segunda-feira, 13 de outubro de 2008

Sobre filmes, livros e pureza.

Neste fim de semana que passou dois episódios fizeram-me pensar mais sobre cinema. Assisti Ensaios Sobre a Cegueira e adquiri o livro de José Saramago. Além disso, tive o prazer de perceber, mais uma vez, que buscar sempre um diálogo com o Jorge Coli que nos brinda com sua coluna todo domingo, nos aproxima cada vez mais da crítica que nos adverte da miopia branca. Segue a transcrição do seu texto: Monstros da Pureza.


JORGE COLI
COLUNISTA DA FOLHA


Oswaldo Martins, especialista em literatura erótica, é também poeta. Um ou outro de seus poemas, em livros e no blog http://osmarti.blogspot.com, contém palavras mais fortes. Alguns elaboram desejos físicos de maneira delicada e sem evidência imediata. O blog é inteligente, carregado de amor pela literatura; os poemas são bons. Essas qualidades bastaram para que a Escola Parque [no Rio], em que Oswaldo Martins lecionava português, o demitisse, como contou, no domingo passado, o Mais!. A miopia moralista da escola, dos pais, de "psicólogos e juristas" evocados no texto, miopia que desencadeou o caso, assusta pelo "obscurantismo e a certeza dos censores", na expressão do próprio professor despedido. Censura e obscurantismo, no caso, não são singulares e episódicos. Eles se inserem na mentalidade de nossos tempos regressivos, marcados por puritanismos, por fundamentalismos religiosos, pelo maniqueísmo das convicções, pelo gosto doentio em patrulhar, controlar, vigiar e punir. É bem difícil lutar contra tudo isso porque essas manifestações se fazem com parcimônia, gota a gota, disfarçadas, em nome de álibis austeros. Aqui, trata-se de proteger as crianças, que, como todos sabem, são anjinhos imateriais, feitos de etérea e cândida substância, não de carne e osso. Mas quem os protegerá, e a nós todos, do mal que existe na cabeça desses educadores, desses pais, desses psicólogos e juristas, que nunca disseram um palavrão, que estão incólumes de pulsões pecaminosas, e que, senhores da moral, transformaram-se em juízes? Quem nos protegerá dos puros?

Travessuras
Exposição toda carregada de energia, humana e sexual. Seu título é um trocadilho de tom frívolo e bem achado: "Diário de Bolsa". Está na Pinacoteca do Estado de São Paulo e reúne fotografias de Vania Toledo. A maioria é dos anos 1970, até os primeiros 1980. Há nelas uma grande atração pelas festas delirantes, pela noite agitada, pelo mundo gay, por celebridades na moda, que vão de Warhol a Ângela Maria. Todos surgem surpresos em situações inesperadas, incongruentes. São instantâneos que se dilatam no espírito de uma época. A forma das fotografias se submete a algo maior: expandir uma vitalidade nada contemplativa. Nas situações mais ambíguas ou escabrosas, nenhum sentimento de deliqüescência, nenhum voyeurismo sórdido, mas a felicidade de ser, de ter existido ali, naquele momento. O passado volta, não como vestígio em documento antigo: ele dá lições de prazer sem culpa.

Morno
Na galeria Vermelho, em São Paulo, uma exposição intitulada "É Claro Que Você Sabe do Que Estou Falando?". A apresentação explica seu ponto de partida: "Onde está o sexo, mais do que a sexualidade, na produção de uma nova geração de artistas brasileiros?". A mostra não permite descobrir. Se aquilo é sexo, algodão-doce é mais gostoso.

Fagulha
Miniconto extraído do recente "Ruídos Urbanos", de Moacyr Godoy Moreira, pela Ateliê Editorial, com ilustrações de Enio Squeff: "Vivi meses por conta de maria. Do trabalho rotineiro e de maria. Chegava e já ligava para ela, recebia ordens, ia visitá-la, jantava -raramente ia ao cinema ou ao teatro. Uma pessoa difícil. Suave e carinhosa por vezes, cruel e sanguinária por outras. Os versos de Carlos a ribombar: "A chuva me irritava. Até que um dia, descobri que maria é que chovia". Sento-me defronte à calçada, aguardo amigos que chegarão. Há tempos não chegava ninguém. E maria respinga, mas não chove mais."

jorgecoli@uol.com.

6 comentários:

Jonga Olivieri disse...

Jorge Coli, cujo currículo é quase impossível de transcrever num simples comentário, entre outras coisas é professor titular em História da Arte e da Cultura, no Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Unicamp. Isso fora os cursos, mestrados e doutorados que fez no exterior.
Para além do fato de ter sido professor na França e no Japão, como na Universidade da Provença, e Osaka, entre outras.
Só? Não! Foi tabém colaborador do jornal francês Le Monde.
Temos que tirar o chapéu para um intelectual de sua estirpe.
Saramago é uma das personalidades mais importantes em nossa "fala", pós-Camões.
Acho que quem leu "O evangelho segundo Jesus Cristo" teve a oportunidade de sentir uma obra real e completa em sua totalidade. Acho também que "Memorial do convento" e outros escritos são indispensáveis em nossa tentativa de buscar o conhecimento.
O filme de Fernando Meirelles, no meu entender é excelente. Conseguiu passar o clima, a fatalidade da situação. E isto e´o que importa em uma obra cinematográfica.

Stela Almeida disse...

E vamuquivamu Jonga!

Stela Almeida disse...

Jonga,com mais tempo agora, segue um comentário às suas sempre bem-vindas observações.

A "miopia moralista" que o Jorge Coli acentua no seu texto não se restringe às escolas. O fato episódico ocorrido, infelizmente no interior de uma escola, não nos leva a generalizar sobre, mesmo porque o projeto original da Escola Parque ( Salvador-Ba) sintetiza um modelo de práxis pedagógica, onde o espaço foi criado para aprender e sonhar e não vigiar e punir. O importante na coluna do Professor Jorge Coli, a meu ver, além do currículum de excelência que você destaca, advém da fina sensibilidade para captar as fagulhas e partilhá-las com seus leitores.
Hoje vou ao NovoPensatas, se tiver condição opino, se não tiver, escuto. Um abraço.

André Setaro disse...

Poucos aqueles que, no Brasil, e quiça no mundo, possuem a erudição do Professor Jorge Coli. Um conhecedor em profundidade da "História da Arte" e com uma capacidade perceptiva extraordinária para falar e escrever sobre todas elas. Tem o dom da sabedoria e, quando escreve sobre filmes, sabe revelar o seu subtexto, as suas "fagulhas", como diz a autora deste blog. Tenho um livro dele, que, apesar de despretensioso e dentro de uma coleção de caráter de iniciação, é uma maravilha: "O que é a Arte".

Armando Maynard disse...

Stela, tenho medo dessa onda de miopia moralista,regressão mental puritina que no fundo não passa de atitudes hipócritas.A pensar que esses mesmos que prejudicaram o Oswaldo Martins,maltratam seus empregados e sonegam seus direitos mas não perdem a missa aos domingos e ainda comungam.Um abraço,Armando -fetichedecinefilo.blogspot.com(posto também em lygiaprudente.blogspot.com)

Stela B. de Almeida disse...

Prezado Armando,

Contra todas as formas de falso moralismo, estamos de acordo.

Outro dia visitei seu blog e gostei das informações sobre os projetores e carretéis, gostei mais ainda das notícias sobre o Cine Aracaju. Fui Professora Visitante na UFSE e vez em quando prestigiava a telinha por lá. Tenho saudades da entusiasmada acolhida e lembro que assisti Janela da Alma em SE, depois de andar centenas de quilômetros do campus para chegar à cidade.

Boas lembranças.
Um grande abraço.