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Foto: Via Campesina em passeata na Rio+20
Junho/2012
quarta-feira, 27 de junho de 2012
sexta-feira, 8 de junho de 2012
Sistema Público de Radiodifusão
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Considerações acerca do sistema público de radiodifusão (1)
O sistema público de radiodifusão aparece na Constituição Federal de 88 ao lado dos antigos sistemas privado e estatal, dos quais temos referência nas constituições anteriores, nas leis ordinárias, decretos, normas, editais e outros procedimentos administrativos. O Brasil, a partir de então, organiza seu modelo de radiodifusão em três sistemas distintos em características e funções sociais. Porém, supõe-se harmoniosamente reunidos, se complementando, de modo que a natureza pública da comunicação prevaleça indistintamente e lhes dê sentido. Este novo sistema é em essência oposto ao privado, porém, distinto do estatal.
Há quem afirme com propriedade, que em razão da natureza e modo de produção social capitalista, sob os quais a sociedade brasileira historicamente se estrutura, as políticas públicas e as ações do Estado tendem a ser modeladas por valores e interesses privados, sejam econômicos, políticos ou religiosos. Assim, a natureza pública da comunicação e a regulação dos sistemas público-estatal e público societário, instituídos na Constituição de 88, tendem a ser desfigurados, incorporando mecanismos burocráticos e políticos que impedem a sua execução, e as poucas emissoras públicas são pressionadas a adotarem práticas privadas. Após 18 anos da promulgação da Constituição Brasileira, ainda não foram regulados os sistemas estatal e público. Entretanto, as legislações do sistema privado são atualizadas, ampliando privilégios, mantendo monopólios e oligopólios, inclusive premiando as empresas e instituições detentoras das concessões analógicas de televisão com a outorga de canais digitais.
Sabemos que a comunicação é um bem público – em tese, para uso universal pelas populações das comunidades e do território nacional – um dever do estado e direito de todos. Mas a noção histórica de público após 88 ganha uma nova vertente: a instituição do sistema público distinto do estatal. Públicos em natureza, propriedade, gestão e conteúdos, estes sistemas se diferenciam. No sistema público não estatal, as ondas de rádio de sons e imagens, entendidas como bem público universal, são de propriedade e gestão do conjunto dos indivíduos, grupos e instituições da sociedade. Já no sistema estatal, tradicionalmente consagrado como público, destinado a todos indistintamente, a gestão deste e de todos os seus serviços deve ser democrática, onde União, Estados e Municípios partilham com instituições da sociedade civil a condução das políticas, respeitando os beneficiários como cidadãos, jamais como clientela. Não se concebe como eticamente legítima a transferência da gestão de uma instituição pública, mantida pelo estado, nem mesmo na forma de fundação de direito privado (terceirização da gestão administrativa), praticada pelos dirigentes neoliberais nas últimas décadas, no país, na área da radiodifusão educativa. O mundo dos negócios faz parte do sistema privado da comunicação, jamais dos sistemas estatal de gestão democrática ou do público de gestão comunitária.
Seja nos tempos do regime de força de Getúlio ou dos militares de 64, na transição democrática de Sarney, na fase neoliberal de Collor a Fernando Henrique ou populista de Lula, grupos privilegiados dominantes se utilizam dos mecanismos do poder de estado para a legitimação de seus atos, interesses ou um grande negócio como se nada de anormal ocorresse. O Estado sempre esteve pronto para reproduzir o sistema privado de radiodifusão. A primeira TV no país – a Nacional –, em 1950, logo se desfez para que os Diários Associados, o “pioneiro”, inaugurasse em 1951 uma televisão privada.
No início dos anos 80, o modelo de estado configurado na ditadura militar dava sinais de crise. A presença dos militares no poder como mecanismo de controle sobre a maioria da sociedade entrava em conflito com os anseios das oligarquias políticas regionais e seus partidos. O regime do arbítrio não podia mais conter as greves operárias e as manifestações populares e da sociedade civil. As oposições partidárias cresciam nos estados e passavam a espelhar seus conteúdos na imprensa regional, apesar dos aparatos repressivos. Abria-se uma janela para que a luta pela democratização da sociedade e das estruturas de estado se espalhasse pelo país. As diretas já ganharam as ruas, pautaram a imprensa e as discussões acadêmicas e estimularam a formação de uma frente nacional por políticas públicas democráticas na área das comunicações. Ao assegurar no texto constitucional mecanismos de participação social e de elaboração de projetos de iniciativa popular, surgia o sistema público de radiodifusão, onde a propriedade, gestão e produção de conteúdos das comunidades eram concebidas como uma vertente nova da gestão pública do bem comum no campo da comunicação no país.
No contexto político atual, da passagem do primeiro para o segundo mandato do governo Lula, há uma quebra de braço com a chamada “grande mídia conservadora”. Mas as relações entre o governo e o mundo da mídia regional e nacional se restabelecem na continuidade do modelo de governabilidade adotado, fruto de uma conciliação de interesses entre estado, partidos e empresas. Constitui grande desafio para os movimentos sociais na luta pela democratização da comunicação, superar diferenças entre grupos e classes sociais, traçar uma compreensão clara do cenário político e então (re) definir estratégias e táticas para construir uma outra comunicação, fundada no estatuto da igualdade. Nesta perspectiva, devemos priorizar a regulação dos sistemas público e estatal de modo a garantir o exercício do direito coletivo e difuso da comunicação, com emissoras de rádio e televisão digitais societárias numa convergência técnica com as redes comunitárias sem fio de telefone e internet de acesso universal, públicas, gratuitas ou de baixo custo, numa complementaridade com um sistema estatal democratizado na sua gestão administrativa e política.
(1) Jonicael Cedraz de Oliveira. Professor de Comunicação da UFBA, Coordenador Executivo do FNDC-BA e da ABRAÇO-BA. Membro da coordenação colegiada da Sociedade Civil Acauã mantenedora da radio comunitária acauã. Presidente do COMPOP-Conselho de Comunicação e Políticas Públicas da Metrópole de Salvador. Autor de artigos diversos sobre comunicação.
P.S.
Sempre que encontro Jonicael, o tema das Rádios Comunitárias e do seu importante papel no sistema público da radiodifusão predomina na conversa. Buscando continuar o papo, propus então que ele me enviasse um texto sobre o tema, deste modo manteríamos o diálogo que tanto estimula e alimenta o trabalho deste militante ativista dedicado a causa.
O texto enviado, após nossa participação no 3º Encontro Nacional de Blogueiros, Salvador-Bahia em maio de 2012, mostra a necessidade de se priorizar a regulação dos sistemas público e estatal de modo a garantir o exercício do direito coletivo e difuso da comunicação, com emissoras de rádio e televisão digitais societárias, dentre outros. Tema que interessa a todos (as) que lutam pela democratização das mídias.
Adicionei uma foto nossa no 3º Encontro Nacional de Blogueiros. Estamos todos de frente para uma das mesas concorridas do evento, fiquei a anotar tudo através de um netbook e Jonicael ao lado falando pelos cotovelos. Valeu Joni!
domingo, 3 de junho de 2012
Pioneiros do Cinema Africano
Texto elaborado para debate no Seminário de História, abril de 2012.
SOULEYMANE CISSÉ e YEELEN, 1987 (1)
1. O espectador comum e a linguagem cinematográfica.
Souleymane Cissé representa uma geração dos primeiros filmmakers africanos e é, também, um dos mais celebrados realizadores africanos nos últimos tempos. Produziu uma filmografia que vem aos poucos sendo discutida pela vanguarda cultural contemporânea e principalmente, os organismos internacionais voltados para os direitos humanos. Yeelen, seu filme de 1987, recebeu prêmio no Festival de Cannes.
A importância da sua obra encontra-se registrada nos principais festivais internacionais de cinema, valendo destacar, o FESPACO_Festival Panafricain du Cinéma et de la Télèvision ( cf. Catalogue Officiel) os festivais internacionais Afrika Filfestival realizados na Bélgica( cf. Leuven www,afrikafilmfestival.be) e o Festival de Cinéma Africain em Tarifa, Espanha, dentre outros(2).
É bastante comum que a maioria das pessoas assista filmes apenas pela história da película, poucos estão voltados para o valor das imagens enquanto construção de narrativas que se expressam pela capacidade do realizador articular os elementos lingüísticos próprios da arte do filme. Cada película expressa uma linguagem que constrói uma narrativa imprimindo uma especificidade cinematográfica às imagens em movimento. O cinema, antes de tudo, é uma linguagem com semântica e sintaxe, elos de uma gramática cinematográfica.
Os elementos fundamentais deste processo_ e o realizador precisa saber articulá-los se quiser obter força expressiva na narrativa que pretende comunicar/transmitir na sua realização _são, dentre os principais: a planificação, os movimentos de câmera, a angulação e a montagem. A montagem foi no passado considerado como a expressão máxima da arte do filme. Há, portanto, uma arte no processo de criação cinematográfica, uma estética na constituição da obra cinematográfica (3).
No mundo moderno, ainda que não mais com a primazia do passado, podem-se observar as tomadas demoradas de câmara de Michelangelo Antonioni, a profundidade de campo de Orson Welles, a montagem dos filmes de Serguei Eisenstein_O Encouraçado Potemkin, Outubro_, para citar apenas estes_ e a fotografia como suporte que ajuda a compor e definir o estilo. Em Bernardo Bertolucci, por exemplo, o diretor e o iluminador trabalham numa co-autoria que transforma o filme numa peça literária. A cenografia, a parte sonora, os ruídos, os diálogos, a música, são determinantes na expressão cinematográfica, criando uma linguagem de força e definição do estilo. Em tempos de mundialização, globalização, estas escolas e estilos passaram por permanentes e demolidoras transformações da arte cinematográfica moderna.
Para a literatura, a expressão se faz pelas palavras, pelos signos, para o teatro, além do texto a presença física dos atores, a cenografia e os efeitos de iluminação compõem o cenário, para o cinema, os recursos do teatro e da literatura são importantes, ainda há um recurso próprio de grande importância que é a variação do ponto do espaço onde são fotografadas as imagens exibidas na tela. Toda cena de um filme é formada por muitos instantâneos vistos de diferentes perspectivas que são denominados de planos. Chama-se variação do ângulo visual essa particularidade do cinema, esta é a base da linguagem e determina a sua especificidade.
No cinema, diferentemente do teatro, o espectador vê a cena de muitos modos diferentes porque a câmera cinematográfica se encarrega de mudar de ângulo, de lugar, o que significa dizer que o espectador vê o filme por intermédio da câmara. Tudo que ele vê na tela –no enquadramento- é o que se encontra no campo visual abarcado pela objetiva da câmara. As tomadas de cena são escolhas de fragmentos da realidade recortadas através de enquadramentos, fixando uma parcela maior ou menor no quadro visual. No filme, o quadro fílmico é a área do fotograma.
“(...) Na operação de filmagem, o campo da objetiva e, na projeção, a superfície da tela, conforme a câmera fique mais próxima ou mais distante ou mais inclinada ou mais à direita, têm-se, no seu visor e depois na tela diferentes aspectos ou realidades profílmica. A mais simples das cenas é vista como uma articulação de diversos instantâneos, filmado de diversos ângulos e mostrando aspectos da realidade profílmica, instantâneos que são, precisamente, os planos, os quais possibilitam a extraordinária variedade de pontos de vista oferecida pelo cinema.” in: Escritos sobre Cinema.
Em Souleymane Cissé, especificamente em Yeelem, há uma intenção de nos aproximar de um legado da cultura africana em que a realização de uma narrativa sobre uma imagética construída sobre a África subsaariana, além de nos oferecer uma concepção inventiva, que nos evoca ao domínio construído pelo realizador africano, cria condições de participação do seu universo onírico e emblemático. A câmara trabalha em planos panorâmicos e algum close dos personagens em cena demonstra que não há pressa nos movimentos, seus gestos, expressões, dizeres em linguagem bambara, parece nos querer aproximar desta cultura. Há uma ênfase grande em símbolos e figuras emblemáticas bambara que nos leva a querer conhecer mais da cultura e vida africana. O fogo, a água, a terra, o sol, elementos que compõem o universo de imagens e que se dispõe a comunicar e transmitir uma mensagem. Baseado numa história milenar, o autor busca mostrar o processo de iniciação de um jovem que amaldiçoado pelo pai pretende encontrar seu caminho.
2. SOULEYMANE CISSÉ e Yeelen
A filmografia de Souleymane Cisse encontra-se, ainda, em construção. Há possibilidade de consulta aos seus mais conhecidos filmes, principalmente no youtube, e em grande parte, nos sites das distribuidoras de filmes. Entre outros, por exemplo, a Amazon oferece um cardápio para aquisição de alguns dos seus filmes. As consultas requerem o domínio da língua inglesa e francesa, embora os filmes apresentem legendas em cinco línguas do vernáculo, inclusive português. Da enciclopédia livre, a Wikipédia, aos sites de distribuições de filmes dentre os quais os mais completos bancos de dados sobre cinema - por exemplo, o movie database IMDb -, o trabalho de Souleymane Cissé, tem merecido elogiosas referências.
Sua biografia apesar de encontrar-se na maioria dos sites que foram consultados, oferece dados sumários sobre a sua origem, formação e filmografia básica. Souleymane Cisse nasceu em 21 de abril de 1940, em Bamako, Mali. Sua paixão pelo cinema desde a infância é um dado recorrente em quase todos os dados encontrados. Estudou Filosofia e Cinema na escola de cinema de Moscou. De volta a Mali trabalhou no Ministério da Informação e realizou vários filmes com temáticas da atualidade e alguns documentários. De uma maneira geral, essas informações disponibilizadas aos leitores não acrescentam mais, além de algumas poucas fotos, geralmente em eventos internacionais. Souleymane Cissé tem hoje 72 anos e produziu mais de doze filmes, alguns dos quais mereceram prêmios em festivais, sendo o mais conhecido no Festival de Cannes, em 1987.
Para maior visibilidade de sua produção, o quadro a seguir oferece dados ainda que incompletos. Para maior detalhamento, pode-se contar com referências da enciclopédia de cinema, cf. http://cinema.encyclopedie.
1968 L’Aspirant (short film)
1968 Source dinspiration (short film)
1970 Degal à Dialloubé
1971 Fête du Sanké
1972 Cinq jours d’une vie ( Five days in a Life)
Premiado em Carathage Film Festival. Tema da juventude e da vagabundagem.
1975 L’homme et ses idoles ( short film)
1975 Den muso(La Fille/The Girl).
Seu primeiro longa-metragem em língua bambara, primeiro no festival internacional de Carthage, interditado pelas autoridades. Foi banido pelo Malian Ministre of Culture por ter aceitado French foundations.
1975_1978 Baara (Le Travail/Work)
Recebeu prêmio FESPACO
1978 Chanteurs traditionnels des lles Seychelles
1982 Finye( Le Vent)
1987 Yellen(La Lumiére/Light).
Recebeu o Jury Prize no Cannes Film Festival.
1987_1995 Waati (Time). Recebeu a Palme d’Or em Cannes Film Festival.
2009 Tell me who are you
Fonte: Levantamento em sites na internet acessados em abril de 2012 e obras sobre cinema africano. Ver relação de endereços nas notas finais.
Como assinalamos anteriormente, Cissé é, sobretudo, um grande poeta e um extraordinário contador de histórias, que vem apresentando um papel no reconhecimento da África pela via do cinema. A maioria dos sites internacionais consultados, principalmente os organismos voltados para os direitos humanos (UNESCO, entre outras) e outras organizações voltadas para a difusão e divulgação da cultura, mencionam o valor e importância das suas realizações no mundo contemporâneo.
3. YELLEN (La Lumiére, 1987; A Luz, 1987)
A ficha técnica oferecida por um dos mais consultados bancos de dados da internet IMDb, informa que Yellen foi produzido com apoio dos seguintes países: Mali/Burkina Faso/França/Alemanha Oriental/Reino Unido. A intensidade e variedade do apoio são informações ainda não encontradas. Contudo, pela quantidade de sites e eventos promovidos no âmbito dos países francófonos podemos supor de que a França tem relevo. Tem como tempo de duração, 01h45min minutos. As sinopses encontradas assinalam a temática em foco, com algumas variações de ênfase e leituras consideradas básicas(4).
1. Um olhar sobre A LUZ.
A abertura do filme emite um enunciado que requer atenção, acompanhado de uma trilha sonora especial, lê-se:
o calor
faz o fogo
e os dois mundos ( terra e céu)
existem na luz
YEELEM (A LUZ)
o Komo é para os bambaras
a encarnação do saber divino
seus ensinamentos estão baseados
no conhecimento dos signos
e dos tempos e dos mundos
abarca todos os campos da vida e de saber
o Kore é a sétima e última sociedade de iniciação bambara
seu símbolo é o abutre sagrado
ave de espaços abertos, da casa, da guerra, do saber e da morte
seu emblema é o carvalho de madeira
símbolo da diligência do espírito humano
seu centro, uma tábua lavrada chamada Kore “Kaman”
ou a asa do Koré
o Kolonkallam ou o martelo mágico serve para encontrar o que se perdeu
a asa do Koré é usada em Mali há milhares de ano
Os signos e os símbolos são recorrentes: o galo em sacrifício, a criança e a cabra, o banho em leite na lagoa, o fetiche no pescoço, e muitos e muitos outros, apresentados no filme.
Os planos do filme estão repletos de significados e símbolos, entre eles: o feiticeiro e suas invocações_ visões que aparecem na água_ os pedidos de proteção para o filho_ aparições que prognosticam um bom destino_ os poderes e forças da magia_ os seres da mata_ a imitação do canto dos pássaros e berros da cabra_ são, entre outros planos do filme eivados de significados e interpretações.
O filme enuncia uma evocação à cultura Mali de milhares e milhares de anos. Filme instigante e provocador que requer várias sessões para uma possível aproximação da cinematografia de um africano da dimensão de Souleymane Cissé.
Notas:
1. Breves comentários para discussão após a sessão do filme Yeelen (A Luz), 1987. Seminário Temático em História. FFCH/UFBA. Prof. Valdemir Zamparoni. Abril de 2012. Por: Stela Borges de Almeida http://www.stelalmeida.blogspot.com/
2. FESPACO. Festival Panafricain du Cinéma et de la Télévision de Ouagadougou. Catalogue Officiel; Festival de Cine Africano, Tarifa –Cádiz, España; Festival Cinema Africano D’Asia e America Latina, Milano; Afrika Filmfestival, Leuven. Os catálogos destes festivais foram cedidos pela Jornada Internacional de Cinema da Bahia para consulta e pesquisa.
3. Para detalhamento, consultar: Escritos sobre cinema: trilogia de um tempo crítico. Salvador: EDUFBA: Azouge Editorial, 2010.
4. Sites visitados para consulta, acessados em abril de 2012.
http://en.wikipedia.org/wiki/Souleymane_Ciss%C3%A9
http://www.imdb.com/title/tt0094349/
http://www.fipresci.org/world_cinema/south/south_english_african_cinema_souleymane_cisse.htm
http://www.forum-avignon.org/en/who-souleymane-cisse
http://www.unesco.org/en/2010-international-year-for-the-rapprochement-of-cultures/high-panel-on-peace-and-dialogue-among-cultures/composition-of-the-high-panel-of-18-february-2010/souleymane-cisse/
http://hcl.harvard.edu/hfa/films/2001novdec/cisse.html
http://cinema.encyclopedie.personnalites.bifi.fr
Salvador, abril de 2012.
Stela Borges de Almeida stelaborges@uol.com.br.
SOULEYMANE CISSÉ e YEELEN, 1987 (1)
1. O espectador comum e a linguagem cinematográfica.
Souleymane Cissé representa uma geração dos primeiros filmmakers africanos e é, também, um dos mais celebrados realizadores africanos nos últimos tempos. Produziu uma filmografia que vem aos poucos sendo discutida pela vanguarda cultural contemporânea e principalmente, os organismos internacionais voltados para os direitos humanos. Yeelen, seu filme de 1987, recebeu prêmio no Festival de Cannes.
A importância da sua obra encontra-se registrada nos principais festivais internacionais de cinema, valendo destacar, o FESPACO_Festival Panafricain du Cinéma et de la Télèvision ( cf. Catalogue Officiel) os festivais internacionais Afrika Filfestival realizados na Bélgica( cf. Leuven www,afrikafilmfestival.be) e o Festival de Cinéma Africain em Tarifa, Espanha, dentre outros(2).
É bastante comum que a maioria das pessoas assista filmes apenas pela história da película, poucos estão voltados para o valor das imagens enquanto construção de narrativas que se expressam pela capacidade do realizador articular os elementos lingüísticos próprios da arte do filme. Cada película expressa uma linguagem que constrói uma narrativa imprimindo uma especificidade cinematográfica às imagens em movimento. O cinema, antes de tudo, é uma linguagem com semântica e sintaxe, elos de uma gramática cinematográfica.
Os elementos fundamentais deste processo_ e o realizador precisa saber articulá-los se quiser obter força expressiva na narrativa que pretende comunicar/transmitir na sua realização _são, dentre os principais: a planificação, os movimentos de câmera, a angulação e a montagem. A montagem foi no passado considerado como a expressão máxima da arte do filme. Há, portanto, uma arte no processo de criação cinematográfica, uma estética na constituição da obra cinematográfica (3).
No mundo moderno, ainda que não mais com a primazia do passado, podem-se observar as tomadas demoradas de câmara de Michelangelo Antonioni, a profundidade de campo de Orson Welles, a montagem dos filmes de Serguei Eisenstein_O Encouraçado Potemkin, Outubro_, para citar apenas estes_ e a fotografia como suporte que ajuda a compor e definir o estilo. Em Bernardo Bertolucci, por exemplo, o diretor e o iluminador trabalham numa co-autoria que transforma o filme numa peça literária. A cenografia, a parte sonora, os ruídos, os diálogos, a música, são determinantes na expressão cinematográfica, criando uma linguagem de força e definição do estilo. Em tempos de mundialização, globalização, estas escolas e estilos passaram por permanentes e demolidoras transformações da arte cinematográfica moderna.
Para a literatura, a expressão se faz pelas palavras, pelos signos, para o teatro, além do texto a presença física dos atores, a cenografia e os efeitos de iluminação compõem o cenário, para o cinema, os recursos do teatro e da literatura são importantes, ainda há um recurso próprio de grande importância que é a variação do ponto do espaço onde são fotografadas as imagens exibidas na tela. Toda cena de um filme é formada por muitos instantâneos vistos de diferentes perspectivas que são denominados de planos. Chama-se variação do ângulo visual essa particularidade do cinema, esta é a base da linguagem e determina a sua especificidade.
No cinema, diferentemente do teatro, o espectador vê a cena de muitos modos diferentes porque a câmera cinematográfica se encarrega de mudar de ângulo, de lugar, o que significa dizer que o espectador vê o filme por intermédio da câmara. Tudo que ele vê na tela –no enquadramento- é o que se encontra no campo visual abarcado pela objetiva da câmara. As tomadas de cena são escolhas de fragmentos da realidade recortadas através de enquadramentos, fixando uma parcela maior ou menor no quadro visual. No filme, o quadro fílmico é a área do fotograma.
“(...) Na operação de filmagem, o campo da objetiva e, na projeção, a superfície da tela, conforme a câmera fique mais próxima ou mais distante ou mais inclinada ou mais à direita, têm-se, no seu visor e depois na tela diferentes aspectos ou realidades profílmica. A mais simples das cenas é vista como uma articulação de diversos instantâneos, filmado de diversos ângulos e mostrando aspectos da realidade profílmica, instantâneos que são, precisamente, os planos, os quais possibilitam a extraordinária variedade de pontos de vista oferecida pelo cinema.” in: Escritos sobre Cinema.
Em Souleymane Cissé, especificamente em Yeelem, há uma intenção de nos aproximar de um legado da cultura africana em que a realização de uma narrativa sobre uma imagética construída sobre a África subsaariana, além de nos oferecer uma concepção inventiva, que nos evoca ao domínio construído pelo realizador africano, cria condições de participação do seu universo onírico e emblemático. A câmara trabalha em planos panorâmicos e algum close dos personagens em cena demonstra que não há pressa nos movimentos, seus gestos, expressões, dizeres em linguagem bambara, parece nos querer aproximar desta cultura. Há uma ênfase grande em símbolos e figuras emblemáticas bambara que nos leva a querer conhecer mais da cultura e vida africana. O fogo, a água, a terra, o sol, elementos que compõem o universo de imagens e que se dispõe a comunicar e transmitir uma mensagem. Baseado numa história milenar, o autor busca mostrar o processo de iniciação de um jovem que amaldiçoado pelo pai pretende encontrar seu caminho.
2. SOULEYMANE CISSÉ e Yeelen
A filmografia de Souleymane Cisse encontra-se, ainda, em construção. Há possibilidade de consulta aos seus mais conhecidos filmes, principalmente no youtube, e em grande parte, nos sites das distribuidoras de filmes. Entre outros, por exemplo, a Amazon oferece um cardápio para aquisição de alguns dos seus filmes. As consultas requerem o domínio da língua inglesa e francesa, embora os filmes apresentem legendas em cinco línguas do vernáculo, inclusive português. Da enciclopédia livre, a Wikipédia, aos sites de distribuições de filmes dentre os quais os mais completos bancos de dados sobre cinema - por exemplo, o movie database IMDb -, o trabalho de Souleymane Cissé, tem merecido elogiosas referências.
Sua biografia apesar de encontrar-se na maioria dos sites que foram consultados, oferece dados sumários sobre a sua origem, formação e filmografia básica. Souleymane Cisse nasceu em 21 de abril de 1940, em Bamako, Mali. Sua paixão pelo cinema desde a infância é um dado recorrente em quase todos os dados encontrados. Estudou Filosofia e Cinema na escola de cinema de Moscou. De volta a Mali trabalhou no Ministério da Informação e realizou vários filmes com temáticas da atualidade e alguns documentários. De uma maneira geral, essas informações disponibilizadas aos leitores não acrescentam mais, além de algumas poucas fotos, geralmente em eventos internacionais. Souleymane Cissé tem hoje 72 anos e produziu mais de doze filmes, alguns dos quais mereceram prêmios em festivais, sendo o mais conhecido no Festival de Cannes, em 1987.
Para maior visibilidade de sua produção, o quadro a seguir oferece dados ainda que incompletos. Para maior detalhamento, pode-se contar com referências da enciclopédia de cinema, cf. http://cinema.encyclopedie.
1968 L’Aspirant (short film)
1968 Source dinspiration (short film)
1970 Degal à Dialloubé
1971 Fête du Sanké
1972 Cinq jours d’une vie ( Five days in a Life)
Premiado em Carathage Film Festival. Tema da juventude e da vagabundagem.
1975 L’homme et ses idoles ( short film)
1975 Den muso(La Fille/The Girl).
Seu primeiro longa-metragem em língua bambara, primeiro no festival internacional de Carthage, interditado pelas autoridades. Foi banido pelo Malian Ministre of Culture por ter aceitado French foundations.
1975_1978 Baara (Le Travail/Work)
Recebeu prêmio FESPACO
1978 Chanteurs traditionnels des lles Seychelles
1982 Finye( Le Vent)
1987 Yellen(La Lumiére/Light).
Recebeu o Jury Prize no Cannes Film Festival.
1987_1995 Waati (Time). Recebeu a Palme d’Or em Cannes Film Festival.
2009 Tell me who are you
Fonte: Levantamento em sites na internet acessados em abril de 2012 e obras sobre cinema africano. Ver relação de endereços nas notas finais.
Como assinalamos anteriormente, Cissé é, sobretudo, um grande poeta e um extraordinário contador de histórias, que vem apresentando um papel no reconhecimento da África pela via do cinema. A maioria dos sites internacionais consultados, principalmente os organismos voltados para os direitos humanos (UNESCO, entre outras) e outras organizações voltadas para a difusão e divulgação da cultura, mencionam o valor e importância das suas realizações no mundo contemporâneo.
3. YELLEN (La Lumiére, 1987; A Luz, 1987)
A ficha técnica oferecida por um dos mais consultados bancos de dados da internet IMDb, informa que Yellen foi produzido com apoio dos seguintes países: Mali/Burkina Faso/França/Alemanha Oriental/Reino Unido. A intensidade e variedade do apoio são informações ainda não encontradas. Contudo, pela quantidade de sites e eventos promovidos no âmbito dos países francófonos podemos supor de que a França tem relevo. Tem como tempo de duração, 01h45min minutos. As sinopses encontradas assinalam a temática em foco, com algumas variações de ênfase e leituras consideradas básicas(4).
1. Um olhar sobre A LUZ.
A abertura do filme emite um enunciado que requer atenção, acompanhado de uma trilha sonora especial, lê-se:
o calor
faz o fogo
e os dois mundos ( terra e céu)
existem na luz
YEELEM (A LUZ)
o Komo é para os bambaras
a encarnação do saber divino
seus ensinamentos estão baseados
no conhecimento dos signos
e dos tempos e dos mundos
abarca todos os campos da vida e de saber
o Kore é a sétima e última sociedade de iniciação bambara
seu símbolo é o abutre sagrado
ave de espaços abertos, da casa, da guerra, do saber e da morte
seu emblema é o carvalho de madeira
símbolo da diligência do espírito humano
seu centro, uma tábua lavrada chamada Kore “Kaman”
ou a asa do Koré
o Kolonkallam ou o martelo mágico serve para encontrar o que se perdeu
a asa do Koré é usada em Mali há milhares de ano
Os signos e os símbolos são recorrentes: o galo em sacrifício, a criança e a cabra, o banho em leite na lagoa, o fetiche no pescoço, e muitos e muitos outros, apresentados no filme.
Os planos do filme estão repletos de significados e símbolos, entre eles: o feiticeiro e suas invocações_ visões que aparecem na água_ os pedidos de proteção para o filho_ aparições que prognosticam um bom destino_ os poderes e forças da magia_ os seres da mata_ a imitação do canto dos pássaros e berros da cabra_ são, entre outros planos do filme eivados de significados e interpretações.
O filme enuncia uma evocação à cultura Mali de milhares e milhares de anos. Filme instigante e provocador que requer várias sessões para uma possível aproximação da cinematografia de um africano da dimensão de Souleymane Cissé.
Notas:
1. Breves comentários para discussão após a sessão do filme Yeelen (A Luz), 1987. Seminário Temático em História. FFCH/UFBA. Prof. Valdemir Zamparoni. Abril de 2012. Por: Stela Borges de Almeida http://www.stelalmeida.blogspot.com/
2. FESPACO. Festival Panafricain du Cinéma et de la Télévision de Ouagadougou. Catalogue Officiel; Festival de Cine Africano, Tarifa –Cádiz, España; Festival Cinema Africano D’Asia e America Latina, Milano; Afrika Filmfestival, Leuven. Os catálogos destes festivais foram cedidos pela Jornada Internacional de Cinema da Bahia para consulta e pesquisa.
3. Para detalhamento, consultar: Escritos sobre cinema: trilogia de um tempo crítico. Salvador: EDUFBA: Azouge Editorial, 2010.
4. Sites visitados para consulta, acessados em abril de 2012.
http://en.wikipedia.org/wiki/Souleymane_Ciss%C3%A9
http://www.imdb.com/title/tt0094349/
http://www.fipresci.org/world_cinema/south/south_english_african_cinema_souleymane_cisse.htm
http://www.forum-avignon.org/en/who-souleymane-cisse
http://www.unesco.org/en/2010-international-year-for-the-rapprochement-of-cultures/high-panel-on-peace-and-dialogue-among-cultures/composition-of-the-high-panel-of-18-february-2010/souleymane-cisse/
http://hcl.harvard.edu/hfa/films/2001novdec/cisse.html
http://cinema.encyclopedie.personnalites.bifi.fr
Salvador, abril de 2012.
Stela Borges de Almeida stelaborges@uol.com.br.
terça-feira, 29 de maio de 2012
quarta-feira, 16 de maio de 2012
quarta-feira, 9 de maio de 2012
Iêda Marques: lembranceiras, imaginário e realidade.
O livro da fotógrafa Iêda Marques lançado ontem, em noite de autógrafo, no Foyer do Teatro Castro Alves, Salvador-Bahia ao som de cantoria do Grupo Reisado Terno de Ciganas de Caeté-Açu. Um trabalho de longa caminhada pelo Cerrado e Caatinga, Chapada Diamantina-Bahia, retratando comunidades e suas riquezas através de um olhar de sensibilidade, delicadeza e de quem tem um sorriso como marca para enfrentar com coragem e disposição os desafios que atravessam as populações rurais.
Conheci Iêda nos anos oitenta, quando num trabalho de extensão universitária em comunidade periférica de Salvador, tentávamos encontrar melhores acessos e inclusões destas populações. Iêda nos acompanhou em várias reuniões e retratou um grupo de alunos(as) que receberam suas fotos como um presente. Sabiam desde então, que estavam convivendo com um olhar cuidadoso das suas experiências de vida.
Obrigada Iêda pelo convite, pelo prazer do abraço e da amizade e pela chance de compartilhar com as "meninas mambaças" neste encontro dos retratos que mostra a singularidade/diversidade das culturas do sertão, tão aviltadas mas que seguem caminhando.
Iêda Marques: Lembranceiras, imaginário e realidade. Lauro de Freitas: Solisluna Editora, 2012
http://www.iedamarques.com/
sábado, 5 de maio de 2012
Oficina Educação Digital - NEPEA/UFBA
Oficina Experimental de Educação Digital realizada no Espaço Cultural Pierre Verger, abril de 2012. Grupo de professores e alunos em aprendizagem e ensino: Albenia Fonseca, Almir Requião, Isabelle Blengini (Nepea/Ufba), Luciana Oliveira ( Coord. Oficina), Getúlio de Menezes, Stela Borges de Almeida e participantes do Espaço Cultural Pierre Verger.
Nota: O vídeo é experimental e encontra-se ainda sem edição, mostra, entretanto, a disposição do grupo para o trabalho. Para mais informação, consultar site do Espaço Cultural Pierre Verger.
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