quinta-feira, 2 de outubro de 2008

ALMODÓVAR: Impressões




















O livro de trezentas páginas de conversas com Pedro Almodóvar, colhidas por Frederic Strauss e reunidas neste volume, proporcionaram-me maior aproximação com a obra do conhecido e admirado cineasta, ainda que as cenas de seus filmes se intercalassem à sua fala escrita, como numa complementação somatória e necessária à contemplação. A fala de Almodóvar me emocionou em diversas passagens da entrevista (1).

Utilizando como critério chave o período em que foram produzidos, o ex-redator e chefe adjunto da revista Cahiers Du Cinema, dialoga com Almodóvar provocando rememorações da sua filmografia e das condições em que foram produzidas, detendo-se no seu processo criativo e inspirador.

Parece que Almodóvar impregnou-se das marcas fortes de uma cultura edificada por uma família madrilena sem ostentações na qual se imprimiu um perfil inquieto e inventivo do realizador de cinema. Há uma referência sempre evidente ao papel preponderante dos traços matriarcais, a figura da mãe está sempre presente na sua obra, ainda que se faça prevalecer a colaboração de um irmão fraterno e empreendedor, Agustín. Curiosamente, as duas irmãs aparecem num comentário rápido ao final do livro.

Sabemos todos que assistem e gostam de cinema, principalmente dedicados à filmografia de Pedro Almodóvar, que não basta rememorar temáticas e cenas dos seus filmes, é preciso deter-se nos cenários, na dramaturgia, na iluminação, nas cores, na construção dos personagens, na montagem das seqüencias, nas elipses criadas, na diversidade de planos. A fala de Almodóvar sobre seus filmes ganha mais expressão podendo-se rever seus filmes. Pela palavra, não ultrapassamos a força das imagens nem do poderoso melodrama kitsch em imagens.

A seqüencia de sua produção demonstra o labor e empenho de um autor que tem privilegiado as personagens femininas. Em 1980 foram realizados oito filmes longa metragem, quase que um por ano. Pepi, Luci, Bom e outras garotas de montão (Pepi, Luci, Bom y otras chicas del montón, 1980), Labirinto de Paixões (Laberinto de pasiones, 1982), Maus hábitos (Entre tinieblas, 1983), Que fiz eu para merecer isto? (Que He hecho yo para mercer esto, 1984), Matador (Matador, 1985-86), A lei do desejo (La ley Del deso, 1986), Mulheres à beira de um ataque de nervos (Mujeres AL borde de um ataque de nervios, 1987), Ata-me! (Ataque!, 1989).

Em 1990, De salto alto (Tacones lejanos, 1991), Kika (Kika, 1993), A flor do meu segredo ) La Flor de mi secreto, 1995), Carne trêmula ( Carne trêmula, 1997), Tudo sobre minha mãe ( Todo sobre mi madre, 1999).
Fale com ela ( Hable com Ella, 2002), Má educação ( La mala educación, 2004) e Volver ( Volver, 2006), completam sua recente saga de uma produção contínua e reconhecida internacionalmente.

Vários caminhos se fazem para investigação da sua obra. Nas academias universitárias, centros de estudos, instituições de ensino e pesquisa, multiplicam-se as monografias, dissertações e teses que se aventuram nas análises fílmicas buscando compreender e interpretar suas mensagens, o significado da sua obra cinematográfica e da sua linguagem. Ainda não mapeei esta literatura, embora considere esse patamar de pesquisa, prefiro aproximar-me afetivamente da sua filmografia valorizando os aspectos subjetivos e relacionados ao plano da emoção e dos sentimentos que as imagens suscitam.

Na mídia eletrônica e nos mais diversos meios de comunicação de massa, atropelam-se os comentários breves e superficiais sobre os significados dos filmes e da obra de Almodóvar, com raras e honrosas exceções. Do que tive oportunidade de conhecer, falta descobrir uma leitura que revele os segredos da sensibilidade madrilena e suas marcas na inspiração e criatividade voraz.
E para terminar, as palavras do Almodóvar:

Minha sensibilidade está inteiramente no filme (Tudo sobre minha mãe), que nesse sentido é tão autobiográfico como um filme sobre um cineasta de La Mancha que acaba de ganhar um Oscar. Além disso, Tudo sobre minha mãe fala de como me tornei cineasta. Quero acreditar que minha educação como espectador se deu com filmes adaptados das obras de Tennessee Williams, especialmente Um bonde chamado desejo. O desejo é o nome de nossa produtora, é a palavra chave do título de um de meus filmes e está também, presente em todos os outros (...).

Notas: Pedro Caballero Almodóvar nasceu em 1950 na província de Mancha em Madri. Em 1970 já em Madri trabalhava numa agência de correios e telégrafos e montava com seu irmão, Agustín, uma máquina de produzir seus filmes, El Desejo. Nesta, dispõe-se hoje de mais de vinte películas. Cf. Conversas com Almodóvar/ Frederic Strauss. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed, 2008.

12 comentários:

Jonga Olivieri disse...

Figura controversa, polêmica, mas antes de mais nada humana, Almodóvar é hoje um dos grandes realizadores a construir uma obra à altura dos grandes diretores europeus. Como Fellini, Truffaut, Visconti, e porque não dizer, seu conterrâneo Carlos Saura.

Stela Almeida disse...

Bem lembrado o Carlos Saura, assisti nuitos filmes dele nos anos 80, embora em sua dramaturgia prevalesça mais as nuvens púmbleas que os palcos de cortinas de seda rendadas, êle privilegia mais os dramas insolúveis da alma humana. Falta-lhe o humor madrileño de Almodóvar.
Jonga você é meu leitor mais fiel, uma qualidade rara nesta sociedade hedonista... um grande abaraço e vamuquivamu!

Jonga Olivieri disse...

Gostei imenso de sua comparação entre "as nuvens púmbleas e as cortinas de sedas rasgadas." Poucas vezes li uma comparação tão real entre estas duas personalidades.
Quanto ao fato de ser o seu leitor mais fiel, fique certa que o seu blogue merece.

Stela Almeida disse...

O estilo kirsch de Almodóvar, em grande parte de seus filmes, lembrei-me deste cenário. Aliás êle descreve com riqueza de detalhes a criação destes cenários, das indumentárias e dos personagens. As cores tem uma função especial, ver por exemplo a espetacular cena do Café Berlim de Pina Bauscher na abertura de Fale com Ela. As cortinas de seda tecidas por artistas especialmente convidados para comporem as cenas. Um gosto sofisticado e flamengo.

Stela Almeida disse...

leia-se flamenco, um estilo musical; o flamengo, meu time preferido tem cores lindas também.

André Setaro disse...

Excelentes suas observações sobre Pedro Almodóvar. O grande cinema deste inquieto realizador espanhol, possuidor de um profundo sentido da arte do filme, estabele-se, na minha opinião, a partir de "A carne trêmula", quando se afasta do humor mais debochado (embora pertinente e válido) para um mergulho mais intenso nos sentimentos humanos, como se pode verificar nos seus filmes posteriores como 'Tudo sobre minha mãe', 'Fale com ela', 'Má educação', e 'Volver' (neste com acentos surrealistas). Influenciado pelo melodrama americano, principalmente os de Douglas Sirk ('Palavras ao vento', 'Tudo que o céu permite', 'Almas maculadas', 'Imitação da vida'), Almodóvar soube, com rara inspiração, adaptar o seu modelo às tradições culturais de seu país. O enfoque adquire um tom muito pessoal na análise do matriarcado espanhol e a influência da mulher na cultura de sua gente. Se, nos filmes de início de carreira, o teor crítico vinha sob o manto do deboche e da 'non chalance' ('Maus hábitos'...), a partir de 'Mulheres à beira de um ataque de nervos' o cineasta 'configura', por assim dizer, o seu estilo. Mas tem que esperar quase uma década para atingir a plena maturidade no já citado 'A carne trêmula'. Não resta dúvida de seu imenso talento e de sua originalidade. Conseguiu, e conseguir o que conseguiu é para poucos eleitos, um estilo almodovariano, assim como se diz de um estilo viscontiano, de um estilo truffautiano, de um estilo sirkiano, etc

Anônimo disse...

Quero comentar aqui a foto da Pesquisadora!
Gostei muito!
Flavia

Chad disse...

Stela,

Hoje indiquei seu Blog em um trabalho da faculdade, aula de Comunicações e Novas Tecnologias. Veja aqui:

1. O que é um blog?
Blog é uma abreviação de weblog e também conhecido como blogue ou caderno digital. Um blog é um site de Web com uma estrutura que permite a atualização rápida a partir de acréscimos de artigos ou “posts”. Um blog é considerado um registro freqüente de informação como um jornal pessoal.

2. Que funções exerce?
Pessoas utilizam blogs para disponibilizar informações no Web e o blog permite outros para critica ou comentar na informação.

3. Há diferença entre blog e site? Quais?
Sim. Um blog é uma categoria do site de Internet especializado com a intercomunicação de várias pessoas e o autor utilizando texto para comunicar. Essa comunicação pode se na forma de criticas, comentários, opiniões, etc. Um blog é muito similar com grupos de noticias ou “newsgroups” no Internet.

4. Quem pode fazer (criar) um blog? Como?
Com a estrutura de um blog, qualquer pessoa que tem a capacidade para ler e utilizar um computador pode criar um blog. As ferramentas para criar um blog normalmente são embutidas dentro do sistema de blog. Você não precisa saber programação de Web para criar, somente saber como digitar e utilizar o teclado, mouse e Internet.

5. Indicar o site pesquisado.
Wikipedia em Português – http://pt.wikipedia.org/wiki/Blog
Wikipedia em Inglês - http://en.wikipedia.org/wiki/Newsgroup
Interney - http://www.interney.net/blogfaq.php?p=6490966
Querterumblog - http://queroterumblog.com/2007/10/02/qual-a-diferenca-entre-um-blog-e-um-site-como-voce-explicaria/

6. Indicar um blog interessante e útil.
http://www.stelalmeida.blogspot.com/
http://mordendoalingua.com/

Stela Almeida disse...

Olá James Stewart e sua amada, bem-vindos!
Mesmo procedentes da geração multiplex vocês apreciam os clássicos, são do meu time. Muito me honra aprender com um blogueiro expertaise as dicas para baixar todos os downloads merecidos. Volte sempre. Beijos, Mami.

Stela Almeida disse...

Mary, sei da sua excelência na crítica e dos seus compromissos inter e nacionais. Mas vale insistir em lhe ouvir sempre. Um grande abraço e até o próximo drops ou pílula como diz André Setaro e seus antenados textos.



Stela,

por antice ou falta de tempo mesmo nao visito blogs, orkuts, msm, se nao me tira tempo do hard cover ou seja books , meu forte. Mesmo essa preferencia é mal seguida, tanto que tambem comprei o livro sobre Almodovar e está na pilha dos que um-dia-lerei. Assim gostei muito da sua sensibilidade fina em comentar, apresentar o livro.

Claro que como metodologa sei que ha que desconfiar do senso comum e que toda produçao segue canones, ou os desfaz e pede leitura informada, o que Bourdieu chama a construçao do objeto. Mas em cinema contento-me no ser atendida quanto aos desejos do gozo que em ser entendida. E Almodovar sempre me fez sair leve e desafiada pois combina como voce bem coloca criativos enredos com formas cinematograficas de contar algo de forma inovadora, adoro seus flashes, "caronas" . Mas o que gosto em Almodovar que considero unico em relaçao a tantos outros cineastas de quem tambem gosto e porque considero fora de lugar comparaçoes, como as que se faz em relaçao a Saura, de quem tambem gosto mas é outra identidade?

A politica de Almodovar se aproxima de Deleuze e Guatari ou seja transfixa, passando de leve pela critica a estados sistemas e decolando e mais transitando pelo micro, desejos, relaçoes, gozando a nossa estupidez humana, mostrando o comico das nossas tragedias.

Do lugar do meu senso comum, discordo dos doutos: Almodovar vai mais alem, nao explora ou admira figuras femininas, mas joga com um androgino ideal que talvez mais se realize em mulheres, quem melhor combina feminino e masculino, mas que escapa a dicotomias sexuais. Obrigada pelo bom texto,
Mary Garcia Castro.

Bruna disse...

Oi Stela!
Sou Bruna, trabalho na Edelman, agência de comunicação da Jorge Zahar Editor. Ótimas palavras sobre Almodóvar. Como diz Strauss, Almodóvar leva a ironia e os paradoxos da vida para o paraíso e faz de cada "regra" um novo labirinto.
Abraços!

Anônimo disse...

Merhaba Stela.
Blogspotunu ziyaret etmekten onur duydum. Zaten senin sinemaya, kültüre ve politikaya olan düşkünlüğünü biliyordum. her ne kadar yazılanları anlamasam da mutlaka güzel bir blog yaptığından hep emin oldum. Biraz portekizce bilebilseydim bu sayfaları seninle paylaşmaktan onur duyardım. Kolay gelsin diyorum kendine iyi bak. sevgilerle. Yüksel AYGUT
Çorlu-Tekirdağ Turkey