema sofreu reflexos das transformações no cenário político da União Soviética e da atmosfera de controle e submissão ao Estado, em que os cineastas não podiam escolher os temas de seus filmes e seus projetos de trabalho eram submetidos à apreciação do Partido, cada roteiro tinha que ser analisado por repartições de censura antes de ser liberado e a equipe de produção muitas vezes indicadas por burocratas segundo critérios “políticos rasteiros” (3).


Sua filmografia é por demais conhecida, dentre os principais, destaca-se A greve (1924), O Encouraçado Potekin ( 1925), Outubro ( 1927), A Linha Geral ( 1929), Que Viva México ( 1931) inacabado; O Prado de Bezhin( 1935) inacabado; Alexandre Nevski ( 1938); Ivã, O terrível ( 1944-1945) em duas partes.


E Que Viva o México!


Em Maio de 1930, Eisenstein realiza uma viagem à Europa e à América do Norte com intenção de estudar o cinema sonoro e, certamente, livrar-se das pressões políticas que estava submetido. Dentre os trabalhos deste período, consta o projeto recusado de realizar um filme para a Paramount intitulado “Uma tragédia americana”, que segundo determinados estudiosos, mostrava-se não adequado à realidade do cinema americano.


Diz-se, também, que encorajado por Robert Flaherty e Diego Rivera começou a trabalhar em "Que viva México", sendo convidado por um político americano, candidato ao governo da Califórnia, para realizar o filme em dezembro de 1930, com fundos de Upton Sinclair. O filme pretendia resgatar a história daquele país das suas origens até a atualidade.


Consta que este projecto, que prometia tornar-se o mais importante e ousado do cineasta, salvo não tivesse um desfecho trágico por razões financeiras, chegou a ser parcialmente cancelado. Embora lhe tenha sido dito que o material filmado seria enviado para Moscou para ser montado, nunca chegou a ser visto de novo.


Eisenstein além de não ter acesso ao material filmado teve muitos problemas com a indústria cinematográfica, controlada por Boris Choumiatsky. Mediante os diversos cerceamentos ao seu trabalho, sofre de problemas de depressão nervosa (4).


Apesar de tantos impasses na história da montagem do filme, Que Viva o México revisto hoje, nos oferece imagens de tanta beleza e emoção que permanece como um clássico de um cinema construído sob o jugo do autoritarismo que vai além da dominação ideológica pela sua força de sentimentos e criação.


Alcino Leite Neto expressa uma idéia com a qual sintonizamos quando diz: A visão dos filmes de Eisenstein depois do fim da URSS (União das Repúblicas Soviéticas) e do colapso do comunismo coloca ao espectador, sem dúvida, um problema de ordem ideológica. Ele foi um dos grandes realizadores da propaganda comunista soviética. As imagens, no entanto, são tão belas e comoventes, a elaboração tão grandiosa, a invenção plástica tão rica que espectador nenhum fica insensível a elas.


Notas:
1. Serguei Eisenstein. Anotaciones de um Director de Cine. Editorial Progresso Moscu. Traducido del russo por Vicente E. Pertegaz. 1944.
2. Sergei Eisenstein, p.39.
3. Cf. Revolução e Contra-Revolução na trajetória de Eisenstein de Cristiane Nova. Texto extraído de site em internet.
4. Cf. idem.

5 comentários:

Anônimo disse...

Stela, depois de uma semana barra pesada de trabalho e tensao, em particular pela banca de ontem o que mais quero é dois dias sem internet. Mas como era voce e Eisenstein abri e li o seu texto, está otimo, belo, fluido e informativo. Impressiona como voce tem se decicado a pesquisa sobre cinema e alia a um estilo da emoçao um trabalho serio, obrigada, lindo, continue assim minha amiga, e continue enviando, as vezes leio, as vezes nao, e quem perde sou eu, beijos, Mary.

Anônimo disse...

Stela,

O escrito sobre Eisenstein, no seu blog, revela a compreensão da idéia do realizador e sua concepção estética do cinema, demonstrando, com isso, que você soube apreender os textos e ofertá-los aos leitores de seu já exitoso blog.

Um abraço do

André Setaro

Jonga Olivieri disse...

O cinema soviético pós-revolução, sem a menor intenção de um jogo de palavras, foi de fato revolucionário. Aliás, toda a arte soviética no período pré-stalinista a foi. Na poesia, Maiakóviski, na pintura Malevitch e Kandisnsky. No cinema, Vertov e Eisentein apresentam a face de renovação em busca de uma nova arte. Uma arte revolucionária.
Poucos anos depois, infelizmente, este processo é bruscamente interrompido pelo “terror”. Ao mesmo tempo que liquida toda a velha guarda bolchevista, perseguindo-os, o ditador, a pouco e pouco cerceia a liberdade de expressão artística. Os que não saem, perecem. Alguns suicidam-se outros são “suicidados”.
Felizmente Eisenstein consegue prosseguir seu caminho citado por você neste excelente texto sobre ele, que foi uma das maiores expressões da cultura no século XX. E, junto com Grifith ou Buñuel, marco da história do cinema.

Stela Almeida disse...

Prezada Stela,

Parabéns! Seu blog está muito legal. Mesmo no corre-corre para tentar finalizar minha tese, sempre que posso dou uma espiadinha nos seus escritos. Assim que puder, vou sair do simples "voyeurimo".

Um grande abraço,
Menandro

Stela Almeida disse...

Menandro

Perfeccionista do jeito que vc. é, imagino que está fazendo um trabalho primorosíssimo para a defesa da qual estarei presente. Coloquei seu e-mail por aqui, sei que vc. vez em quando passa pela janela. Lembrei da sua Fridha Kalho e Ofélia Medina quando postei Einseinstein, êles nos mostraram sua admiração pelo México.