terça-feira, 20 de abril de 2010






















Lacrimae rerum: ensaios sobre cinema moderno, este é o título do recente livro de Slavoj Zizek , que recebi de presente em janeiro e só agora pude tentar ler. Slavoj, como sabem, é um teórico iugoslavo que tem dedicado reflexões sobre o novo pensamento da esquerda e ocupado páginas das principais revistas de cultura no Brasil, participando de freqüentes debates em destaque em várias universidades européias e norte-americanas (1).

Sua biografia encontra-se amplamente divulgada em revistas de cultura e na internet (2). Nasceu em 1949, em Liubliana, capital da Eslovênia, a mais próspera das províncias da antiga República da Iugoslávia e a primeira a se tornar independente em 1991. Formou-se em Filosofia e Ciências Sociais em 1971 e em 1975 apresenta a tese: A relevância prática e teórica do estruturalismo francês. Trabalhou no Comitê Central da Liga Comunista da Eslovênia, ocupou-se em redigir discursos e acompanhar a formação do discurso nacionalista sérvio e da construção da região de Kosovo. Seu caminho teórico vai de Marx a Hegel, dizem os analistas dos seus trabalhos. Suas posições críticas situam-no entre o socialismo iugoslavo e o interesse do capital ocidental pela emancipação da Eslovênia, engajando-se na resistência cultural e política em torno da Nova Cultura Eslovena. Por NSK (Nova Cultura Eslovena) entende-se um grupo constituído por uma ampla frente de resistência à burocracia, envolvendo o teatro, a música, as artes plásticas e a Escola Lacaniana da Eslovênia.

Zizek formou-se num ambiente em que a teoria crítica da Escola de Frankfurt ou a fenomenologia de Martin Heidegger eram utilizadas como amálgamas ideológicos pelo Partido Socialista Iugoslavo. Sua formação teórica em Paris na década de 80 voltou-se para o estudo da psicanálise, buscando entender acerca das relações entre Hegel e Lacan, começando a sedimentar seus interesses pela crítica da cultura, prática política e por tratar a cultura com uma interlocução com o universo popular do cinema, com a teoria feminista e com o ativismo multiculturalista. Seus textos, amplamente divulgados na internet, tornam suas reflexões conhecidas por um público mais amplo, que passam a dialogar com suas posições nada dogmáticas, entre elas, afirma: “nada é o que parece ser”.

A seguir transcrevemos, parcialmente, sua entrevista divulgada recentemente à:
euronews: O senhor é convidado do Festival de Cinema de Sarajevo… qual é o papel dos filmes e do cinema na sociedade de hoje?

Slavoj Zizek: Primeiro, eu continuo a ser um marxista à moda antiga. Portanto, eu acho que o cinema é hoje um campo de batalha ideológica, alguma batalha decorre aí e até podemos ver isso claramente no que respeita à horrível Guerra dos Balcãs. Temos alguns filmes acerca disto que são autênticos, mas, infelizmente, os maiores sucessos não o são. Esse é o caso do “Underground” do Emir Kusturica. Eu acho que esse filme é quase uma trágica – eu não diria que é uma falsificação equívoca – no sentido em que: “Que imagem é que esse filme te dá da ex-Jugoslávia?” A de uma parte do mundo maluca, onde as pessoas fornicam, bebem e lutam todo o tempo. Ele exibe um certo mito que o Oeste gosta de ver aqui nos Balcãs: este mítico outro, que permanece durante um longo período.

euronews: Como explica este fenómeno?

Slavoj Zizek: Pode dizer-se ironicamente que os Balcãs estão estruturados como o inconsciente da Europa. A Europa põe e projecta todos os seus segredos sujos, obscenidades e por aí fora nos Balcãs. É por isso que a minha fórmula para o que está a acontecer nos Balcãs não é como as pessoas usualmente dizem que são apanhadas nos seus velhos sonhos, que não podem enfrentar a realidade ordinária pós-moderna. Não, eu diria que elas são apanhadas nos sonhos, mas não nos seus sonhos – nos sonhos europeus. O filósofo francês Gilles Deleuze disse uma coisa maravilhosa: “Se fores apanhado nos sonhos dos outros, estás feito”. Portanto, o cinema deve mostrar precisamente que este folclore excêntrico em alguns lugares pode fazer parecer que somos todos parte de um mundo global.

euronews: Sarajevo é também uma cidade simbólica para o multiculturalismo, mas tem uma opinião muito particular acerca da tolerância multicultural, não tem?

Slavoj Zizek: Eu acho que aqui já tivemos o suficiente desta ideologia multicultural, que para mim, pelo menos, é frequentemente um racismo invertido, designadamente quando as pessoas vêm cá. Normalmente, multiculturalistas diriam: “Oh, eu quero entender como tu és diferente”. Não, o que se deve entender fundamentalmente é que eles aqui não são diferentes – apenas coisas diferentes lhes aconteceram e para o tornar tolerável para nós, que gostaríamos de ter evitado a guerra, no Ocidente fizemos as pessoas diferentes. O que precisamos hoje em dia é de códigos de conduta, não de mais entendimento. Eu acho que nos deveríamos opor totalmente a esta chantagem liberal de que temos que nos entender uns aos outros. Não, o mundo é demasiado complexo, não podemos. Detesto pessoas. Não quero entender as pessoas. Quero ter um certo código em que eu não entendo o teu estilo de vida e tu não entendes o meu, mas podemos coexistir.

euronews: Por que razão podemos sentir aqui, em Sarajevo, desilusão, após a detenção de Radovan Karadzic?
Slavoj Zizek: A verdadeira tragédia é, como alguns inteligentes políticos bósnios realçaram, que basicamente Karadzic teve sucesso. O seu programa foi que uma grande parte da Bósnia deveria ser reservada e etnicamente limpa para os sérvios. Foi isto que efectivamente aconteceu: a República Srpska é 51 por cento do território e tem menos 10 por cento dos outros, não sérvios. Portanto, a ironia é… isto é como César morreu, César ganhou… para isto é demasiado tarde. Esta é a hipocrisia: condena-se o homem, o projecto vingou.

Peço desculpas aos que se interessaram, mas preciso interromper a entrevista uma vez que o espaço da postagem dropsniana requer moderações. Tomei o cuidado de indicar as fontes nas notas abaixo para os que tiverem interesse em continuar acompanhando as idéias do esloveno. Sequer cheguei a comentar o capítulo do livro que iniciei a postagem, me refiro ao capítulo especial _Andrei Tarkovski ou a Coisa Vinda do Espaço Interior_um brilhante ensaio sobre os filmes definitivos de Tarkovski, entre eles, Solaris, Nostalgia e O sacrifício. Assisti estes filmes nos anos 70/80 e, provavelmente, reassistidos hoje à luz dos fundamentos de uma teoria de cinema em construção, redirecionam nosso olhar à uma nova poética da linguagem cinematográfica. Ou não?

Notas:
1.Zizek, Slavoj. Lacrimae rerum: ensaios sobre cinema moderno. São Paulo: Boitempo, 2009.
2.Cult. Revista Brasileira de Cultura. Nº118-Outubro/2007. Ano 10. São Paulo-SP. WWW.revistacult.com.br

4 comentários:

Jonga Olivieri disse...

Stela, você sempre a me abrir horizontes e me apresentando indivíduos, cuja individualidade se impõe por um posicionamento centrado num mundo eclético e confuso como este em que vivemos. Um mundo em que os valores se deterioram em consequência da "Barbárie".
Este é o caso deste Slavoj Zizek – de quem eu nunca ouvira falar –, até porque a nossa relação com a cultura da chamada Iugoslávia "Eslávia do Sul" (pois assim a chamavam os russos ainda no século XIX) é praticamente inexistente.
Mas achei interessante algumas de suas posições, num país que foi criado por pressão das massas no pós-Segunda Guerra, quando os "donos do mundo" determinaram em Yalta que a Iugoslávia deveria estar no lado "ocidental" e Tito discordou, enfrentou Stalin e fixou-se como "socialista". Recordando, os “partisans” gregos, da mesma forma quiseram se opor e Stalin, que conseguiu exterminar toda a direção do Partido Comunista daquele país, que tambem estava praticamente no poder.
Tito, pressionado pelo Império Soviético (stalinista) que não lhe deu apoio e cooperação teve que apelar para uma “ajuda” (a princípio oculto) dos países capitalistas europeus, e, sem o saber iniciou a decadência do próprio Império Russo do século XX (lembremos que a Iugoslávia foi criada nos 1800’s como uma saída russa para o Mediterrâneo). Tanto que ainda nos anos 1950 a Iugoslávia produzia carrinhos da Fiat com outro nome.
Os Balcãs são uma região que causou um grande reboliço nos 1900’s, a partir da própria origem da Primeira Guerra com o assassinato do Arquiduque Francisco Ferdinando em 1914, e culminou no seu desmembramento e as sangrentas guerras que se sucederam ao fato.

Stela B. de Almeida disse...

Jonga sempre atento e respondendo com desafios. Beleza! O terreno historiográfico é mais penoso, vou apenas ouvir suas observações sobre o pós-guerra e as lutas balcânicas, até mesmo porque há diversas interpretações sobre a biografia de Tito e Stálin, uma multiplicidade de versões de um mapa da Europa que é bastante complexo e, às vezes, indecifrável. Sobre esse terreno reservo meus comentários.
O propósito do post está mais voltado para a compreensão de cinema esboçado pelo autor esloveno e do resgate da obra de Andrei Tarkovski, dos seus filmes que assisti nos anos 70/80 e que colocam hoje novas perspectivas de prospecção da linguagem poética. Tarkovski que descende de poetas e pintores, sua linguagem quer expressar essas dimensões. Mas nem cheguei a comentar o ensaio, apenas situei o seu autor.
O Slavoj Zizek comenta que Underground de Emir Kusturika ( 1995) passa uma imagem de tragédia nos Balcãs, de uma parte do mundo maluca onde as pessoas fornicam, bebem e lutam todo o tempo. Verdade. Saimos dos filmes de Kusturika impregnados da música contagiante e com a sensação de que a guerra não interfere na vida cotidiana. Tenho a impressão que Zizek, como marxista identificado com a renovação do pensamento da esquerda, quer nos propor uma forma original de tratar a cultura e uma franca interlocução com o universo popular do cinema. E nos diz: nada é o que parece ser.
Jonga, amei suas incursões pelo Império Soviético. Mas não tive a intenção de avançar por este campo, apenas aproximei-me das idéias que Zizak no que diz respeito ao cinema ao lançar no Brasil um livro sobre o assunto. Mas nada impede que estejamos atentos a cultura da “Eslávia do Sul” até mesmo para decobrir seus paradoxos. Um grande abraço amigo.

Jonga Olivieri disse...

Do ponto de vista filosófico, você ao dizer: "(...) nada é o que parece ser..." mostra uma abordagem da Práxis, principalmente nos dias de hoje, quando os seus mais atualizados seguidores estão a buscar novos caminhos e "desidentificar" as ideias de Marx do que aconteceu a partir de Lênin e foi agravado por Stalin na URSS.
Leia Michael Lowy ou Daniel Bensaid. Aliás, vou procurar "Marxismo. Modernidade. Utopia" que considero uma obra prima e, caso o encontre, juro que mandarei para você de presente .
E “vamuquivamu” porque ainda acredito que o mundo possa ser diferente. Depende de nós e de nossas reflexões, atualizações e reformulações.
Tem muita gente boa pensando e repensando o Materialismo Histórico. Apenas são escondidos pelo sistema nesta "democracia" ocidental cristã.

Stela B. de Almeida disse...

Concordo que as idéias do autor eslovano estão inspiradas na Práxis, embora ao ouvir sua entrevista ele tenha mencionado várias vezes Walter Benjamim, mas todos eles tem por base conceitual o materialismo histórico. Michel Löwy está entre os mais respeitados teóricos do MH, manteremos troca, vamuquivamu. Mas nenhum deles deu tanta importância a Cultura como os mais recentes marxistas, e nela, a sétima arte. Era aspectos da superestrutura e não tinham o valor que hoje tem merecido( esse assunto é para um curso, até mais).