terça-feira, 13 de janeiro de 2009

Almodóvar e a feminilidade.






















Em 1960, a teoria e a história do cinema tem um assento preponderante nas universidades americanas e uma nova geração de professores de literatura e filosofia, muitos deles cinéfilos, organizaram-se em cursos sobre o ideário humanístico de diretores de cinema, com destaques para Ingmar Bergman, Satyyajit Ray, Akira Kurosawa, entre outros, em que duas escolas de pensamento ganham maior importância: a teoria da subjetividade e a teoria do culturalismo. Em 1970 vai prevalecer na teoria do cinema a influência de áreas do conhecimento que se inspiram nos campos da semiótica, da psicanálise, da análise textual/análise do discurso e estudos do feminismo. É neste campo, mas não só, que o trabalho de Ana Lucilia Rodrigues encontra um ponto de partida para abordar a feminilidade no cinema de Pedro Almodóvar (1).

Pedro Almodóvar e seu cinema vêm se constituíndo um objeto de estudo atual e permanente, desde os circuitos despretensiosos em conversas de bar aos círculos acadêmicos mais sofisticados e dedicados aos estudos de cinema, sua obra vem merecendo aplausos e interesse.

O estudo da Ana Lucilia Rodrigues mostra numa obra selecionada, KIKA, a forma peculiar de Pedro Almodóvar representar a feminilidade e as diferentes estratégias de figuração do feminino tomando como objeto de análise um filme produzido em 1993, e além da analise desta personagem almodovariana oferecer ao leitor um método de abordagem de análise fílmica, tendo o cuidado de advertir dos limites da universalidade metodológica(2). As figuras femininas de Almodóvar diferem dos modelos de representação da feminilidade nos primórdios do cinema em que os estereótipos de pureza e luxúria, anjo e demônio, beleza virginal e beleza destruidora, formavam bipolaridades dos tipos femininos na maioria das filmografias comumente encontradas. Kika é uma composição híbrida, dentro da iconografia feminina.

A filmografia de Almodóvar não reproduz os clichês usualmente encontrados num tipo de cinema que privilegia figuras representadas por personagens passivas ou patéticas, tipos femininos vitimadas pelos estereótipos da autonegação. Talvez por isso, o cinema almodovariano passe a ser percebido como atravessado por uma galeria de personagens femininas “reais”.

O conceito de máscara e semblante será recolocado, a partir dos estudos de Judith Butler, numa leitura de Jacques Lacan e a vida e a obra de Pedro Almodóvar serão revistas através de uma bibliografia extensa e substanciosa. Nesta, o estilo do cineasta indica a diversidade de gêneros discursivos baseados na colagem (collage) e na combinação enigmática (puzzle) que se destacam pela originalidade das marginais e provocativas mulheres modernas. Este modo de observar, algo como o voyeur, adquiriu dimensões até então desconhecidas no cinema.

Para maior detalhamento, consultar e ver (rever) o filme e o livro. Nas próximas postagens buscarei trazer mais detalhes, por hora finalizo uma vez que depois de ter digitado o texto tive que refazê-lo inteirinho, apagou-se sem que pudesse descobrir onde foi parar. Cruzes!



Notas:
1. Cf. David Bordwell. Apud. Rodrigues, Ana Lucilia. Pedro Almodóvar e a Feminilidade. São Paulo: Editora Escuta 2008.
2. Casetti, Francesco; Di Chio, Frederico. Cómo analizar um film. Barcelona: Paidós Ibérica, 1991.

quinta-feira, 1 de janeiro de 2009

KIKA: o cinema de Almodóvar







A postagem de hoje incursiona por um terreno não conhecido.
Resulta da tentativa de ler um livro, recebido de presente, que traz do cinema de Almodóvar, especialmente no filme Kika (1993) possibilidades para examinar a noção de semblante, conforme referência na obra de Jacques Lacan, para entendimento da especificidade de representação da feminilidade (1).

Trata-se de uma missão exigente que requer uma aproximação com uma área do conhecimento na qual realizei pouquíssimos diálogos, mas que sei da potencialidade. Nunca li Lacan, conheço Freud apenas de citações breves e sem a menor intenção de aprofundamento e de conhecimento. Entretanto, tenho-me dedicado a rever os filmes de Almodóvar. Realmente as personagens femininas criadas pelo cineasta realizam um trabalho de reconstrução de sexualidades, explora os limites da sexualidade humana, lhe conferindo a realização de uma obra cinematográfica que escapa da trivialidade e da banalização.

Ainda no primeiro capítulo da dissertação que se intitula Almodóvar e a construção do feminino no cinema, das referências citadas pela pesquisadora, além do núcleo específico de estudos sobre sexualidade e feminilidade, uma incursão pela teoria e base empírica do cinema. Por enquanto, paro por aqui. Como os (as) interlocutores (as) deste blog são raros e sensíveis, espero que se interessem também pelo desafio que se mostra nas articulações entre cinema e psicanálise (2).

Notas:

1.Kika, filme de Pedro Almodóvar, produção franco-espanhola de 1993.

2.Ana Lucia Rodrigues. Pedro Almodóvar e a Feminilidade. São Paulo: Escuta, 2008.

quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

2009: chega de genocídios!

2009: que viva a áfrica, a américa e a amizade


























A indicação dos verbetes para estudo, assinalados acima, não estão relacionados à seleção da imagem pictórica, esta resulta da exclusiva vontade de fazer uma referência ao belo. Desculpem-me.

remedios varo( 1908-1963)

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

Fim de Ano: 2008






















Com a aproximação do fim do ano e as inúmeras celebrações, nas diferentes redes de comunicação, deixo este espaço para retornar no próximo ano, com fé em Deus e Oxalá.

Antes, porém, queria enviar um agradecimento especial a todos(as) que passaram por este Blog e deixaram seus comentários, críticas e opiniões e, também, os que preferiram se comunicar por e-mails e telefonemas, suas mensagens foram bem-vindas.

Para a rede familiar, a de bem perto, um abraço forte para Flávia, Chad, Telma, Ananda, Yog, Mary, Pedro, Kátia, Analu, Adélia, Zuleide, Roberta, Zazo. E, para Clarice Nunes que me enviou um lindo cartão, dizer, será que um dia você vai ler essas blo(g)blagens?

Guardo todos vocês do lado esquerdo do peito. Esqueçi não, faltou Y. Aygut, Hayat!
Stela B. de Almeida

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

Convite






















É com imenso prazer que divulgo o convite recebido para assistir à inauguração do Espaço Unibanco de Cinema Glauber Rocha.

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

De Münsterberg a Emigholz: uma iniciação.











Série da obra de Heinz Emigholz. A intenção da série parece ser a de propor uma experiência perceptual, de conhecimento.



Nunca tinha ouvido falar em Hugo Münsterberg. Consultando a estante de livros de cinema na Biblioteca da Universidade Federal da Bahia, há pouco tempo atrás, localizei a antologia A experiência do cinema, organizada por Ismail Xavier. Folheando numa leitura diagonal, achei que esta antologia deveria compor a pilha de livros em consulta que, pacientemente, tenho tentado percorrer, ainda que saiba uma missão ad eternum (1)

Todos os outros autores citados, Béla Balázs, Maurice Merleau-Ponty, André Bazin, Edgar Morin, Serguéi Eisntein e outros, indicados no índice desta antologia publicada em 1983, fazem parte do repertório que aos poucos tento construir sobre cinema. Estes autores embora consultados, não eram trazidos como primazia num objeto de estudo mais recentemente focado, ou seja, na compreensão da linguagem cinematográfica em suas dimensões sintática e semântica.

Considerado pioneiro, Hugo Münsterberg, psicólogo alemão, professor da Universidade de Harvard, escreveu Photoplay: a psychological study, que segundo I.Xavier, antecipa idéias que iremos encontrar em Rudolf Arnheim (em O cinema como Arte), idéias relativas à psicologia do “fotodrama” e dos princípios gerais de sua estética. Estudo que examina as ilusões de profundidade e movimento contínuo criadas a partir de projeções descontínuas de fotografias estáticas. A aparência de profundidade é aceita pelo espectador que se envolve no “como se” da ficção, mostrando que o espectador não é um elemento passivo, é alguém que usa de suas faculdades mentais para participar ativamente do jogo, preenchendo as lacunas do objeto com investimentos intelectuais e emocionais.

Diz Xavier, expandido as idéias de Münsterberg, o espectador é alguém que usa de suas faculdades mentais para participar ativamente do jogo. Esta concepção estética confere portanto uma posição privilegiada pois o mundo exterior se reveste de formas da consciência. Mais ainda, o cinema supera as formas do mundo exterior e ajusta os eventos às formas do mundo interior numa exaltação da “vitória da mente sobre a matéria”. Neste mundo interior, a atenção, a memória, a imaginação e a emoção ganham relevo especial.

As bases que fundamentam esses princípios são encontradas em Kant, também trazidas por J. Dudley Andrew em As principais teorias do cinema, este, outro livrinho que se encontra na pilha a que me referia anteriormente (2). Interessante verificar como este pioneiro que pensou o cinema indica um ponto de partida para verificarmos em que medida as relações entre a organização das imagens e o movimento da subjetividade operam. Se este princípio mantém-se ativo, ainda hoje, a despeito de uma revolução tecnológica que opera na engrenagem fílmica, é possível perceber a multiplicidade de transformações da subjetividade sob o predomínio das imagens. Ou não? Estou me referindo a uma série de filmes que tive oportunidade de assistir nos Seminários On Line, principalmente os de Heinz Emigholz (3).


Notas:
1. Há vários volumes para consulta. Cf. A experiência do cinema: antologia/Ismail Xavier org. Rio de Janeiro: Edições Graal: Embrafilmes, 1983.
2. Este livrinho trouxe-me de presente, J. Dudley Andrew. As principais teorias do cinema: uma introdução. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed, 2002.
3. As aulas dos Seminários On Line foram reproduzidas e consultadas em 2007/2008. A aula que me refiro, especificamente, intitulada A Região Central de Movimento. Heinz Emigholz e a Imagem-Percepção fizeram parte do quinto seminário.