segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

A TROCA















Repetindo um antigo costume, transcrevo o balizado texto publicado em PONTO DE FUGA sobre o filme A TROCA.
(Folha de São Paulo, 18.01.2009).
Em exibição no Espaço Unibanco Glauber Rocha, Salvador-Bahia, além de um lugar para observar a Baía de Todos os Santos, contamos com a análise do Jorge Coli que indica as chaves centrais desta película, uma convicção ética que exclui maniqueísmos. Irei hoje para conferir.


A presença do passado
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O filme "A Troca" expõe a mesma luta individual contra interesses sujos que outros personagens de Eastwood encarnaram, criando afinidades além das convenções
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JORGE COLI
COLUNISTA DA FOLHA


A história é clara, mas o pensamento tão complexo. Nada de conceito teórico, mas uma reflexão intrincada brotando, intuitiva, dentro do filme. A expressão perfeitamente controlada engendra uma força que não se refreia. "A Troca" retoma obsessões que se tecem a partir de tudo que Clint Eastwood filmou.
Alguns críticos tentaram, sem sucesso, enquadrá-lo em um único gênero: film noir, melodrama, policial, filme social, filme político. Ele contém tudo isso para formar outra coisa: uma convicção ética que exclui o maniqueísmo.
Nos anos de 1970, Eastwood fazia vingadores se levantarem contra a ordem social, comandada por poderosos sempre corrompidos até o cerne. O vingador vingava, não para restabelecer uma ordem justa, mas para destruí-la naquilo que estava ao seu alcance. Encontrava refúgio em comunidades de "outsiders", em meio à gente desprezada, mas leal, sincera, verdadeira: basta ver "O Estranho Sem Nome" ou "Josey Wales - O Fora da Lei".
"A Troca" expõe, ela também, a luta individual capaz de enfrentar o complô dos interesses sujos e das mentiras infames. O sonho da comunidade permanece, embora mais tênue e transformado, não mais na antiga utopia comunitária, mas em certas afinidades, algumas éticas, outras mais difíceis de explicar.
A palavra afinidade é uma chave no cinema de Clint Eastwood: significa laços invisíveis, muito poderosos, e para além das convenções. Quem viu não se esquece da cena unindo dois mortos que se amaram e se odiaram, em "Meia-noite no Jardim do Bem e do Mal". Há esse estranho filme, "Dívida de Sangue", em que dois personagens se ligam por razões nada racionais. O assassino abjeto de "A Troca" descobre uma surpreendente sintonia com a heroína, Angelina Jolie.

Carrascos
Os desmandos policiais expostos em "A Troca" são terríveis. O momento no qual, verdadeiro filme dentro do filme, surgem expostas as cumplicidades entre polícia e psiquiatria para abaterem-se com crueldade abjeta sobre as mulheres, é digno do mais alto Foucault. Dirty Harry, personagem do tira durão, machista, matador, que Eastwood interpretou em vários filmes, o primeiro deles dirigido por Don Siegel, ficou bem longe.
"A Troca" mostra suspeitos sendo baleados como num fuzilamento por razões torvas. A cena, que lembra os abates nos campos de concentração nazistas, remete para realidades como os esquadrões da morte, o Bope, e discursos delirantes do atual governador de Mato Grosso do Sul, que manda a polícia esquecer os direitos humanos.

Sinistro
Em "A Troca", Eastwood acusa, mas avança, e ultrapassa a denúncia militante graças ao personagem do serial killer. Ele encarnaria o mal absoluto, se o diretor não lhe tivesse concedido dimensão humana.
Uma cena de execução judicial por enforcamento, descritiva, detalhada, expõe a barbárie da pena de morte como mais um crime cruel e perverso. O prisioneiro, cantando "Noite Feliz", mostra-se, ele próprio, habitado por uma inconsciência infantil. É um formidável momento de cinema. "A Troca" faz pensar no Kieslowski de "Não Matarás", no Chabrol de "O Açougueiro" e, sobretudo, em "M, o Vampiro de Düsseldorf", de Fritz Lang.
Como neste último, a justiça é incapaz de compreender e, sobretudo, de resolver a questão do mal.

Luz
"Sobre Meninos e Lobos", o filme mais pessimista de Eastwood, centra-se, como "A Troca", na violência sobre crianças. Agora, porém, a última palavra é esperança.

jorgecoli@uol.com.br

3 comentários:

Jonga Olivieri disse...

Excelente – pra variar – esta abordagem de Coli.
A obra de Eastwood é importante até pelo fato de ele ter rompido com toda uma marginalização que lhe tentou ser imposta desde sua permanência no “spaghetti” e também, como conseqüência, a imagem do caubói eterno; talvez o único que tenha sobrepujado o velho “Duke” neste tipo de papel.
Mas não, Clint foi adiante, afirmando-se como realizador e mostrando uma perícia e sensibilidade muito grandes. Talvez até porque soubesse atirar muito bem (rs).
Mas com esperança no futuro...

Stela B. de Almeida disse...

Viva o humor do Jonga.
Assisti ontem, terça-feira, o filme A troca. Hoje, após ler algumas críticas, em especial o argumentado texto do Professor André Staro no Terra magazine, ouso discordar. Parece-me que um dos elementos chaves do filme, além de expor as cumplicidades entre política e psiquiatria, é, também, incursionar pelas afinidades_o mal absoluto com dimensões humanas_entre o serial killer e a protagonista. Hannha Arendt sabia como ninguém analisar essas afinidades.

Stela B. de Almeida disse...

errata: leia-se ontem, segunda-feira.