Texto elaborado para debate no Seminário de História, abril de 2012.
SOULEYMANE CISSÉ e YEELEN, 1987 (1)
1. O espectador comum e a linguagem cinematográfica.
Souleymane Cissé representa uma geração dos primeiros filmmakers africanos e é, também, um dos mais celebrados realizadores africanos nos últimos tempos. Produziu uma filmografia que vem aos poucos sendo discutida pela vanguarda cultural contemporânea e principalmente, os organismos internacionais voltados para os direitos humanos. Yeelen, seu filme de 1987, recebeu prêmio no Festival de Cannes.
A importância da sua obra encontra-se registrada nos principais festivais internacionais de cinema, valendo destacar, o FESPACO_Festival Panafricain du Cinéma et de la Télèvision ( cf. Catalogue Officiel) os festivais internacionais Afrika Filfestival realizados na Bélgica( cf. Leuven www,afrikafilmfestival.be) e o Festival de Cinéma Africain em Tarifa, Espanha, dentre outros(2).
É bastante comum que a maioria das pessoas assista filmes apenas pela história da película, poucos estão voltados para o valor das imagens enquanto construção de narrativas que se expressam pela capacidade do realizador articular os elementos lingüísticos próprios da arte do filme. Cada película expressa uma linguagem que constrói uma narrativa imprimindo uma especificidade cinematográfica às imagens em movimento. O cinema, antes de tudo, é uma linguagem com semântica e sintaxe, elos de uma gramática cinematográfica.
Os elementos fundamentais deste processo_ e o realizador precisa saber articulá-los se quiser obter força expressiva na narrativa que pretende comunicar/transmitir na sua realização _são, dentre os principais: a planificação, os movimentos de câmera, a angulação e a montagem. A montagem foi no passado considerado como a expressão máxima da arte do filme. Há, portanto, uma arte no processo de criação cinematográfica, uma estética na constituição da obra cinematográfica (3).
No mundo moderno, ainda que não mais com a primazia do passado, podem-se observar as tomadas demoradas de câmara de Michelangelo Antonioni, a profundidade de campo de Orson Welles, a montagem dos filmes de Serguei Eisenstein_O Encouraçado Potemkin, Outubro_, para citar apenas estes_ e a fotografia como suporte que ajuda a compor e definir o estilo. Em Bernardo Bertolucci, por exemplo, o diretor e o iluminador trabalham numa co-autoria que transforma o filme numa peça literária. A cenografia, a parte sonora, os ruídos, os diálogos, a música, são determinantes na expressão cinematográfica, criando uma linguagem de força e definição do estilo. Em tempos de mundialização, globalização, estas escolas e estilos passaram por permanentes e demolidoras transformações da arte cinematográfica moderna.
Para a literatura, a expressão se faz pelas palavras, pelos signos, para o teatro, além do texto a presença física dos atores, a cenografia e os efeitos de iluminação compõem o cenário, para o cinema, os recursos do teatro e da literatura são importantes, ainda há um recurso próprio de grande importância que é a variação do ponto do espaço onde são fotografadas as imagens exibidas na tela. Toda cena de um filme é formada por muitos instantâneos vistos de diferentes perspectivas que são denominados de planos. Chama-se variação do ângulo visual essa particularidade do cinema, esta é a base da linguagem e determina a sua especificidade.
No cinema, diferentemente do teatro, o espectador vê a cena de muitos modos diferentes porque a câmera cinematográfica se encarrega de mudar de ângulo, de lugar, o que significa dizer que o espectador vê o filme por intermédio da câmara. Tudo que ele vê na tela –no enquadramento- é o que se encontra no campo visual abarcado pela objetiva da câmara. As tomadas de cena são escolhas de fragmentos da realidade recortadas através de enquadramentos, fixando uma parcela maior ou menor no quadro visual. No filme, o quadro fílmico é a área do fotograma.
“(...) Na operação de filmagem, o campo da objetiva e, na projeção, a superfície da tela, conforme a câmera fique mais próxima ou mais distante ou mais inclinada ou mais à direita, têm-se, no seu visor e depois na tela diferentes aspectos ou realidades profílmica. A mais simples das cenas é vista como uma articulação de diversos instantâneos, filmado de diversos ângulos e mostrando aspectos da realidade profílmica, instantâneos que são, precisamente, os planos, os quais possibilitam a extraordinária variedade de pontos de vista oferecida pelo cinema.” in: Escritos sobre Cinema.
Em Souleymane Cissé, especificamente em Yeelem, há uma intenção de nos aproximar de um legado da cultura africana em que a realização de uma narrativa sobre uma imagética construída sobre a África subsaariana, além de nos oferecer uma concepção inventiva, que nos evoca ao domínio construído pelo realizador africano, cria condições de participação do seu universo onírico e emblemático. A câmara trabalha em planos panorâmicos e algum close dos personagens em cena demonstra que não há pressa nos movimentos, seus gestos, expressões, dizeres em linguagem bambara, parece nos querer aproximar desta cultura. Há uma ênfase grande em símbolos e figuras emblemáticas bambara que nos leva a querer conhecer mais da cultura e vida africana. O fogo, a água, a terra, o sol, elementos que compõem o universo de imagens e que se dispõe a comunicar e transmitir uma mensagem. Baseado numa história milenar, o autor busca mostrar o processo de iniciação de um jovem que amaldiçoado pelo pai pretende encontrar seu caminho.
2. SOULEYMANE CISSÉ e Yeelen
A filmografia de Souleymane Cisse encontra-se, ainda, em construção. Há possibilidade de consulta aos seus mais conhecidos filmes, principalmente no youtube, e em grande parte, nos sites das distribuidoras de filmes. Entre outros, por exemplo, a Amazon oferece um cardápio para aquisição de alguns dos seus filmes. As consultas requerem o domínio da língua inglesa e francesa, embora os filmes apresentem legendas em cinco línguas do vernáculo, inclusive português. Da enciclopédia livre, a Wikipédia, aos sites de distribuições de filmes dentre os quais os mais completos bancos de dados sobre cinema - por exemplo, o movie database IMDb -, o trabalho de Souleymane Cissé, tem merecido elogiosas referências.
Sua biografia apesar de encontrar-se na maioria dos sites que foram consultados, oferece dados sumários sobre a sua origem, formação e filmografia básica. Souleymane Cisse nasceu em 21 de abril de 1940, em Bamako, Mali. Sua paixão pelo cinema desde a infância é um dado recorrente em quase todos os dados encontrados. Estudou Filosofia e Cinema na escola de cinema de Moscou. De volta a Mali trabalhou no Ministério da Informação e realizou vários filmes com temáticas da atualidade e alguns documentários. De uma maneira geral, essas informações disponibilizadas aos leitores não acrescentam mais, além de algumas poucas fotos, geralmente em eventos internacionais. Souleymane Cissé tem hoje 72 anos e produziu mais de doze filmes, alguns dos quais mereceram prêmios em festivais, sendo o mais conhecido no Festival de Cannes, em 1987.
Para maior visibilidade de sua produção, o quadro a seguir oferece dados ainda que incompletos. Para maior detalhamento, pode-se contar com referências da enciclopédia de cinema, cf. http://cinema.encyclopedie.
1968 L’Aspirant (short film)
1968 Source dinspiration (short film)
1970 Degal à Dialloubé
1971 Fête du Sanké
1972 Cinq jours d’une vie ( Five days in a Life)
Premiado em Carathage Film Festival. Tema da juventude e da vagabundagem.
1975 L’homme et ses idoles ( short film)
1975 Den muso(La Fille/The Girl).
Seu primeiro longa-metragem em língua bambara, primeiro no festival internacional de Carthage, interditado pelas autoridades. Foi banido pelo Malian Ministre of Culture por ter aceitado French foundations.
1975_1978 Baara (Le Travail/Work)
Recebeu prêmio FESPACO
1978 Chanteurs traditionnels des lles Seychelles
1982 Finye( Le Vent)
1987 Yellen(La Lumiére/Light).
Recebeu o Jury Prize no Cannes Film Festival.
1987_1995 Waati (Time). Recebeu a Palme d’Or em Cannes Film Festival.
2009 Tell me who are you
Fonte: Levantamento em sites na internet acessados em abril de 2012 e obras sobre cinema africano. Ver relação de endereços nas notas finais.
Como assinalamos anteriormente, Cissé é, sobretudo, um grande poeta e um extraordinário contador de histórias, que vem apresentando um papel no reconhecimento da África pela via do cinema. A maioria dos sites internacionais consultados, principalmente os organismos voltados para os direitos humanos (UNESCO, entre outras) e outras organizações voltadas para a difusão e divulgação da cultura, mencionam o valor e importância das suas realizações no mundo contemporâneo.
3. YELLEN (La Lumiére, 1987; A Luz, 1987)
A ficha técnica oferecida por um dos mais consultados bancos de dados da internet IMDb, informa que Yellen foi produzido com apoio dos seguintes países: Mali/Burkina Faso/França/Alemanha Oriental/Reino Unido. A intensidade e variedade do apoio são informações ainda não encontradas. Contudo, pela quantidade de sites e eventos promovidos no âmbito dos países francófonos podemos supor de que a França tem relevo. Tem como tempo de duração, 01h45min minutos. As sinopses encontradas assinalam a temática em foco, com algumas variações de ênfase e leituras consideradas básicas(4).
1. Um olhar sobre A LUZ.
A abertura do filme emite um enunciado que requer atenção, acompanhado de uma trilha sonora especial, lê-se:
o calor
faz o fogo
e os dois mundos ( terra e céu)
existem na luz
YEELEM (A LUZ)
o Komo é para os bambaras
a encarnação do saber divino
seus ensinamentos estão baseados
no conhecimento dos signos
e dos tempos e dos mundos
abarca todos os campos da vida e de saber
o Kore é a sétima e última sociedade de iniciação bambara
seu símbolo é o abutre sagrado
ave de espaços abertos, da casa, da guerra, do saber e da morte
seu emblema é o carvalho de madeira
símbolo da diligência do espírito humano
seu centro, uma tábua lavrada chamada Kore “Kaman”
ou a asa do Koré
o Kolonkallam ou o martelo mágico serve para encontrar o que se perdeu
a asa do Koré é usada em Mali há milhares de ano
Os signos e os símbolos são recorrentes: o galo em sacrifício, a criança e a cabra, o banho em leite na lagoa, o fetiche no pescoço, e muitos e muitos outros, apresentados no filme.
Os planos do filme estão repletos de significados e símbolos, entre eles: o feiticeiro e suas invocações_ visões que aparecem na água_ os pedidos de proteção para o filho_ aparições que prognosticam um bom destino_ os poderes e forças da magia_ os seres da mata_ a imitação do canto dos pássaros e berros da cabra_ são, entre outros planos do filme eivados de significados e interpretações.
O filme enuncia uma evocação à cultura Mali de milhares e milhares de anos. Filme instigante e provocador que requer várias sessões para uma possível aproximação da cinematografia de um africano da dimensão de Souleymane Cissé.
Notas:
1. Breves comentários para discussão após a sessão do filme Yeelen (A Luz), 1987. Seminário Temático em História. FFCH/UFBA. Prof. Valdemir Zamparoni. Abril de 2012. Por: Stela Borges de Almeida http://www.stelalmeida.blogspot.com/
2. FESPACO. Festival Panafricain du Cinéma et de la Télévision de Ouagadougou. Catalogue Officiel; Festival de Cine Africano, Tarifa –Cádiz, España; Festival Cinema Africano D’Asia e America Latina, Milano; Afrika Filmfestival, Leuven. Os catálogos destes festivais foram cedidos pela Jornada Internacional de Cinema da Bahia para consulta e pesquisa.
3. Para detalhamento, consultar: Escritos sobre cinema: trilogia de um tempo crítico. Salvador: EDUFBA: Azouge Editorial, 2010.
4. Sites visitados para consulta, acessados em abril de 2012.
http://en.wikipedia.org/wiki/Souleymane_Ciss%C3%A9
http://www.imdb.com/title/tt0094349/
http://www.fipresci.org/world_cinema/south/south_english_african_cinema_souleymane_cisse.htm
http://www.forum-avignon.org/en/who-souleymane-cisse
http://www.unesco.org/en/2010-international-year-for-the-rapprochement-of-cultures/high-panel-on-peace-and-dialogue-among-cultures/composition-of-the-high-panel-of-18-february-2010/souleymane-cisse/
http://hcl.harvard.edu/hfa/films/2001novdec/cisse.html
http://cinema.encyclopedie.personnalites.bifi.fr
Salvador, abril de 2012.
Stela Borges de Almeida stelaborges@uol.com.br.
domingo, 3 de junho de 2012
terça-feira, 29 de maio de 2012
quarta-feira, 16 de maio de 2012
quarta-feira, 9 de maio de 2012
Iêda Marques: lembranceiras, imaginário e realidade.
O livro da fotógrafa Iêda Marques lançado ontem, em noite de autógrafo, no Foyer do Teatro Castro Alves, Salvador-Bahia ao som de cantoria do Grupo Reisado Terno de Ciganas de Caeté-Açu. Um trabalho de longa caminhada pelo Cerrado e Caatinga, Chapada Diamantina-Bahia, retratando comunidades e suas riquezas através de um olhar de sensibilidade, delicadeza e de quem tem um sorriso como marca para enfrentar com coragem e disposição os desafios que atravessam as populações rurais.
Conheci Iêda nos anos oitenta, quando num trabalho de extensão universitária em comunidade periférica de Salvador, tentávamos encontrar melhores acessos e inclusões destas populações. Iêda nos acompanhou em várias reuniões e retratou um grupo de alunos(as) que receberam suas fotos como um presente. Sabiam desde então, que estavam convivendo com um olhar cuidadoso das suas experiências de vida.
Obrigada Iêda pelo convite, pelo prazer do abraço e da amizade e pela chance de compartilhar com as "meninas mambaças" neste encontro dos retratos que mostra a singularidade/diversidade das culturas do sertão, tão aviltadas mas que seguem caminhando.
Iêda Marques: Lembranceiras, imaginário e realidade. Lauro de Freitas: Solisluna Editora, 2012
http://www.iedamarques.com/
sábado, 5 de maio de 2012
Oficina Educação Digital - NEPEA/UFBA
Oficina Experimental de Educação Digital realizada no Espaço Cultural Pierre Verger, abril de 2012. Grupo de professores e alunos em aprendizagem e ensino: Albenia Fonseca, Almir Requião, Isabelle Blengini (Nepea/Ufba), Luciana Oliveira ( Coord. Oficina), Getúlio de Menezes, Stela Borges de Almeida e participantes do Espaço Cultural Pierre Verger.
Nota: O vídeo é experimental e encontra-se ainda sem edição, mostra, entretanto, a disposição do grupo para o trabalho. Para mais informação, consultar site do Espaço Cultural Pierre Verger.
sábado, 28 de abril de 2012
domingo, 22 de abril de 2012
http://cadernodecinema.com.br/blog/ponto-final/
PONTO FINAL DA JORNADA INTERNACIONAL DE CINEMA DA BAHIA
Por Guido Araújo
Atendendo ao convite de Jorge Alfredo para escrever uma matéria para o primeiro número da revista Caderno de Cinema, achei que era oportuno e o melhor espaço para explicar porque estamos chegando ao fim da Jornada Internacional de Cinema da Bahia, após praticamente quatro décadas de existência.
Acredito que a Jornada na sua longa trajetória cumpriu o seu papel como espaço independente de promoção de um cinema cultural, que tinha como destaque principal os valores positivos do ser humano. Apesar de continuar acreditando nos mesmos ideais de chegar um dia, através da luta e trabalho, a um mundo mais humano, mais justo e democrático para todos, acho que cabe agora aos mais jovens prosseguir a caminhada, observando os atuais anseios da sociedade baiana.
Surgida em 1972, num momento difícil da realidade brasileira com o Governo Médici à frente da Ditadura, a Jornada, ainda denominada Baiana de Curta Metragem, chegou despretensiosa, mas já com o espírito de luta como espaço de resistência e promoção do cinema baiano e brasileiro.
Cumprindo o seu primeiro papel ao tirar o meio cinematográfico baiano de estado de letargia de então, um ano depois a Jornada já voltava nordestina, mas com dimensão nacional, para dar início a uma trajetória histórica do cinema brasileiro, com a criação da Associação Brasileira de Documentaristas-ABD, que surgia como primeira entidade cinematográfica brasileira de âmbito nacional. Também tinha início a retomada do movimento cineclubista brasileiro, esmagado pela Ditadura, desde o ano de 1969.
A partir daí, a Jornada foi num crescimento constante, fortalecendo o seu ideário de luta, resistência e promoção do cinema independente internacional, sobretudo da América Latina e das cinematografias dos países que lutavam pela sua afirmação e independência e que, normalmente, não chegavam até o público brasileiro por causa da censura ditatorial.
Finalmente, em 1985, por ocasião da 14ª edição, a Jornada passa a se chamar Internacional de Cinema da Bahia, tendo sido inaugurada no dia 09 de setembro pelo primeiro Ministro da Cultural do Brasil, Prof. Aluísio Pimenta. Naquele momento a Jornada ganhava também o reconhecimento oficial pela sua identidade, o que levaria o cineasta Tuna Espinheira a declarar: “A Jornada é o único festival de cinema do Brasil onde a vedete no ‘set’ de debates é a perspectiva de saída do filme cultural. A Jornada de Cinema da Bahia, hoje transformada em evento internacional do Terceiro Mundo, permanece fiel ao seu lema de sempre POR UM MUNDO MAIS HUMANO.”
Ao longo de todos estes anos, a Jornada trouxe à Bahia grandes mestres do cinema brasileiro e internacional e contou com a expressiva participação dos cineastas baianos. Por ocasião do evento foram no decorrer dos anos mostrados ao público participante novas produções baianas e brasileiras, assim como inúmeros filmes emblemáticos da cinematografia mundial, além de exibir, pela primeira vez no país, algumas produções marcantes de várias partes do mundo. As Jornadas ofereceram também a todos os interessados várias mostras informativas, seminários internacionais, debates e exposições. A partir da 6ª Jornada (1977) começou a ser editado o Jornal da Jornada, uma rica fonte de informações e comentários sobre o evento e sobre a produção independente cinematográfica. Cada Jornada teve o seu Catálogo, informando a programação do Concurso que, na primeira edição foi para os filmes produzidos na Bahia, na segunda os filmes feitos no Nordeste ou sobre o Nordeste, na terceira a produção brasileira que se estendeu a toda a América Latina, ampliando depois o leque das inscrições para o concurso também para os países lusófonos e para os países da língua espanhola, resultando no concurso Afro-ibero-latino-americano. A evolução das tecnologias de comunicação trouxe novos suportes digitais e, ao lado do tradicional concurso de filme, foi criado o concurso de vídeo. O material publicado desde 1972 até 2011 (Jornal da Jornada, Catálogos da programação, Publicações dos seminários em forma de livros ou anais, Catálogos das exposições e registros cinematográficos e digitais) está aí esperando para ser analisado e avaliado pelos pesquisadores interessados em resguardar a memória de um evento que faz parte da história cultural da Bahia e do Brasil.
Do ponto de vista de recursos, a Jornada sempre enfrentou grande dificuldade financeira, em virtude da sua característica de evento independente e eminentemente cultural, mostrando-se avessa aos aspectos comerciais, badalativos e característicos da mediocridade mediática. No período trágico do Governo Collor, o festival esteve seriamente ameaçado, como de resto todo o cinema brasileiro. Nos anos de 1989 e 1990, a falta de recursos levou durante dois anos consecutivos à suspensão da Jornada, o mais antigo evento cinematográfico nas regiões Norte e Nordeste. A organização da Jornada decidiu nesses dois anos substituir o festival por um acontecimento mais simples, mas curto e mais barato: O Simpósio Internacional do Cinema na Defesa do Meio Ambiente. Os filmes exibidos, as palestras e os debates (a grande estrela foi o cacique Raoni, acompanhado do seu sobrinho Megaron) destas duas “pequenas jornadas” mostraram claramente que o cinema é um forte meio de comunicação para denunciar e também para conscientizar a população de todas as faixas etárias dos efeitos danosos que a devastação da natureza pode causar ao nosso planeta.
Contudo, foi dada a volta por cima e desde o início da década 90 do século passado, a Jornada voltou, focalizando assuntos de grande atualidade, como diversas questões ligadas ao meio ambiente (a destruição da camada de ozônio, ameaça da falta de água, o perigo dos agrotóxicos, etc), a problemática dos índios brasileiros, Nordeste e Euclides da Cunha, o caos das cidades, direitos humanos e cidadania. Todos estes temas bastante interessantes para os alunos de vários níveis, desde o primário até o superior. Neste contexto, a Jornada inclusive fez várias programações e exibições acompanhadas de debates em escolas públicas da capital baiana e do interior, assim como nas comunidades de bairro. Houve também apresentação das mostras dos filmes premiados da Jornada tanto na Bahia como em outros estados brasileiros e mesmo no exterior.
Não cabe aqui fazer todo um histórico destes 40 anos da Jornada com suas conquistas, dificuldades, acertos e erros. Manter a Jornada por tanto tempo foi possível graças a algumas instituições e, sobretudo, a várias pessoas, cineastas, críticos, artistas plásticos, pesquisadores, estudantes, professores e componentes da equipe da organização do festival. É o momento de agradecer a esta legião de amigos da Jornada que apoiaram o evento e expressar a profunda saudade pelos inúmeros companheiros que já partiram, mas que estarão sempre presentes na memória de um evento que começou modestamente como baiano e terminou internacional, com forte repercussão sobretudo na América Latina e nos países africanos de fala portuguesa.
Vale a pena ressaltar que em junho próximo o espírito da Jornada será levado ao RIO + 20, apresentando a mostra dos filmes sobre o perigo dos venenos que o Brasil consome através dos agrotóxicos (“O Veneno está na Mesa” de Sílvio Tendler, “Our Daily Poison” de Marie-Monique Robin e “Em busca da Terra sem Veneno” de Noilton Nunes). Estes filmes foram exibidos no ano passado durante a 38ª Jornada, acompanhados de palestras e animadíssimos debates, tendo incentivado o movimento contra o uso exagerado de defensivos agrícolas. O modesto festival baiano poderá mais uma vez contribuir nas ações ligadas às tentativas de garantir a continuidade da existência do nosso Planeta Azul e a humanidade em geral.
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