domingo, 22 de fevereiro de 2009

Ponto de Fuga : uma leitura inteligente






















De tudo que lí até agora publicado sobre os filmes da temporada e em cartaz, garanto que não foi pouco, me agrada as antenadas observações e análises do colunista da Folha de São Paulo, Jorge Coli.
O filme Dúvida ainda não chegou no circuito da Província da Bahia, porém apresenta um forte motivo para pensar nas tremendas frases que estamos a ouvir em tempo de carnaval e oscar, ditas por personagens (nem) sempre tão comprometidas como os agentes da fé, sempre defensores das certezas. Continuo na mesma pista, ou seja, trascrever do MAIS, pelo menos por enquanto. A seguir, o texto.

A educação dos preconceitos

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O filme "Dúvida" baseia-se na incerteza de saber se houve uma relação física entre um padre e um aluno; frase tremenda da madre superiora, vivida por Meryl Streep: "Ele é o que eu penso que ele é"
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JORGE COLI
COLUNISTA DA FOLHA

Muitos críticos desdenharam "Dúvida" porque seria "teatro filmado" e não verdadeiro cinema. John Patrick Shanley, o diretor do filme, fez carreira como roteirista e como autor de peças teatrais, o que reforçaria a condenação.
Antes disso, dirigiu apenas um longa-metragem, comédia fantástica, conto filosófico discreto: "Joe Contra o Vulcão". A acusação, porém, é preconceituosa. Parte de definições sumárias, sem se dar conta de que, se funciona na tela, não é teatro.
Shanley tomou o partido de uma narração fluente. Nada de experimental ou de estranho. Como se dirigisse "Os Sinos de Santa Maria", no caso de alguém se lembrar desse delicioso filme de Leo McCarey, estreado em 1945.
Nele, a freira Ingrid Bergman se opunha a Bing Crosby, padre de um colégio religioso.
"Dúvida" quer contar uma história sem complicações, para exaltar as qualidades dos atores. Do jeito que se fazia em outros tempos.
Está nos antípodas de um Almodóvar, que criou, com suas costumeiras surpresas bizarras, "Má Educação" (2004). O núcleo dos dois filmes é o mesmo: laços de atração tecidos entre o padre de um colégio e um aluno.
Apesar de seu espírito transgressor, sua cinematografia extravagante, Almodóvar limitou-se a uma fábula moralista e conservadora. Não insinua nenhuma interrogação. Condena, apenas. Seu padre é culpado e abjeto.
Ao contrário, "Dúvida" denuncia o totalitarismo das certezas. Aponta para a única arma contra as tiranias, os fundamentalismos, os preconceitos os mais arraigados e seguros de si, que necessitam forjar tantos acusados para reafirmarem suas próprias verdades. Essa arma vem desde o início exposta no título.

Catecismo
"Dúvida" baseia-se na incerteza de saber se houve uma relação física entre o padre e o aluno. O filme, porém, logo ultrapassa a discussão sobre a culpabilidade objetiva, que é superficial e jurídica. Interroga, de maneira complexa e fina, além dos fatos, a natureza dessa relação execrada. A questão é sua possibilidade de não ser encarada como, forçosamente, um mal.
O diálogo entre a superiora e a mãe, carregado de intensidade intrincada, é espantoso em tempos maniqueístas como os que atravessamos.

Bruxa
Frase tremenda da madre superiora, vivida por Meryl Streep: "Ele é o que eu penso que ele é".

Pasárgada
História amarga, antiyuppie. O termo é, aqui, anacrônico, já que "Foi Apenas um Sonho" se passa nos anos 1950, mas os yuppies existiram antes de serem nomeados. O filme é de Sam Mendes.
Tem algo em comum com o estilo de "Dúvida": a vontade de, justamente, evitar qualquer estilo e fazer com que os atores, soberbos, sobressaiam.
Pelo tema, faz pensar em "Meu Tio da América", de Alain Resnais (1980). O tio de Resnais é o parente distante e abstrato que permite dizer: quando não aguentar mais, vou lá com ele, recomeçar tudo. Ilusões que ajudam a viver.
Quando desmoronam, a tragédia espreita. Leonardo DiCaprio e Kate Winslet encarnam uma crise interior que denuncia o ideal norte-americano de vida. Põem o paraíso em Paris, uma Paris que poderia libertá-los da mediocridade.
No entanto ela é inalcançável, porque o casal não consegue se desatolar do subúrbio.
Talvez "Foi Apenas um Sonho" traga, junto com "Dúvida", um microscópico vírus indicando nova era e renovação dos tristes valores que imperam neste início de século. Ou talvez tenham apenas levado a uma alucinação otimista.



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jorgecoli@uol.com.br

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

O leitor, 2008












Assisti o filme no Cinemark, Shopping Salvador(1).
A seguir uma apreciação do crítico de cinema Luis Carlos Merten, publicada em seu Blog, 07.02.2009.


O Leitor
por Luiz Carlos Merten, Seção: Cinema 13:18:44.
BERLIM - Ia deletar o post que acrescentei ontem, na corrida, mas resolvi conserva-lo, para os arquivos, como se diz. Prefiro comecar de novo, mesmo num teclado estrangeiro, sem acentos, o que eh sempre um problema para todos, para voces e para mim. Para inicio de conversa, cada vez que lerem eh trata-se da terceira pessoa do singular do presente do verbo ser. Eu sou, tu es, ele eh. Quem leu meu comentario do primeiro dia no Caderno 2, sabe quanto foi decepcionante o thriller de Tom Tykwer que inaugurou a Berlinale de 2009. Para dizer a verdade, o filme - The International, que no Brasil vai se chamar Trama Internacional - nem eh tao ruim, eh apenas o caso do programa errado. Por mais que o diretor art+istico Dieter Kosslick tenha procurado justificar a inclusao do filme fora de concurso, a verdade eh que o ataque de Tykwer ao sistema financeiro - e ao poder dos bancos - nao confere grande atualidade ao que eh um filme de acao um tanto banal, apesar das filmagens ao redor do mundo e de uma cena espetacular no Guggenheim Museum, de Nova York, destruido num tiroteio que nao deixa pedrta sobre pedra. Passado esse primeiro dia, as coisas começaram a encaminhar-se ja no segundo. Gostei de O Leitor, mas o filme de Stephen Daldry passa fora de concurso. Como ja estreou no Brasil, eh possivel que muitos de voces ate ja o tenham visto. Achei muito interessante a historia e suas implicacoes eticas. Daldry e seu roteirista, o dramaturgo David Hare, discutem questoes como a responsabilidade e o afeto. Rakph Fiennes debruça-se sobre o proprio passado e lembra o garoto que foi, tendo um affair com uma mulher mais velkha, quando tinha apenas 15 anos. Estudante de direito, ele vai acompanhar o julgamento dessa mulher, quando ela eh julgada por crimes de guerra, contra os judeus. Cria-se a seguinte situaçao - a personagem eh responsabilizada por uma açao que nao cometeu,m ou que nao poderias ter cometido sozinha, mas que ela assume com vergonha de revelar o seu segredo (que eu nao vou dizer qual eh). O garoto, podendo desfazer o equivoco, nao o faz e essa eh uma sutil maneira de discutir responsabilidades morais. Quando Kate Winslet devolve a pergunta do juiz - o que ele faria, se estivesse no lugar dela, sob o nazismo? -, a interrogaçao fica sem resposta. Nao se trata de buscar uma absolviçao para os crimes do nazismo nem para a conivencia do povo alemao, mas de uma discussao seria, e honesta, sobre responsabilidades individuais e coletivas. Isso fica claro na bela cena em que Ralph Fiennes vai a casa da judia rica, vitima de Kate e para quem ela deixou o dinheiro que ganhou na prisao. A cena eh magnifica, um pouco pela atriz, Lena Olin, mas tambem porque eh muito bem escrito e filmada, mostrando como um simples objeto pode adquirir um valor emocional que dinheiro nenhum vai comprar. Kate Winslet corre ao Oscar de melhor atriz, ela que ganhou, pelo papel, o Globo de Ouro de coadjuvante. Kate eh fantastica, mas usa uma maquiagem para envelhecer que nao convence. Acho que eh, no limite, a unica coisa de nao gosto nesse filme tao bonito. Vejam ai em Sao Paulo e a gente conversa.


Nota:(1) Considero O Leitor um dos melhores filmes que assisti nos últimos meses. Se a crítica do crítico de cinema não demonstra tanta empolgação com o filme, alguns aspectos da temática abordada, a meu ver, passaram chapada em suas observações. O filme além de tratar de temas relevantes como a iniciação sexual de um adolescente com uma trabalhadora analfabeta pertencente a SS nazista, cujo encontro se passa intermediado pela leitura de clássicos universais da literatura, entre eles, Homero em sua Odisséia, os poemas de Ranier Marie Rilke entre outros, fazendo-se acompanhar de livros pueris da literatura infantil, encontros de catarse em que a iniciação se faz para ambos em contraponto, a iniciação da sexualidade para um e a iniciação ao mundo letrado para o outro, num cuidadoso jogo de linguagem cinematográfica, câmera em planos longos e marcantes closes em que os protagonistas espelham seus impulsos, suas tensões.
Não bastasse isso, numa cena, não mais que em uma ou duas cenas, o advogado que tratará de discutir com seus alunos sobre as acusações que prevalescem sobre a trabalhadora pertencente a SS, não é nada mais nada menos do que o ator ( aqui envelhecido, não me recordo o nome agora) que protagonizou o anjo do filme de Win Wenders em Asas do Desejo. Sua aparição, rápida, porém decisiva, leva-nos a retrospectiva de uma memória cinematográfica que não se perde, indescritível.
Bem, o filme tece um debate sobre a ética e valores de uma sociedade nazista em que as ações individualizadas subsumidas em direção ao holocausto e aos comandos de fôrça, estão em julgamento no presente.
Teria muito mais a dizer sobre o filme, mas fico por aqui.
Sobre o desempenho de Kate Winslet, que a julguem os críticos, eu gostei muito.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

Carta do cineasta Sílvio Tendler

















Por considerar mensagens de e-mail recebidas sugerindo-me que repassasse neste Blog a Carta do cineasta Silvio Tendler ao Sr. Ministro Tarso Genro, transcrevo-a a seguir.
No momento acompanho os fatos buscando informar-me com mais detalhes da situação, porém, sempre contra as injustiças que se venham cometer em nome das leis. Em discussão.



Ao Exmo. Sr. Ministro da Justiça Tarso Genro
Ilustre Ministro:

Venho tomar dois minutos de seu precioso tempo que poderão salvar uma vida. Quis o destino que recaísse em seus ombros a decisão que pode salvar o escritor Cesare Battisti dos cárceres italianos.
Não se trata, prezado Ministro, de eludir a lei, mas, sim, de impedir a vingança. Pelo que tenho lido, o processo contra Battisti é montado a partir de enormes falhas que podem punir um inocente para acobertar um culpado.
Lembro os terríveis precedentes de Olga Benário e Elize Ewert, deportadas para um campo de concentração. O final da história, o Sr. conhece bem.
Aliás, amparado pela cidadania, o banqueiro Cacciolla viveu livremente na doce Itália depois do rombo que deixou em nossa economia e pelo qual foi condenado no Brasil, onde cumpre pena. Não foi deportado pela Itália, que ao contrário, lhe protegeu.
Quer a lei que o Sr., em nome do humanitarismo de nosso povo acolhedor, possa decidir pela permanência de Battisti entre nós.
Lembro que temos uma tradição e que já concedemos asilo até mesmo a Georges Bidault, ex-ministro francês envolvido em atentado contra o Presidente Charles De Gaulle e contra a independência da Argélia. Bidault foi aqui acolhido por razões humanitárias pelo Presidente JK. Não vejo porquê um jovem revolucionário que converteu-se em escritor não possa ser salvo pelo Sr., com um gesto de grandeza.
Quantos brasileiros foram, um dia, acolhidos no exterior, salvos das garras de uma ditadura sanguinária que os alcunhava de "terroristas"?
Lembre-se de Olga, Elize Ewert, o casal Rosemberg e de tantas injustiças cometidas em nome das leis. Lembre-se dos dez de Hollywood.
Lembre-se do Caso Dreyfuss e seja Emile Zola. Repudie Felinto Muller, exerça seu Ministério com grandeza e permita que o escritor Cesare Battisti permaneça entre nós.
Atenciosamente,
Silvio Tendler
Cineasta
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sexta-feira, 23 de janeiro de 2009
















Hoje tenho apenas perguntas.
Começarei expondo-as, quem sabe um ponto de partida para movimentar alguns dos complicados paradoxos.

O que é a beleza em uma obra de arte? Arte é um qualificativo que deve ser atribuído a uns poucos filmes ou todos os filmes são obras de arte? Os filmes tem uma vocação natural para o realismo ou para o artifício e a estilização? Há um estilo ideal? Há uma maneira certa de contar uma história? As noçoes de beleza são eternamente verdadeiras ou conformadas pelos valores sociais vigentes? Em que medida a estética é ligada a questões éticas e socias mais amplas? Um travelling, como afirma Godard, é uma questão de moralidade? Filmes fascistas ou racistas como O triunfo da vontade ou Nascimento de uma nação podem ser "obras-primas" em termos artísticos e ao mesmo tempo ser repugnantes em termos éticos-políticos? A arte foi irrevogavelmente modificada por Auschwitz, como sugeriu Adorno?
Há uma Estética com maiúscula, com raízes no pensamento germânico racista, e uma "estética" com minúscula, uma preocupação comum a todas as culturas, com a construção formal de representação do mundo sensível?

Essencias questões estão reunidas nos debates encontrados nos antecedentes da teoria do cinema, discussões que tem aporte na filosofia, na estética, na ética, na lógica, as chamadas ciências normativas dedicadas a estabelecer regras sobre o Belo, o Bom e o Verdadeiro.
Remontar à Poética de Aristóteles, muitas vêzes, vale como um recuo necessário para se compreender os critérios hoje considerados como os piores e/ou melhores e os filmes bola preta, por um constelação de aficcionados à determinada estética do melhor. Ou não?(1).

Nota:
1. Perguntas formuladas tendo como referência o trabalho de Stam,Robert. Introdução à teoria do cinema. Campinas,SP:Papirus, 2003. Coleção Campo Imagético.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

A TROCA















Repetindo um antigo costume, transcrevo o balizado texto publicado em PONTO DE FUGA sobre o filme A TROCA.
(Folha de São Paulo, 18.01.2009).
Em exibição no Espaço Unibanco Glauber Rocha, Salvador-Bahia, além de um lugar para observar a Baía de Todos os Santos, contamos com a análise do Jorge Coli que indica as chaves centrais desta película, uma convicção ética que exclui maniqueísmos. Irei hoje para conferir.


A presença do passado
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O filme "A Troca" expõe a mesma luta individual contra interesses sujos que outros personagens de Eastwood encarnaram, criando afinidades além das convenções
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JORGE COLI
COLUNISTA DA FOLHA


A história é clara, mas o pensamento tão complexo. Nada de conceito teórico, mas uma reflexão intrincada brotando, intuitiva, dentro do filme. A expressão perfeitamente controlada engendra uma força que não se refreia. "A Troca" retoma obsessões que se tecem a partir de tudo que Clint Eastwood filmou.
Alguns críticos tentaram, sem sucesso, enquadrá-lo em um único gênero: film noir, melodrama, policial, filme social, filme político. Ele contém tudo isso para formar outra coisa: uma convicção ética que exclui o maniqueísmo.
Nos anos de 1970, Eastwood fazia vingadores se levantarem contra a ordem social, comandada por poderosos sempre corrompidos até o cerne. O vingador vingava, não para restabelecer uma ordem justa, mas para destruí-la naquilo que estava ao seu alcance. Encontrava refúgio em comunidades de "outsiders", em meio à gente desprezada, mas leal, sincera, verdadeira: basta ver "O Estranho Sem Nome" ou "Josey Wales - O Fora da Lei".
"A Troca" expõe, ela também, a luta individual capaz de enfrentar o complô dos interesses sujos e das mentiras infames. O sonho da comunidade permanece, embora mais tênue e transformado, não mais na antiga utopia comunitária, mas em certas afinidades, algumas éticas, outras mais difíceis de explicar.
A palavra afinidade é uma chave no cinema de Clint Eastwood: significa laços invisíveis, muito poderosos, e para além das convenções. Quem viu não se esquece da cena unindo dois mortos que se amaram e se odiaram, em "Meia-noite no Jardim do Bem e do Mal". Há esse estranho filme, "Dívida de Sangue", em que dois personagens se ligam por razões nada racionais. O assassino abjeto de "A Troca" descobre uma surpreendente sintonia com a heroína, Angelina Jolie.

Carrascos
Os desmandos policiais expostos em "A Troca" são terríveis. O momento no qual, verdadeiro filme dentro do filme, surgem expostas as cumplicidades entre polícia e psiquiatria para abaterem-se com crueldade abjeta sobre as mulheres, é digno do mais alto Foucault. Dirty Harry, personagem do tira durão, machista, matador, que Eastwood interpretou em vários filmes, o primeiro deles dirigido por Don Siegel, ficou bem longe.
"A Troca" mostra suspeitos sendo baleados como num fuzilamento por razões torvas. A cena, que lembra os abates nos campos de concentração nazistas, remete para realidades como os esquadrões da morte, o Bope, e discursos delirantes do atual governador de Mato Grosso do Sul, que manda a polícia esquecer os direitos humanos.

Sinistro
Em "A Troca", Eastwood acusa, mas avança, e ultrapassa a denúncia militante graças ao personagem do serial killer. Ele encarnaria o mal absoluto, se o diretor não lhe tivesse concedido dimensão humana.
Uma cena de execução judicial por enforcamento, descritiva, detalhada, expõe a barbárie da pena de morte como mais um crime cruel e perverso. O prisioneiro, cantando "Noite Feliz", mostra-se, ele próprio, habitado por uma inconsciência infantil. É um formidável momento de cinema. "A Troca" faz pensar no Kieslowski de "Não Matarás", no Chabrol de "O Açougueiro" e, sobretudo, em "M, o Vampiro de Düsseldorf", de Fritz Lang.
Como neste último, a justiça é incapaz de compreender e, sobretudo, de resolver a questão do mal.

Luz
"Sobre Meninos e Lobos", o filme mais pessimista de Eastwood, centra-se, como "A Troca", na violência sobre crianças. Agora, porém, a última palavra é esperança.

jorgecoli@uol.com.br

terça-feira, 13 de janeiro de 2009

Almodóvar e a feminilidade.






















Em 1960, a teoria e a história do cinema tem um assento preponderante nas universidades americanas e uma nova geração de professores de literatura e filosofia, muitos deles cinéfilos, organizaram-se em cursos sobre o ideário humanístico de diretores de cinema, com destaques para Ingmar Bergman, Satyyajit Ray, Akira Kurosawa, entre outros, em que duas escolas de pensamento ganham maior importância: a teoria da subjetividade e a teoria do culturalismo. Em 1970 vai prevalecer na teoria do cinema a influência de áreas do conhecimento que se inspiram nos campos da semiótica, da psicanálise, da análise textual/análise do discurso e estudos do feminismo. É neste campo, mas não só, que o trabalho de Ana Lucilia Rodrigues encontra um ponto de partida para abordar a feminilidade no cinema de Pedro Almodóvar (1).

Pedro Almodóvar e seu cinema vêm se constituíndo um objeto de estudo atual e permanente, desde os circuitos despretensiosos em conversas de bar aos círculos acadêmicos mais sofisticados e dedicados aos estudos de cinema, sua obra vem merecendo aplausos e interesse.

O estudo da Ana Lucilia Rodrigues mostra numa obra selecionada, KIKA, a forma peculiar de Pedro Almodóvar representar a feminilidade e as diferentes estratégias de figuração do feminino tomando como objeto de análise um filme produzido em 1993, e além da analise desta personagem almodovariana oferecer ao leitor um método de abordagem de análise fílmica, tendo o cuidado de advertir dos limites da universalidade metodológica(2). As figuras femininas de Almodóvar diferem dos modelos de representação da feminilidade nos primórdios do cinema em que os estereótipos de pureza e luxúria, anjo e demônio, beleza virginal e beleza destruidora, formavam bipolaridades dos tipos femininos na maioria das filmografias comumente encontradas. Kika é uma composição híbrida, dentro da iconografia feminina.

A filmografia de Almodóvar não reproduz os clichês usualmente encontrados num tipo de cinema que privilegia figuras representadas por personagens passivas ou patéticas, tipos femininos vitimadas pelos estereótipos da autonegação. Talvez por isso, o cinema almodovariano passe a ser percebido como atravessado por uma galeria de personagens femininas “reais”.

O conceito de máscara e semblante será recolocado, a partir dos estudos de Judith Butler, numa leitura de Jacques Lacan e a vida e a obra de Pedro Almodóvar serão revistas através de uma bibliografia extensa e substanciosa. Nesta, o estilo do cineasta indica a diversidade de gêneros discursivos baseados na colagem (collage) e na combinação enigmática (puzzle) que se destacam pela originalidade das marginais e provocativas mulheres modernas. Este modo de observar, algo como o voyeur, adquiriu dimensões até então desconhecidas no cinema.

Para maior detalhamento, consultar e ver (rever) o filme e o livro. Nas próximas postagens buscarei trazer mais detalhes, por hora finalizo uma vez que depois de ter digitado o texto tive que refazê-lo inteirinho, apagou-se sem que pudesse descobrir onde foi parar. Cruzes!



Notas:
1. Cf. David Bordwell. Apud. Rodrigues, Ana Lucilia. Pedro Almodóvar e a Feminilidade. São Paulo: Editora Escuta 2008.
2. Casetti, Francesco; Di Chio, Frederico. Cómo analizar um film. Barcelona: Paidós Ibérica, 1991.

quinta-feira, 1 de janeiro de 2009

KIKA: o cinema de Almodóvar







A postagem de hoje incursiona por um terreno não conhecido.
Resulta da tentativa de ler um livro, recebido de presente, que traz do cinema de Almodóvar, especialmente no filme Kika (1993) possibilidades para examinar a noção de semblante, conforme referência na obra de Jacques Lacan, para entendimento da especificidade de representação da feminilidade (1).

Trata-se de uma missão exigente que requer uma aproximação com uma área do conhecimento na qual realizei pouquíssimos diálogos, mas que sei da potencialidade. Nunca li Lacan, conheço Freud apenas de citações breves e sem a menor intenção de aprofundamento e de conhecimento. Entretanto, tenho-me dedicado a rever os filmes de Almodóvar. Realmente as personagens femininas criadas pelo cineasta realizam um trabalho de reconstrução de sexualidades, explora os limites da sexualidade humana, lhe conferindo a realização de uma obra cinematográfica que escapa da trivialidade e da banalização.

Ainda no primeiro capítulo da dissertação que se intitula Almodóvar e a construção do feminino no cinema, das referências citadas pela pesquisadora, além do núcleo específico de estudos sobre sexualidade e feminilidade, uma incursão pela teoria e base empírica do cinema. Por enquanto, paro por aqui. Como os (as) interlocutores (as) deste blog são raros e sensíveis, espero que se interessem também pelo desafio que se mostra nas articulações entre cinema e psicanálise (2).

Notas:

1.Kika, filme de Pedro Almodóvar, produção franco-espanhola de 1993.

2.Ana Lucia Rodrigues. Pedro Almodóvar e a Feminilidade. São Paulo: Escuta, 2008.