terça-feira, 26 de outubro de 2010

Istanbul, Hüzün, Impressões.










































Outubro de 2010.
Estamos há um tempo sem as habituais postagens deste espaço e sem as coloquiais trocas de mensagens com meus preciosos colaboradores e experts em temáticas relacionadas à sétima arte. Desculpem-me, foi por uma bela causa (1). O motivo subjetivo liga-se a meu completo e dedicado interesse em adentrar-me pelo entendimento da civilização muçulmana, com especial atenção à civilização da Anatólia e seus sítios repletos de hüzün, extensivos à encantadora e misteriosa Istanbul. Verdade que há dez anos mantenho contacto com estudiosos e conhecedores desta paisagem mesclada de ocidente-oriente e tenho escutado músicas e poesia destas paisagens, além de tornar-me leitora interessada dos principais romancistas turcos, entre eles, Orhan Pamuk, Prêmio Nobel de Literatura. Apaixonei-me pela Turquia antes de aventurar-me a conhecê-la.

Os comentários que faço desta viagem seguem uma trilha da emoção. Seus aquedutos, memoriais, monumentos, as cinzas do seu império arruinado não serão contemplados neste instante. Quero seguir pelas ruas de Istanbul, quero encontrar as casas, os bairros, os amigos imaginários, os imigrantes criativos, a cidade dominada pelas ruínas e pela melancolia de fim de império ou pelo menos do que me indicaram as fotografias de Ara Güler no seu estúdio-arquivo-museu em Beyoglü. Tentarei pelo menos. Nem sempre as circunstâncias são as mais favoráveis. O que segue são resultados de visitas guiadas, de caminhadas nem sempre na hora e no tempo que encontrava disposição de realizá-la. Contudo, busquei a franqueza daquilo que vi com os meus próprios olhos, e, salve Pamuk, quero pedir a sua compaixão para o registro que segue sobre os Istanbullus.

As impressões de turistas ocidentais guiados já foi amplamente humorizadas por Orhan Pamuk. Cabe-me dizer que pelo menos não vaguei pelas ruas de Istanbul sem antes perceber que tudo que possa dizer destas andanças pouco se aproxima de seus entranhados labirintos de bazares, palácios, mesquitas, torres, muralhas, de aquedutos famosos de uma civilização em permanência e Istanbullus misteriosos. Aviso ao leitor sugerindo um trecho dos passeios de Theóphile Gautier, escritor, jornalista, poeta, tradutor e romancista, pela arguta observação de Orhan:

(...) Comparado a Nerval, Guatier é mais habilidoso, organizado e fluente, o que não surpreende: sendo um feuilletonist, jornalista e crítico de arte que também escrevia ficção em episódios, Gautier tinha a velocidade adquirida e a vivacidade que vinha com a obrigação de escrever diariamente para um jornal (Flaubert o criticava por isso). Mas se ignorarmos os estereótipos e clichês habituais sobre sultões, haréns e cemitérios, o seu livro é uma esplêndida reportagem. Se produziu ressonâncias em Yahya Kemal e em Tanpinar, ajudando-os a criar uma imagem da cidade, é porque Gautier, jornalista calejado de, aventurando-se pelos seus bairros mais pobres para explorar as suas ruínas e as ruas sombrias e imundas, para mostrar aos leitores ocidentais que os bairros eram tão importantes quanto as vistas e os panoramas (...) Da mesma forma, vai a Üsküdar acompanhar as cerimônias místicas dos dervixes de Rufai, vaga pelos cemitérios (onde vê crianças brincando em meio às lápides das sepulturas), vai assistir ao teatro de sombras de Karagöz, visita lojas e vagueia pelos movimentados mercados da cidade, dedicando atenção profunda e entusiasmada pelos passantes (...) Como a maioria dos viajantes ocidentais, apresenta as suas teorias sobre as mulheres mulçumanas_ a sua vida enclausurada, a sua inacessibilidade, seu mistério (...) Mas nos conta mesmo assim que as ruas da cidade viviam repletas de mulheres, algumas das quais até sozinhas (Orhan Pamuk, 2007, 238-239)

O que me impressionou, à primeira olhada pela cidade de Istanbul, está registrado no seu céu azul turquesa, onde os pássaros voam alto como se quisessem tocar os milhares de minaretes que se espalham por todas as dimensões de um território desconhecido e misterioso. Enquanto a minha companheira de viagem perdia-se no labirinto das especiarias do Bazar Egípcio pus-me a desvendar os transeuntes que passavam envoltos nos seus trajes diversos, coloridos, encobertos e de olhos atentos, como a nos brindar por uma multifacetada etnia a ser conhecida, a ser apreciada. A seguir flashes da modesta Kodak, numa tarde de outubro em frente ao Bazar Egípcio.




Foto3. Mesquita ao lado do Bazar Egípcio. Tarde de outubro de 2010.

Foto 2. Movimento em frente ao Bazar Egípcio. Tarde de outubro de 2010.

Foto1. Trecho entre Bazar Egípcio e Mesquita. Tarde de outubro de 2010.


Como sabem, escrevo em estilo dropes, de menta. Cada postagem, por definição, não excede quatro laudas. A viagem vai sendo narrada por etapas, a maneira de Sherazade. Sigo em frente e até a próxima semana.


NOTA:

(1) Refiro-me a comentadores críticos de uma filmografia ainda por rever indefinidamente, tal a qualidade de seus realizadores (as). Por Allah estou com saudade de vocês.

4 comentários:

Jonga Olivieri disse...

Muito boa esta sua postagem e narrativa sobre a Turquia, um país rico em suas alternativas culturais.
E vamuquivamu neste seu retorno!

Stela B. de Almeida disse...

Bom lhe encontrar Jonga. E no domingo voto no 13!

Jonga Olivieri disse...

Agora entendo porque Não sei o que houve com este seu comentário, que, por um lado um seu comentário em "Bolas e bolinhas..." foi parar direto no blogue (sem passar pela triagem), e, opostamente foi parar no Spam no meu g-mail. Estranhíssimo! E afinal, fomos no 13!

Stela B. de Almeida disse...

Não entendi também, mas continuo firme e confiante no 13.