
A importância de revisitar a obra de Andrei Tarkovski.
Em tempos de velocidade acelerada em busca do consumo e dos prazeres do aqui e agora parece estranho estar-se a deter atenção aos significados e sentidos da obra de um realizador russo que traz em seu background, entre outras contribuições, informações sobre a Rússia do século XV. Diz-se que o muro foi derrubado e que não há interesse em se voltar ao passado, hão de perguntar, então, os mais apressados, da validade de se tecer considerações sobre um cineasta que dedicou sua filmografia a um tempo esquecido.
Não fosse a recente presença de estudos sobre a renovação do pensamento da esquerda e o aparecimento no mercado editorial de produções que contemplam o surgimento de idéias que se contrapõem ao imediatismo do aqui e do agora, além do aparecimento de um conjunto de ações na área cultural voltadas para a reflexão do tempo da memória e reconstrução de contextos históricos e estaríamos a sucumbir frente à liquidez, tudo que é sólido desmancha-se no ar (1).
Refiro-me às inquietantes mensagens de pensadores recentes que tem se destacado pela importância dos seus questionamentos quanto à necessidade de renovação do marxismo como paradigma de significado incomensurável no século vinte, porém, enfatizando a necessidade do reexame do conceito de classe levando em conta outras categorias como gênero, sexo, cor, etnias e valorizando aspectos de uma teoria da subjetividade considerada subsumida ao conceito de produção.
Este é, sabemos, um ponto de extrema polêmica entre os marxistas ortodoxos e os estudiosos culturalistas, enquanto campos em que se confrontam posições e estratégias de intervenção política distintas. Curioso, porém, que um dos representantes da primeira corrente, traga em suas produções recentes, condições de diálogos entre as categorias fundantes do marxismo ortodoxo e de campos mais voltados ao entendimento da cultura. Refiro-me aos ensaios sobre o cinema moderno, tal como apresentado por Slavoj Zizek, no qual a obra de Andrei Tarkovski tem um lugar especial e nos convida a pensar o cinema do passado como uma projeção do futuro, tal como o anjo em Paul Klee (2).
Inspirando-me nesta leitura e nesta tomada, busquei rever a obra de Tarkovski que havia visitado nos anos 70/80 ainda estudante de graduação em Ciências Sociais. Noviça na primeira turma de graduação em 1969, ano em que passei no vestibular da Ufba, assim como o aparecimento do computador para efetivação das primeiras matrículas, tivemos de conviver daí em diante com a tecnologia da “rapidez e velocidade” sem nos dar conta que não mais voltaríamos aos manuscritos que aparecerão tão luminosos no silêncio tarkovskiano (3).
Andrei Tarkovski (1932-1986) nasceu na Rússia. De seu pai encontramos vários poemas que são transmitidos em off em vários dos seus filmes e de sua mãe encontramos metáforas às personagens maternas que são espelhos de histórias repletas de significados e significantes, em sua filmografia. Ainda está por se fazer uma biografia completa de Andrei Tarkovski. Encontramos apenas trechos lacunares rápidos e referências esparsas à sua formação de cineasta em escola de cinema, na Rússia, nos anos 60 e um dossiê sobre o Cinema Revolucionário Soviético, com um conjunto de depoimentos da equipe que participou de alguns dos seus filmes. Estas informações e impressões permitem perceber aspectos da sua biografia com destaque para seus interesses temáticos e escolhas pessoais e de investigações ligadas, predominantemente, ao campo espiritual (4).
Esboço um quadro provisório, mais do que provisório bastante simples, em ordem cronológica, de modo a revisitar sua produção, advertida que as obras estéticas requerem contemplação em profundidade de reflexão, ou seja, a visão da obra tarkovskiana não se esgota na leitura de suas narrativas, requer um trabalho de proximidade da arte poética e filosófica com forte inspiração e questionamentos da existência humana (Cf. em anexo o quadro da filmografia).
Iniciemos pelo fim, o último filme. Em Sua última obra, O Sacrifício (Offret, 1986) nas palavras de Zizek:
O herói de O Sacrifício, Alexander, vive com sua grande família numa cabana remota no campo, na Suécia (outra versão da datcha russa que obceca os heróis de Tarkovski). A celebração de seu aniversário é estragada pela noticia terrível da eclosão de uma guerra nuclear entre as superpotências, como parece indicar a passagem à baixa altitude de aviões a jato. Desesperado, Alexander dirige suas preces a Deus, oferecendo-lhe o que tem de mais precioso para que a guerra não tenha estourado. A guerra é “desfeita” e, no final do filme, Alexander, num gesto de sacrifício, queima sua adorada cabana e é levado ao asilo de loucos.
A temática de um ato puro e absurdo que volta a conferir significado a nossa vida terrena é a questão central do filme, realizado no estrangeiro. O ato de queimar sua casa, o seu bem mais precioso, aquilo que é “para ele mais do que ele próprio”, este gesto de sacrifico evitará que a catástrofe não ocorra, o fim do mundo numa guerra atômica.
Tarkovski tem plena consciência de que um sacrifício, para funcionar e ser eficaz tem de certo modo de ser “desprovido de sentido”, um gesto de entrega ou ritual “irracional” e inútil (como atravessar a piscina vazia com uma vela acesa ou queimar a própria casa). A idéia é que só um gesto espontâneo, um gesto não baseado em qualquer consideração racional, pode restaurar a fé imediata que nos libertará e curará da doença espiritual moderna. O sujeito tarkovskiano oferece aqui, literalmente, sua própria castração (a renúncia à razão e ao domínio, a redução voluntária à “idiotice” infantil, a submissão a um ritual sem sentido) como instrumento para libertar o grande Outro. É como se, só por meio da realização de um ato totalmente absurdo e “irracional”, o sujeito pudesse salvar o Significado global mais profundo do universal enquanto tal.
Para Zizek, a lógica tarkovskiana do sacrifício sem sentido, a questão crucial é que o objeto sacrificado, a casa, a datcha russa, uma casa de madeira que arde no final do filme, representa a segurança e as raízes rurais autênticas do Lar. O Sacrifício reveste-se de pleno significado espiritual de vida.
O que eleva Tarkovski acima de um obscurantismo religioso comum é o fato de ele despojar este ato de sacrifício de qualquer “grandeza” patética e solene, apresentando-o como um ato atrapalhado e ridículo (...) O Sacrifício termina com um bailado cômico de homens que saem correndo da enfermaria em perseguição do herói para levá-lo para o asilo_ a cena é filmada como se tratasse de crianças que estivessem brincando de pega-pega.
Os filmes de Tarkovski são totalmente desprovidos de humor, afirma Zizek. Nos depoimentos que encontramos, até então, descrevem-no como um cineasta excessivamente preocupado com a excelência dos planos e composições estéticas dos cenários, do extremo rigor em acompanhar os cenários e iluminação considerada mais adequada e a preferência pelos sons obtidos com a exploração dos ambientes naturais (5). Não são filmes divertidos, não atendem aos imperativos da velocidade hightech, não se encontram disponíveis nas prateleiras dos blockbusters.
Os filmes de Tarkovski são poemas, mas não apenas poemas, são inquietações que fazem refletir sobre o mundo moderno. Finalizo, por enquanto, com a palavra Zizek e sua curiosa provocação:
O sacrifício é, em última análise, o gesto por meio do qual procuramos compensar a culpa imposta pelo impossível imperativo do superego (...) Nesse contexto, podemos ver em que sentido preciso a problemática dos dois últimos filmes de Tarkovski centrados no sacrifício é falsa e enganadora: embora, sem dúvida nenhuma, o próprio Tarkovski rejeitasse veementemente tal designação, a compulsão sentida pelos últimos heróis tarkovskianos para consumar um gesto sacrificial absurdo é a do superego em seu estado mais puro. A prova definitiva disso reside no caráter “irracional” e absurdo desse gesto_ o superego é uma ordem para fruir e, como diz Lacan na primeira conferência de Mais, ainda (6), a jouissance é, em última análise, aquilo que não serve para nada.
Deixo assim inconcluso o itinerário, para dar lugar no próximo post, ao penúltimo dos seus filmes, Nostalgia.
Notas:
(1) Ver referências em Marshall Berman. Tudo que é sólido desmancha no ar: aventuras da modernidade. São Paulo: Companhia das Letras, 1998. Refiro-me, também, ao último filme do Sílvio Tendler, lançado em abril de 2010, Utopia e Barbárie, que traz um mosaico (ou bricolagem, ou caleidoscópio, se preferem) dos acontecimentos pós-guerra que conformaram uma geração da qual ele representa um testemunho peculiar.
(2) A referência completa do livro do Zizek encontra-se na postagem anterior. Conferir em: http://www.stelalmeida.blogspot.com/
(3) Em 1964, estudante em colégio interno religioso feminino, em Salvador, destinado às famílias de classes médias, tomamos conhecimento do Golpe Militar de 1964 noticiado pelas religiosas, em sala de aula, com o inusitado convite para que as alunas se dirigissem à capela do Sagrado Coração de Jesus para as orações de rotina, havia um clima de temeridade e de falta de informações precisas, não sabíamos que o chumbo grosso estava, ainda, por vir.
(4) O Dossiê Cinema Revolucionário Soviético compõe-se de quatro DVD’s da Continental Home Vídeo, sendo que o número quatro contém o remake do último filme de Tarkovski, O Sacrifício, filmado na Suécia. Os demais apresentam entrevistas e depoimentos de atores e membros da equipe, roteirista, fotógrafo, músico e compositor, enfim, amigos do cineasta que partilharam das dificuldades e êxitos nos processos de filmagens.
(5) No dossiê mencionado, a entrevista com o responsável pela composição musical dos filmes tarkovskianos revela que o cineasta preferia trabalhar mais com o silêncio e os ruídos obtidos nos ambientes da natureza, chegando muitas vezes a descartar trilhas sonoras que haviam custado intensas experimentações, para seu desconserto.
(6) Jacques Lacan. O Seminário, livro 20: Mais ainda. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1996.


