terça-feira, 28 de agosto de 2007

O cinema alemão contemporâneo.




Seminário On Line 04

Procurarei manter o estilo descritivo da narrativa dos seminários anteriores. Por vários motivos. Um dos mais fortes é que me sinto iniciante e não iniciada na temática. De modo que procurarei reproduzir o evento, claro que sob a minha ótica, nesta última etapa, em pequenas doses, para atender a natureza do blog.

Como iniciante, ouvi os conferencistas, consultei as referências indicadas e assisti quase que toda a programação fílmica. Nesta modalidade presencial o seminário contou com convidados palestrantes e com uma platéia, aproximadamente, de cinqüenta ou mais atentos inscritos. De hábito, a partir das minhas anotações pessoais, tentarei destacar o que na minha maneira de perceber, foram pontos de destaque nas falas dos expositores e que estimularam, posteriormente, pontos para o debate. Estas notas dão conta de uma interpretação estritamente pessoal, a serem retomadas para possíveis aproximações, desde que haja interessados no assunto.


Novíssimo cinema alemão: Removendo os escombros do muro.
Palestrante: J.C.Sampaio.
Sinopse: Mais do que uma representação simbólica da derrota na Segunda Guerra Mundial, o muro que dividiu Berlim ao meio por 28 anos, alimentou o fantasma do nazismo, na forma de um trauma nacional, com repercussão na sociedade e nas expressões culturais. A geração de cineastas do movimento batizado de Novo Cinema Alemão, surgida nos anos 60, cresceu órfã de influências artísticas diretas, tendo como espelho a antiga cinematografia da Era Silenciosa. O mesmo não acontece com os jovens realizadores de hoje, que já têm nomes respeitáveis como Win Wenders, Werner Herzog e Rainer Fassbinder como referência. No entanto, ainda estão em busca de uma identidade coletiva e de representação da Alemanha contemporânea, reunificada desde 1989.

Anotações da palestra:

Ouvi uma palestra panorâmica sobre o novíssimo cinema alemão.

Dentre outros recursos, o palestrante selecionou trechos de filmes para ilustrar.
Em Asas do Desejo (Win Wenders, 1987) destacou a interpretação do que chamou o Céu de Berlim, antes da Queda do Muro. Mostrou que a geração 60 (Win Wenders, Herzog, entre outros) representou uma geração órfã de imagem, padecendo da ausência dos avós. Win Wenders refugia-se nos EUA, dá-se a ascensão do nazismo e a imposição de formas de ver o mundo pela propaganda, destaca-se a forte censura do período. Enfatiza o florescimento do cinema expressionista alemão, fenômeno hegemônico no cinema.

Refere-se à Nosferatu( 1922); Metrópolis (Fritz Lang,1926), O vampiro de Düsseldorf( 1931) ; uma alegoria ao nazismo ao apresentar um assassino serial que mata crianças. Espelha-se o medo que tomava conta do país. Período da II Guerra Mundial, forte censura na era nazista.

Destaca a utilização do áudio-visual como propaganda e a saída dos cineastas, atores e técnicos que migram para os EUA. No período 30-50 há um hiato na produção, diz. Evidencia-se uma geração órfã, dá-se uma revolução na linguagem com as novas vanguardas mundiais. As revoluções culturais dos anos 60, Fassbinder, Herzog, Win Wenders e outros e a influência dos avós. Destaca Meu melhor inimigo (Werner Herzog, 1999).

Menciona os diretores dos anos 60, o fantasma da guerra e a derrota na guerra. Traz as imagens dos filmes: O casamento de Maria Braun (1979) chama atenção de que este é o dedo na ferida; Asas do Desejo (1987); Adeus Lênin (2003) ou o que chama, ironicamente, de meu mundo caiu.

Assinala o que ficou de fora: Edukators (Heinz Weingartner, 2004); A queda do muro (2005) que, parece mostrar um Hitler dissecado. As temáticas centram-se na guerra e no terror. Na queda das torres gêmeas predomina o sentimento de terror.
Win Wenders vai mostrar o uso da câmera como uma arma contra a miséria. Por que filmes? Num exílio obrigatório nos EUA, na ausência de perspectiva de futuro, Nenhum lugar para ir, (Oskar Roehler, 2000). O capitalismo determina a imposição da imagem, morte da tradição e das culturas; aparecimento de um mercado para os migrantes; há uma corrupção dos valores.

Mostra que o filme Adeus, Lênin (2003) não é um filme militante, se resolve na ironia, mas coloca uma realidade chocante, as fronteiras, a determinação de marcas de grife e a expansão dos excluídos; a mídia como verdade só é verdade se a TV mostrar; Lênin pairando sobre o céu, abençoando o céu de Berlim. As contradições: o peso e a leveza.
As crianças vêem os anjos porque são inocentes O Tambor (Volker Schlöndorff, 1978). Alegoria ao surgimento do nazismo (anos 70) é um filme político embora não fale, diretamente, em política. Da narrativa naturalista para o realismo fantástico. Mostra a história do sistema mundial de produção de mercadorias.


Para mim, além do convite à retomada da filmografia alemã de antes e depois da queda do muro, a palestra levou-me a pensar sobre o caráter doutrinário e ideológico do cinema enquanto instrumento de propaganda e formação de consciências, amplamente utilizada pelo Reich. Quanto à caracterização do Novo Cinema Alemão (anos 60) e os Novos Realizadores de Hoje (anos 90) mereceria um tempo maior para reflexão, valeria outra exposição que articulasse mais as diferentes conjunturas e os diferentes ecos que tiveram na produção de uma filmografia alemã anterior e posterior à II Guerra Mundial. Sobre a busca de uma identidade coletiva, o conceito não foi sequer localizado nas múltiplas abordagens da literatura recorrente, de modo que haveria de ser retomado, para uma utilização mais apropriada. Enviei, posteriormente, estas anotações para o palestrante. Não sei ainda se foram recebidas ou se não devia fazer parte de agenda. Passo a segunda palestrante, na próxima.


Acima, cena do filme O Tambor( Die Blechtrommel, 1978).

2 comentários:

Jonga Olivieri disse...

Excelente este Seminário sobre um tema realmente apaixonante. Mas o fato é que após o marcante período do Expressionismo Alemão, aquele país mergulhou no cinema “utilitarista” do período nazista. E mesmo no imediato pós II Grande Guerra, elementos estéticos daquele tempo permaneceram. A genialidade cênica de uma Leini Riefenstahl e sua herança eram difíceis de serem superadas. Apenas em 1962, quando do Manisfesto de Oberhausen, as coisas tomaram um rumo bem diferente, Aliás, já falamos sobre isto em comentário anterior.
A partir daí, e gradativamente, surgem expressões como Rainer Werner Fassbinder, Win Wenders. Do primeiro tivemos (usando dois exemplos como ilustração para não nos alongarmos em demasia) “Veronika Voss” e “Alexsander Platz”. Do segundo obras como “Paris, Texas”, o inesquecível “Buena Vista Social Club” e aguardamos “The Palermo Shooting” (em produção) que será lançado em 2008.
E Werner Herzog, com seu “Nosferatus” e “Aguirre, a cólera dos deuses”, que, aliás, uma das vezes em que assisti, foi no apartamento do Setaro (em 1982), projetado em filme, naquela de trocar cada rolo quando terminasse. Mas, super bem regada a cerveja gelada, foi uma exibição memorável; muito tendo aprendido com a presença do “exibidor” ao meu lado comentando, ilustrando e tecendo comentários extremamente elucidativos.
Ilustrativamente você usou uma imagem de “O tambor” de Volker Schlöndorf, outra importante obra do cinema alemão contemporâneo. Um simbolismo sócio-cultural-psicológico de toda uma sociedade que prefere manter-se refugiada na infância a enfrentar a crua realidade de um passado adulto, recente e extremamente cruel.

Stela Almeida disse...

Jonga
Assisti todos êstes filmes no ICBa nos anos 70/80 e participávamos de debates na FCH/UFBa, no Curso de Ciências Socias. Hoje, num paradigma contemporâneo que traz Walter Benjamin ao cenário, e outros, estamos reassistindo esta produção e tendo o prazer de dialogar com estudiosos do tema, como vc. Obrigada pelo interesse nas postagens do blog, continuaremos aprofundando o tema.